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Julia Ducournau, uma realizadora que vê beleza na monstruosidade

Julia Ducournau, uma realizadora que vê beleza na monstruosidade

Em entrevista, cineasta francesa fala de "Titane", Palma de Ouro de Cannes, que chegou esta semana às salas portuguesas.

Inesperada Palma de Ouro de Cannes, "Titane" é o segundo filme de terror da francesa Julia Ducournau. Depois do canibalesco "Raw - Grave", a nova obra penetra no território cronenbergiano do terror clínico e das mutações. Um filme controverso, que tem gerado ódios e cultos, chegou esta semana às salas de cinema nacionais, para o público o avaliar.

A reação das pessoas às primeiras projeções foram muito díspares, houve quem adorasse mas também houve quem não aguentasse e saísse da sala a meio.

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Não tenho um plano sádico quando escrevo os meus filmes para fazer as pessoas saírem da sala. Os meus filmes não são assustadores. Podem é ser perturbadores. Há filmes com cenas que assustam e é esse o seu plano, eu percebo. Não é o meu, mas percebo que haja pessoas que fiquem demasiado perturbadas para verem o meu filme até ao fim.

Houve quem lhe chamasse provocação.

Também não considero que seja uma provocação. A provocação é sempre gratuita. Peço desculpa mas levo o meu trabalho demasiado a sério para pensar que pode ser gratuito. O que tento é contar uma história que eu acho que é bonita. Mas ter uma reação é sempre melhor do que adormecer na cadeira.

De onde é que partiu esta história?

Comecei a escrever "Titane" quando estava em pós-produção do "Grave". Tinha passado tanto tempo com o filme que precisava de uma lufada de ar fresco, de pensar numa outra história. Percebi que "Grave" era também uma história de amor incondicional. Como me era difícil falar de amor por palavras, comecei a escrever esta história e ver o que dava.

Como é que chegou a estas personagens?

Tinha um pesadelo recorrente, há muitos anos, de dar à luz peças de motor de automóvel. Quando acordava estava sempre a tremer, mas sabia que a imagem era muito forte. Tinha de fazer qualquer coisa. Pelo menos no meu pesadelo era fantástico.

Quem é este novo ser que vemos no fim do filme?

Comecei a pensar num filme que terminasse com o nascimento de uma nova humanidade. Como o fim de um ciclo e o começo de outro. Uma nova humanidade mais forte do que nós somos agora. Pode parecer um monstro, mas eu vejo beleza na monstruosidade. É algo que quebra a norma em que vivemos hoje.

O título tem conotações mitológicas.

Há o nascimento dos titãs, que vêm da relação entre Uranus e Gaia, os deuses gregos para o Céu e a Terra. As duas personagens do filme estão para lá da humanidade, ela já definitivamente, ele a caminho, e quando se encontram vão dar origem a algo de novo. No fundo, o meu filme é muito otimista.

Como é que escolheu a protagonista do filme?

Queria escolher alguém que não fosse conhecido. Fiz um casting com mulheres e homens. Queria alguém andrógino e que pudesse aguentar todas as fases da transformação. A partir daí, a pessoa que eu iria escolher tinha de ser diferente do imaginário que o cinema nos propõe. Teria de ser alguém novo, moderno e não convencional.

Já disse que queria mostrar o Vincent Lindon como nunca o tínhamos visto. Como é que discutiu a personagem com ele?

Ele aceitou imediatamente, quando lhe enviámos o guião. Depois, apenas lhe expliquei vagamente a psicologia da personagem. Tem-se mais a ganhar se aproveitarmos bem a energia da rodagem. Se lhe explicasse muito, perdia-se a espontaneidade. A única coisa que ele tinha de fazer antes era ganhar bastante peso e massa muscular. Foi mais um trabalho de preparação física que psicológica.

"Grave" podia ser apenas uma experiência no género, mas agora percebemos que este é o tipo de material que gosta de trabalhar. De onde vem o seu interesse pelo horror?

Estranhamente nunca escolhi os filmes que via pelo género. Sempre gostei de filmes de terror mas via todos os géneros de filmes. Temos de expandir a nossa cultura cinematográfica o mais possível. Quando faço um filme penso mais em fotografia e em pintura ou mesmo em música, do que num ou noutro filme em particular.

O seu nome tem sido comparado ao David Cronenberg dos primeiros filmes.

Quando descobri os filmes dele era uma adolescente. Foi a primeira vez que vi filmes porque queria e não porque alguém me dizia para os ver. Mas não partilhei com ninguém, com medo que achassem que era bizarra, por achar aqueles filmes maravilhosos. A única coisa que via neles era beleza. O Cronenberg mudou qualquer coisa em mim e é irreversível. Mas não é uma homenagem, é apenas a forma como eu digeri o seu trabalho.

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