Literatura

"Júlio Dinis - ecologia e futuro"

"Júlio Dinis - ecologia e futuro"

"A obra de Júlio Dinis, autor tão mal lido entre nós, é um marco daquilo a que poderíamos chamar uma ecologia natural e humana: uma visão integrada das relações entre o humano e o natural.", defende a professora catedrática e ensaísta Helena Carvalhão Buescu neste artigo, publicado no exato dia (12 de setembro) em que se cumprem 150 anos da morte do romancista.

"A obra de Júlio Dinis, autor tão mal lido entre nós, é um marco daquilo a que poderíamos chamar uma ecologia natural e humana: uma visão integrada das relações entre o humano e o natural.

É este o equilíbrio que procura - e que, na sua perspectiva, permitirá garantir a construção do futuro. Em meados do século XIX, as profundas transformações sociais derivadas do fim do Antigo Regime eram já totalmente visíveis. Toda a obra de Dinis responde à consciência da revolução social, política e cultural que inaugurara a época contemporânea, ao mesmo tempo que propõe estratégias literárias e culturais possíveis para que da destruição do antigo possa nascer um mundo mais equilibrado e feliz.

Um dos princípios de revisão da sua obra passa por compreender que a sua "família literária" não é a dominante em Portugal no século XIX. De facto, não é o romance francês, à la Balzac, Flaubert, ou outros, que corresponde ao modelo dinisiano. Com Dinis, temos de olhar para outro lado. A sua família é a do romance inglês de estirpe burguesa, em que a família se torna o microcosmos da sociedade e onde os problemas (pessoais e sociais) que se resolvem à escala do pequeno podem depois encontrar soluções análogas à escala do grande. Assim, o grande modelo social para Dinis é o modelo da ALIANÇA. Só ela pode responder àquilo que estava a chamar-se luta de classes. Este é o grande modelo do romance inglês do século XIX, em particular da 1.ª metade.

O regresso ao campo não é, pois, um regresso idealizado, mas um regresso adequado aos novos valores de uma nova sociedade. Esta é uma dimensão ecológica essencial, em que Júlio Dinis lança as bases, com A Morgadinha dos Canaviais, do que Eça depois virá a fazer com A Cidade e as Serras.

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Ainda ao modo inglês, os problemas centrais da intriga dinisiana situam-se dentro da família, e das grandes alterações que a política introduz na sua composição e na sua plástica sobrevivência. Em todos os seus romances encontramos famílias em crise - da família comercial de Mr. Richard Whitestone, e da "estroinice" de Carlos; à casa fidalga e decadente d"Os Fidalgos da Casa Mourisca; e mesmo à composição do lavrador abastado que encontramos n"As Pupilas do Senhor Reitor, José das Dornas, e que duplica a figura de Tomé da Póvoa, d"Os Fidalgos da Casa Mourisca. Em todos estes romances, a intriga amorosa (que, muito devido à influência inglesa, "termina bem") não é, pois, apenas pessoal. Na verdade, as danças dos pares amorosos constituídos nos seus romances têm de ser entendidas como danças sociais nas quais classes e géneros (feminino e masculino) constituem elementos inseparáveis. Júlio Dinis declina a relação amorosa como imagem do equilíbrio futuro, que encontra a paz social numa união entre duas personagens e duas famílias pertencendo a classes distintas.

A sua obra ocupa-se também dos grandes momentos de passagem entre uma sociedade ancorada ainda no Antigo Regime, que não acabou totalmente, e a sociedade burguesa moderna, que se constitui como substituta da anterior aristocracia. Por esta razão, e porque o valor central da sociedade burguesa é, ao contrário da sociedade aristocrata, o valor do trabalho, a importância da relação laboral é sempre elemento central na narrativa dinisiana.

A todos os títulos, para Júlio Dinis, é este um Portugal em vias de emancipação (como Cecília, de Uma Família Inglesa, que sai com amigas sozinha, à noite, para celebrar o Carnaval). Porque, tendo resolvido preconceitos sociais e conflitos de classes, encontra no cuidado da natureza, na educação das classes mais desfavorecidas, no acesso à leitura, no valor transformador do trabalho, no universo familiar e doméstico, um conjunto de contratos sociais que lhe permitem encarar com confiança uma visão emancipatória do que um futuro ecologicamente mais equilibrado poderá ser.

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