Cinema

"Joker", o filme que é um manual psiquiátrico para vilões 

"Joker", o filme que é um manual psiquiátrico para vilões 

O vencedor do Festival de Veneza estreia esta quinta-feira em Portugal. Nos EUA, o filme está classificado para maiores de 18 anos.

Quem tiver dúvidas sobre a legitimidade de um filme saído do universo dos DC Comics, isto é, da banda desenhada, ter vencido um festival tão conotado com o cinema de autor como o de Veneza, poderá tirá-las a partir de hoje, com a estreia de "Joker", de Todd Phillips.

Haverá quem pense que o filme foi afinal a desculpa de que o júri precisava para não dar o Leão de Ouro a Roman Polanski, depois das polémicas decisões da sua presidente, a argentina Lucrecia Martel, enquanto outros afirmarão estarmos perante uma visão mais adulta e profunda de uma personagem abordada normalmente segundo uma perspetiva puramente de entretenimento.

Finalmente, as duas teorias poderão estar ambas certas. Polanski dificilmente poderia sair totalmente vitorioso de Veneza 2019 e é verdade que "Joker" é uma variação inteligente, criativa, profunda e ainda assim espetacular de uma figura que já conhecíamos enquanto vilão de filmes da série "Batman", como Jack Nicholson deliciosamente criou para o "Batman" de Tim Burton, tendo agora direito a um filme "só para si".

Bem-vindos, então, à personagem de Arthur Fleck, um homem completamente posto à parte pela sociedade. Sofrendo de traumas de infância que o deixaram com uma condição psiquiátrica que o leva por vezes a rir compulsivamente, sem razão e sem conseguir parar, atacado por marginais quando tenta trabalhar honestamente como homem-anúncio, despedido de um emprego como palhaço por deixar cair ao chão, num hospital para crianças, uma arma oferecida por um colega para se defender, vivendo uma relação imaginária com a vizinha do lado, alvo de chacota numa malsucedida carreira na comédia de stand-up, Arthur Fleck consegue apenas ser notado pela sociedade de poder em que vive através de uma explosão catártica de violência.

Dito assim, "Joker" padece, é certo, de um excesso dramático que acaba por ser redundante e cumulativo, tornando-se uma espécie de manual psiquiátrico para vilões.

Mas Todd Phillips nem parece o mesmo da trilogia "A ressaca", mostrando-se capaz de criar um universo visual de grande riqueza plástica e Joaquin Phoenix encontra no "Joker" que lhe propuseram a personagem ideal para dar livre azo a todas as suas capacidades histriónicas, num trabalho que o levará seguramente à corrida para os Oscars.

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