Entrevista

Israel Galván leva "Fla.co.men" ao Teatro Rivoli

Israel Galván leva "Fla.co.men" ao Teatro Rivoli

Israel Galván apresenta-se este sábado, às 19 horas, no Teatro Rivoli, no Porto, com "Fla.co.men", coreografia que estreou em 2014, mas que continua a ser programada em teatros pelo mundo inteiro, acabando de chegar de uma digressão de dez dias em Paris, França.

Do Porto, a companhia de Israel Galván partirá para Barcelona, Espanha, para o mítico festival El Grec, onde estará com a sua nova produção "La fiesta". Daí segue para o festival de Avignon, França. É a primeira produção da companhia que conta com um grupo de baile.

Como se desenrola o processo criativo?

Quando crio começo do zero, do nada. Na verdade, o que procuro é uma mudança para mim, procuro um "bailaor" novo. Como bailo desde criança, canso-me. Então, isto serve para encontrar novas coisas. Logo, segundo o que vai acontecendo, vou vendo. É muito livre, não sei onde vou, há algo em cada espetáculo que nunca sei exatamente o que é.

E já sabe quem são os músicos que escolhe para trabalhar consigo?

Nunca penso em ninguém. Penso primeiro em mim e no que faz falta. Depois entra em cena o fator casualidade de que encontre alguém. Eu confio muito nas casualidades. É então que, pouco a pouco, dia-a-dia, segundo me encontro, dependendo da época, às vezes estou mais alegre, outras vezes mais rebuscada.

Uma criação como espelhamento?

Há um conceito que é o eco. Tudo o que faço é sempre um reflexo, um espelho da minha forma de ver o mundo. O meu baile é um reflexo de diferentes filosofias.

Como se faz uma obra tantos anos e tantas vezes e se continua a manter a frescura?

Por exemplo, ainda faço "La edad de oro", uma obra que tem 15 ou 16 anos e gosto muito de voltar a fazê-la é como voltar ao meu apartamento. Tenho muitas casas novas e tenho de fazer muita decoração, como agora com "La fiesta", mas isso é viajar para sítios mais escuros. Para mim é sempre bom voltar ao meu apartamento.

"Fla.co.men" é uma segunda morada?

"Fla.co.men" é um espaço de conforto, começa a ser uma das obras base. À medida que a vou fazendo, vou mudando coisas, mas nada de coisas radicais, mudo um sofá de sítio, compro um quadro (risos).

"Fla.co.men" surgiu como ideia de recopilar obras feitas...

Quando comecei com "Fla.co.men", a ideia era fazer uma recopilação das minhas obras, mas na realidade saiu algo muito novo. Também porque o meu corpo já está de outra forma, diferente do original. Começámos com essa base, mas depois resultou totalmente diferente. Começas uma viagem, mas o corpo no dia-a-dia sente-se bem em sítios diferentes. Há obras que nascem e morrem e outras que pensas que tinham morrido e seguem vivas.

Há uma tirania do corpo quando há obras em digressão e outras a serem montadas?

Às vezes custa um pouco esse câmbio de corpo, algo telepático no palco. Como no "Game of Thrones", em que as personagens podem ter uma mudança de pele e vão de um corpo a outro. "Fla.co.men" custa um pouco no primeiro dia, mas sobes ao palco e ouves o "cantaor". O segundo dia já é mais fluído, tem o seu próprio clima, quando escutas a mesma música, a mesma luz... O corpo volta a encontrar-se.

É uma casualidade que tenha sempre "cantaores" de Jerez de la Frontera?

Não (risos). Em cada cidade canta-se de maneira diferente, há sítios a 15 minutos de carro de Sevilha em que não se canta da mesma forma que se canta lá. Com Jerez... Desde que comecei a trabalhar com (Fernando) Terremoto e logo com Alfredo Lagos que trabalho sempre com "jerezanos". Os de Jerez têm uma maneira, um "flow", um "swing" que me fazem bailar de outra maneira. Em Sevilha cantam-te de outra maneira, é o que se chama de "soniquete" de Jerez. Mas isso não serve para validar toda a gente. Em Jerez também há gente a cantar mal. Não é só porque nasceste aí que tens o ADN perfeito.

Em "La Fiesta" sente-se menos livre por partilhar a coreografia?

Na minha nova obra "La fiesta" partilho muito o palco o que é difícil. A coreografia é algo muito individualista para mim. Também não quero fazer um corpo de baile normal em que saio eu como principal, com os cavalinhos de Jerez atrás. Não se pode estar com bailes de vida e de morte todos os dias, de outra forma dava-me um enfarte. As digressões são muito boas para que o corpo entre em piloto, mas tenha espaço para trazer coisas novas todos os dias.

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