Humor

Isto não está para rir, mas precisamos de humoristas

Isto não está para rir, mas precisamos de humoristas

Comediantes ajudam a lidar com a ansiedade e até a pandemia pode ter uma perspetiva cómica.

"Tu gostas de caminhar sozinho; eu também. Por isso, podemos caminhar juntos". É uma graça que parece ter sido feita para estes dias de isolamento, mas não era seguramente sobre isso que Schopenhauer (1788-1860) refletia, quando recorreu a essa piada para formular uma teoria filosófica que fundamentasse racionalmente o humor. Não foi o único (Platão não era fã do riso) e não faltam tratados, na filosofia ou na antropologia, para tentar explicar a estranha contração de pelo menos 15 músculos faciais e a libertação sonora que alicerçam uma gargalhada.

Os tempos não estão para nos rirmos, mas é de humoristas que precisamos para que a tensão se desfaça um pouco, mesmo que seja um pouco de cada vez. "O humor é a perspetiva risível da vida e tudo na vida tem uma perpetiva risível", lembra Maria Rueff - que começou na "Antena 1" o programa "Estado de emergência" - , ao JN. Se há humor no Velho Testamento, tão preenchido de histórias dramáticas (Sara riu e sabia que outros se iriam rir quando soubessem que, já muito idosa, deu à luz Isaac), não há crime algum em recorrer à comédia para lidar com as dificuldades do quotidiano.

Mesmo que tenha só "um efeito placebo", assim o apelida Herman José, que apesar de tudo reconhece que o seu humor ajuda "as pessoas a ficarem mais felizes durante uns tempos". Ainda que, nota, o "verdadeiro milagre será médico. Tudo o resto são fogos-fátuos de alívio, mas que não resolvem nada".

Herman é dos clássicos portugueses que tem aproveitado o Instagram para um renascimento. Um exemplo para outros cómicos nacionais, agora a lidarem com dificuldades provocadas pelo cancelamento de espetáculos, e que se vão estendendo às redes sociais. Bruno Nogueira, por exemplo, tem realizados diretos no Instagram, em que convida figuras conhecidas para conversar. Tem tido milhares de espetadores.

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atualidade monotemática

Joana Marques também não presume o seu trabalho como uma missão socialmente fundamental. Importantes são as outras profissões que garantem os serviços essenciais. Mas o humor é um escape para a ansiedade. E ajuda "as pessoas a passarem o tempo".

A comédia de uma humorista como Joana Marques, que vive do aproveitamento do caudal informativo e que se desdobra pelas manhãs da Renascença com a rubrica "Extremamente desagradável", pelo programa de Ricardo Araújo Pereira na SIC (Agora na versão "Isto é gozar com quem teletrabalha") e ainda pelas crónicas dominicais no JN (ler na página 36), não tem uma tarefa fácil de cumprir.

A atualidade é monotemática e a capacidade criativa está em risco de se ir esboroando. Mas notícias têm surpreendido. Há acontecimentos paralelos, "todos os dias há alguém a falar e isso vai criando muito estímulo, muita coisa nova", nota, consciente da possibilidade de o assunto se esgotar: "A questão é saber quanto tempo isto vai durar e se as pessoas não vão ficar completamente saturadas disto."

Madre Teresa dos memes

Luís Rodrigues é o homem que cria provavelmente os mais partilhados (e engraçados) memes nacionais. São dele o cérebro e as mãos que dão vida ao "Insónias em carvão", página de fino humor e consistência assinaláveis. Tudo começou em 2013, com piadas sobre futebol, mas o futebol parou. "Isso obriga-me a pensar em novas coisas, para as quais não tinha tempo". "As pessoas pedem-me para continuar. Fico feliz com isso, mas não sinto que tenha uma missão especial. Não sou propriamente a Madre Teresa dos memes!".

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