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Joana de Verona: "O cinema fez-me conhecer outras culturas"

Joana de Verona: "O cinema fez-me conhecer outras culturas"

Joana de Verona é a protagonista do filme brasileiro "Tinnitus", premiado no Festival de Gramado.

Vencedor de três Kikitos, o troféu do Festival de Gramado cuja edição terminou ontem à noite naquela cidade do estado do Rio Grande do Sul, no Brasil, para melhor montagem, direção de arte e fotografia, do português Rui Poças, "Tinnitus" tem como atriz principal Joana de Verona.

No filme, a atriz luso-brasileira interpreta Marina, uma atleta de saltos sincronizados. Acometida por uma crise de tinnitus, uma condição auditiva que faz com que se ouçam em permanência sons e ruídos por vezes insuportáveis mas sempre incómodos, troca o desporto de alta competição por uma vida como sereia num aquário.

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Nascida em São Luís, no Maranhão, desde cedo em Portugal mas a partir de então com um pé entre os dois países, Joana de Verona é conhecida pelos filmes portugueses "Como Desenhar um Círculo Perfeito", "Os Mistérios de Lisboa", "A Morte de Carlos Gardel" ou "As Mil e uma Noites", pelos brasileiros "Praça Paris" ou "A Viagem de Pedro" ou por inúmeras presenças nos palcos e nos ecrãs televisivos de Portugal e Brasil. Em Gramado, estivemos a falar com a atriz

No filme, a Marina tem uma condição física muito peculiar, pouco conhecida mas afinal muito comum. Como é que se preparou para esse lado da personagem?

Tivemos uma preparação muito boa com uma médica, que tem uma postura sobre esta doença muito positiva. Quer muito entender as causas que levaram o paciente a ter o tinnitus. O tinnitus tem muitos tipos de zumbidos e de sons diferentes. Eu tinha um ficheiro que o diretor de som do filme, que fez um trabalho de som incrível, me deu e que tinha quinze tipos de sonoridades diferentes que uma pessoa pode ter, panela de pressão, grilos, insetos, água, apito.

Quais são as possíveis causas para se passar a ter esta condição?

Pode ser um fator emocional, como a personagem do António Pitanga, que perde a mulher e finalmente vai-se abaixo e gera esse problema. No caso da minha personagem não é completamente explicado. Terá seguramente a ver com a altitude, com as quedas, com a água, com a modalidade do salto sincronizado. Nós filmámos nas pranchas de dez metros, com a equipa de imagem e som à beirinha da prancha. E há outras causas que podem causar o tinnitus, os diabetes, um problema de coração, um trauma auricular de um balão que estoura no teu ouvido.

Percebeu se o tinnitus tem cura?

Não tem cura, mas há atenuantes. Deixar de fumar ou de comer açúcar ajuda. Encontrei no Festival de Karlovy Vary várias pessoas do público que achavam que eu tinha tinnitus. Ainda bem que não tenho. Mas foi um elogio. E falei com muitas pessoas que tinham tinnitus, pessoas muito diferentes. Para perceber o que é o desespero desta doença, como é lidar com ela. E tive pessoas próximas que tinham amigos de amigos que também tinham. Comecei a procurar por mim, a fazer eu própria entrevistas às pessoas.

A Joana teve um grande trabalho pela frente, para se preparar para todos os desafios desta personagem, que é uma atleta de alta competição.

Eu sou atriz. Também estudei realização nos Ateliers Varan, uma escola de cinema documental onde fiz o meu primeiro documentário, o "Chantal", que esteve no Indie, e quero muito continuar a preparar projetos e a filmar como realizadora, quero mesmo muito. Eu sou atriz, mas desde os oito anos que comecei a fazer dança. Mas depois com a vida e a escola tive mesmo de escolher e enveredei pelo teatro e depois pelo cinema. Mas o movimento do corpo, a dança e a performance, a endurance necessária, é uma coisa que me interessa muito. Existe um grande paralelo entre a resistência e a superação do atleta e do ator.

No filme tem de passar muito tempo debaixo de água. Qual a sua relação com esse elemento?

Eu não tinha medo da água, adoro água. O único medo real que tinha neste filme era ter tinnitus. Mas nunca tinha estado tantas horas dentro de água. Eu emagreci para o filme, deixei de fumar. Comecei só a comer comida de atletas. E estava a morar sozinha no Brasil. Todo o meu tempo sozinha em casa era para preparar a emoção. Eu não tenho nenhuma particularidade com a água, nunca fiz aulas de natação, fiz algumas aulas de surf, mas na adolescência. Gosto de água, água fria não. Mas em água quente adoro nadar. Já tinha feito mergulho com botija, é um universo que me encanta, mas obviamente assustador, porque o mundo subaquático impacta.

E teve de aprender apneia...

Já tinha visto mergulhadores a fazer apneia. É fascinante. Neste momento não faço ideia como está a minha apneia, com certeza não estará boa, mas na altura do filme estava. Nós temos apneia dinâmica e estática. Na dinâmica, dispensas mais energia e mais oxigénio, porque estás em movimento a nadar debaixo de água, que é o que eu faço no aquário. Na apneia estática aguentas mais tempo.

Como na cena da banheira...

Ontem estava a ver o filme e percebi que o plano não tem corte. E estava já muito tempo dentro da banheira antes do "ação". Eu de facto estava a fazer apneia. Depois quando estou a arfar, era mesmo real. Não me lembro exatamente quanto fazia, mas era um minuto, um minuto e quinze. Não sei se em apneia estática era um minuto e trinta, tenho esse número na cabeça. E também cheguei ao filme com uma entorse no pé.

