Cinema

João Botelho admite plágio na adaptação do filme "A peregrinação"

João Botelho admite plágio na adaptação do filme "A peregrinação"

A polémica estalou do lado do argumento: no último filme de João Botelho, o realizador não trabalhou sobre o livro de Fernão Mendes Pinto; baseou-se antes numa ficção histórica de Deana Barroqueiro. E não tinha autorização para tal.

O argumento do novo filme de João Botelho "A Peregrinação" não foi escrito com base no livro original de Fernão Mendes Pinto, mas sim a partir de um romance histórico de Deana Barroqueiro, "Corsário dos sete mares - Fernão Mendes Pinto". A denúncia foi feita pela própria historiadora, que expôs o caso na página pessoal de Facebook após ter recebido uma carta com um pedido de desculpas da parte de João Botelho. A carta fora também endereçada à sua editora, Casa das Letras.

Nessa carta explicativa, que o cineasta enviou por iniciativa própria, Botelho explica que tentou por várias vezes contactar Deana Barroqueiro, mas que nunca conseguiu chegar à fala com a escritora. "Sou o autor do filme 'A Peregrinação' e durante meses, nesta "arte de vampiro" que é afinal o cinema, li, consultei, adaptei e reescrevi cenas para a minha curta adaptação da vida e do livro de viagens de Fernão Mendes Pinto. Na verdade, o seu romance, 'Corsário dos sete mares', foi forte inspiração para algumas cenas do filme, as da China", lê-se na carta do autor de "Um adeus português".

Perdoe-me", diz o realizador à escritora
Aparentemente, Botelho também não foi bem sucedido no contacto com a editora livreira, "que tentei contactar e não conseguiu à primeira nem à segunda". E desculpa-se: "É evidente que devia ter insistido três, quatro vezes. Mas meteu-se a produção, trabalhosa, longa e difícil. Tive o cuidado de colocar em primeiro lugar nos agradecimentos, no genérico final do filme, o seu nome. É pouco, eu sei. Eu e o produtor aceitamos a sugestão da sua editora para colocar uma cinta com os dizeres: "Inclui episódios adaptados do romance 'Corsário dos sete mares". Perdoe-me", conclui o cineasta de 68 anos.

Verdadeiramente indignada, Deana Barroqueiro não escondeu os sentimentos e publicou tudo no Facebook. "A sua justificação de que não me conseguiu contactar nem à editora é inverosímil, bastava que algum dos seus ajudantes pusesse o meu nome no Google e acharia diversos meios para o fazer. Sou figura pública, tenho blogues, várias páginas no Facebook, e-mails e telefones e passo meses sem sair de casa, a escrever", apontou Deana Barroqueiro.

"Se eu vivesse na América não se atreveria..."
A autora, que é portuguesa mas nasceu nos EUA, há 72 anos, deixa ainda no ar uma ameaça: "João Botelho, se eu vivesse na América, o senhor não se atreveria a usar a minha obra do modo como o fez, porque lá os direitos de autor são sagrados. Em Portugal, as leis existem, mas só são cumpridas por alguns", sentenciou. Para a escritora, que já viu "A peregrinação" e até gostou do filme, é tudo muito claro: "Fiquei com a sensação de que o senhor seguiu mais de perto o guião do meu romance (porque de um guião se trata) do que o da 'Peregrinação' [de Fernão Mendes Pinto], que é confuso e de tal maneira intrincado, que me levou muitíssimo tempo a destrinçar".

"A peregrinação", estreado em novembro do ano passado, foi filmado em Portugal e na Ásia e tem como protagonistas Jani Zhao, Catarina Wallenstein e Rui Morisson. O filme, que ironicamente estava nomeado para melhor argumento adaptado nos prémios Sophia (perdeu para "A fábrica de nada", de Pedro Pinho), venceu, entre 11 nomeações, os prémios de melhor guarda-roupa, caracterização e efeitos especiais.

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