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João Pedro Rodrigues leva fantasia lusitana a Cannes

João Pedro Rodrigues leva fantasia lusitana a Cannes

"Fogo-Fátuo" teve ontem à noite estreia mundial na Quinzena dos Realizadores

Diz-se que esteve quase para representar finalmente Portugal na competição de Cannes, que não tem um cineasta seu a concorrer à Palma de Ouro desde 2006, quando Pedro Costa apresentou "Juventude em Marcha". Acabou por "cair" na Quinzena dos Realizadores, que no entanto acaba por ser a melhor plataforma para "Fogo-Fátuo", de João Pedro Rodrigues.

O filme acompanha um jovem de uma família aristocrata que, contra a vontade da família, decide ser bombeiro, conhecendo um colega com quem tem uma intensa relação física. Se o leitor acha que já percebeu quase tudo sobre o filme de João Pedro Rodrigues está muito enganado. Porque "Fogo-Fátuo" é uma fantasia, por vezes musical, um retrato muito irónico de uma certa mentalidade portuguesa, uma provocação visual, no bom sentido, o sentido que o cinema permite.

Entre jantares à mesa do mais retrógrado que a nossa sociedade possa ainda ostentar, coreografias musicadas no interior de um batalhão de soldados da paz, um fado por Paulo Bragança, falos de brincar que enchem o ecrã, ejaculações faciais e fogos, de diversos tipos, a serem extintos, ou não, "Fogo-Fátuo" é um daqueles filmes que só mesmo visto, por quem nos apaixonamos ou passamos ao lado, mas não nos deixa nunca indiferentes.

O filme, que se passa no ano "erótico" de 2069, e tem como intérpretes, entre outros, Anabela Moreira, Teresa Madruga, Margarida Vila-Nova e um recuperado Joel Costa, é ainda uma notável lição de economia cinematográfica. Financiado em Portugal e em França como uma curta-metragem, o filme, escrito por João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata, tem um pouco mais de uma hora de duração, passa a ser tecnicamente uma longa-metragem e acaba, ou melhor, começa, numa das secções mais importantes do Festival de Cannes. Um exemplo ainda da enorme liberdade que faz do cinema português um dos mais criativos e procurados pela comunidade cinéfila internacional.

Entretanto, a competição continuou, com os novos filmes dos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne e do italiano Mario Martone. Detentores já de duas Palmas de Ouro - "Rosetta" em 1999 e "A criança" em 2005 - além de vários outros prémios importantes do palmarés de Cannes, os irmãos Dardenne regressam às suas origens, no dispositivo fílmico que os tornou famosos e na dinâmica social dos seus guiões.

"Tori et Lokita" acompanha, sempre de muito perto, uma jovem emigrante do Benim que se tenta legalizar, acompanhando-se de um garoto que diz ser seu irmão e que salvou de uma tradição do seu país. Na Bélgica de hoje, sobrevivem a passar droga, ela a ter de pagar com o corpo alguns favores e os dois refugiando-se nas comunidades sociais e religiosas de apoio. O filme não traz muito de novo ao cinema dos Dardenne, o tema central quase poderia ser acusado de um certo oportunismo e a trama narrativa é por vezes demasiado fácil, sem mencionar um final que é isso mesmo, uma forma rápida de terminar o filme. Ainda não será desta que os Dardenne conquistam a terceira Palma de Ouro.

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Pelo contrário, há caminho aberto para "Nostalgia", o novo filme do napolitano Mario Martone, de que ainda se encontra nos cinemas em Portugal o filme anterior, o poderoso "O Rei do Riso". Agora, Martone conta-nos uma história contemporânea, embora com raízes no passado. Quarenta anos depois de abandonar a cidade e se instalar no Cairo, um homem regressa a Nápoles, na altura em que a sua mãe já muito idosa precisa da sua ajuda, aproveitando para um ajuste de contas com um velho amigo da juventude que é hoje um violento chefe mafioso.

Com uma notável interpretação de Pierfrancesco Favino, "Nostalgia" tem alguns dos mais belos momentos do festival, fazendo-nos penetrar num dos bairros mais perigosos da cidade e envolvendo-nos numa história de que desejamos avidamente conhecer a conclusão, sem que no entanto queiramos que o filme termine, tal a força do que ressalta do ecrã. Dificilmente o cinema italiano estará ausente dos principais prémios de Cannes 2022.

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