Foi então mesmo um tratamento de choque, para conseguir fazer o filme.

Tinha aulas de natação, aulas numa academia para ficar com mais força. Depois apneia, ensaios para o filme, aulas de tinnitus com a médica, aulas de postura corporal das atletas em cima da plataforma, e ainda tinha fisioterapia. Cheguei com a entorse, mas isso ajudou-me. Para a fragilidade da personagem. Eu estava com o pé, a Marina estava com o ouvido. Tentei tirar proveito disso. E fazia fisioterapia para atletas, para ser mais rápido.

As minhas colegas de fisioterapia tinham nadado não sei quantos metros, corrido não sei quantos quilómetros. Na fisioterapia para a recuperação do meu pé, o atletismo e a natação estavam lá.

Como é que foi a vida em São Paulo, isolada do seu espaço de conforto?

Às vezes o universo conspira nas emoções dos trabalhos. A personagem anda muito de amarelo, o amarelo e o vermelho são cores fortes na paleta da direção de arte e na fotografia do filme. E em casa tinha um frigorífico todo amarelo na cozinha, um jogo de chá japonês completo que também existe no filme. Tinha um quadro de uma sereia a chorar no mar. E ao lado um outro quadro com as olimpíadas de Londres.

Tinha sido preparado pela produção?

Não tinham preparado nada. O apartamento era de uma brasileira que tinha ido morar para Lisboa e alugou aquela casa à produção, que só a tinha visto por fotos. Foi fantástico para a necessidade que se tem de entrar no universo artístico, de começar a recolher informação e a juntar peças. Se estivesse a fazer um outro trabalho ou a passar férias nunca teria reparado naquela sereia.

A Joana muda com uma enorme facilidade do português do Brasil para o português de Portugal.

E ainda tive aulas por causa do sotaque de São Paulo. Nasci em São Luís do Maranhão. Mas nasci e fui para Portugal. Depois vivi na Bahia. Depois voltei para Portugal. Depois morei no Rio. A minha família brasileira é carioca, onde fiz dança, teatro, escola. Às vezes trabalho no nordeste, ou em São Paulo, mas onde filmo mais é no Rio. É onde estou mais, com a família e os amigos. Por isso, o meu sotaque natural é carioca.

Qual é a estratégia para conciliar trabalho em cinema, teatro e televisão em ambos os países?

Não tenho nenhuma estratégia. Tenho a sorte de ter projetos bons, de ter trabalhado desde muito nova com pessoas muito cinéfilas e muito artísticas, de muita qualidade e isso ajuda-me a crescer. Como profissional e como criadora. A minha estratégia é tentar conciliar. Para fazer este filme não pude fazer uma série. O nosso trabalho tem essa dinâmica, às vezes não sabes o que vai acontecer, depois acontece tudo ao mesmo tempo.

Há uma verdadeira ponte aérea no seu trabalho.

Estás a fazer um filme no Brasil até às cinco da tarde de domingo e se for preciso na terça-feira de manhã já estás a começar outro projeto em Lisboa. Ou vice-versa. E ter de passar períodos no Brasil sozinha. Períodos em que não estou com a família, não estou com os amigos. Em que estou sozinha com uma equipa que não conheço. É um modo de vida. Eu gosto, tenho a sorte do cinema me fazer conhecer outras culturas e viajar bastante.

Consegue comparar a forma de trabalhar em Portugal e no Brasil?

Depende sempre dos projetos, da proposta artística. Eu gosto muito de cinema português, da capacidade que os profissionais do cinema português têm de fazer muito bem com muito pouco. O cinema português tem nomes absolutamente fulcrais na minha formação enquanto cinéfila e enquanto artista.

E no cinema brasileiro?

Gosto de uma certa diversidade e da riqueza de universos. Como o Brasil é um país continental, há muitas culturas, são cabeças, são universos cinematográficos completamente diferentes. O que mais me cativa no cinema brasileiro é essa possibilidade de, dependendo do território onde estás a filmar, tens um sotaque diferente, uma maneira de pensar diferente. Histórias, culturas, ritos. E isso também se traduz numa linguagem cinematográfica muito distinta, no mesmo país.

O que está a fazer neste momento?

A "Vanda", uma série dirigida pelo Simão Cayatte. Faço uma psicóloga forense. A série irá ser distribuída internacionalmente. Vou dobrar a série toda em francês e em português do Brasil. E estou com a Isabel Ruth, a Maria d"Aires, a fazer um espetáculo, "A Casa de Bernarda Alba", do Beto Coville, um encenador brasileiro. Vamos estar de 7 a 11 de setembro no Teatro do Bairro, em Lisboa.

Já assinou um documentário, há novos projetos de realização?

Não vou deixar de ser atriz, obviamente gosto muito do que faço, mas não sei se é pelo facto de fazer cinema desde os 14 anos e trabalhar muito na ficção, na realização escolhi o documentário, gosto muito de etnografia e antropologia. Eu fiz o "Chantal" com 22 anos. É um filme de escola mas tenho muito carinho por esse filme e tenho muito carinho pelo documentário.

Mas está a trabalhar já num novo filme?

O meu novo projeto, que está ainda numa fase muito embrionária, não sei quando e como vai acontecer, é também no documentário. Mas não descarto a possibilidade de vir a realizar ficções. Como sou intérprete e tenho possibilidade de transitar entre vários lugares, não tenho seis meses para escrever, depois mais seis meses para apoio e pré-produção, mais três meses para rodagem. Vai-se fazendo aos poucos e conciliando com o trabalho principal, o de intérprete. Então esse está mais vagaroso, mas acho que vai chegar no momento certo.

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