Literatura

José Rui Teixeira e a matéria que não se dissolve

José Rui Teixeira e a matéria que não se dissolve

"Habeas corpus" assinala o regresso feliz de José Rui Teixeira às paisagens poéticas na chancela que dirige, a Officium Lectionis.

Logo a abrir, José Rui Teixeira (1974) fala de "Habeas corpus" como um "livro inacabado". A definição afigura-se, num primeiro contacto, pouco exata, ao sermos confrontados com poemas dotados de uma estrutura tão forte e minuciosamente concebida.

Com posteriores leituras, apercebemo-nos do seu sentido pleno, quando constatamos que, para o autor de "Autópsia", a incompletude é mais uma busca permanente do que uma espécie de falha ou rasura.

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Na origem dessa escolha está a epígrafe escolhida para o livro: uma citação de Rui Nunes, um dos seus autores de eleição, extraída de "Irradiante, o negro", livro editado já este ano pela Relógio D"Água, segundo a qual "a morte de quem escreve interrompe sempre outras mortes: é este o fascínio de um livro inacabado".

A demanda interior constante que atravessa "Habeas corpus" ajuda a explicar a inquietação do poeta, que aliou o lirismo à ironia para percorrer estados de alma que nem sempre estão representados na sua escrita."Deus expulsou-me do éden / mas fez-me atravessar a pé enxuto / o mar vermelho. / E uma coisa completa a outra", escreve.

Sem perder a firme coerência que caracteriza o seu "corpus" poético, José Rui Teixeira dá mostras neste livro de uma abrangência a vários títulos surpreendente para quem acompanha há muito o seu percurso literário.

A morte, temática omnipresente na sua poesia, é convocada com frequência, mas o suposto negrume que ela evoca é matizado por outras referências, sejam de pendor memorialístico ou amoroso.

Seja "a morte que se alimenta da vida" ou, afinal, "a vida que se alimenta da morte", há nestes poemas ampla matéria e espaço para deixar entrar "a alegria branca", que pode surgir sob a forma de "mulheres que descem ao rio e fermentam nas mãos o fruto, a manhã".

Se o título do livro remete para contextos jurídicos que por norma colocamos nos antípodas da poesia - no seu interior encontramos outras duas expressões latinas, "Omnes eodem cogimur" ("somos todos impelidos para o mesmo lugar") e "Omnes una manet nox" ("uma só noite nos espera a todos") -, é, todavia, um olhar profundamente livre aquele que José Rui Teixeira concretiza no seu regresso feliz à publicação.

"Habeas corpus"

José Rui Teixeira

Officium Lectionis

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