1942-2022

Lauro António partiu mas ficou um legado no cinema

Lauro António partiu mas ficou um legado no cinema

Crítico e cineasta faleceu esta quinta-feira em Lisboa, aos 79 anos. Funeral realiza-se setxa-feira dia 4 às 14.15 horas no cemitério dos Olivais. O crítico João Antunes escreve testemunho sobre a biografia partilhada com Lauro António desde a década de 1970.

O Lauro António deixou-nos. Cinéfilo apaixonado como poucos, deve ter sabido da Monica Vitti e decidiu ir atrás dela. Cá por estes lados chamaram-lhe ataque cardíaco fulminante. Ficará para sempre, sobretudo para os que o conheceram bem, a simpatia, a generosidade, a capacidade de comunicação. Uma paixão pelo cinema que partilhava tanto com os que lhe eram mais próximos como com aqueles que o abordavam em múltiplas ocasiões.

Foi por aí que o conheci, jovem cineclubista universitário a precisar de uma "cunha" para alugar umas cópias mais baratas na Lusomundo, proprietária de dois cinemas em Lisboa que, nesses finais da década de 1970, ele então programava, o Apolo 70 e o Caleidoscópio. Eu e o meu colega de aventuras cinéfilas decidimos fazer-lhe uma espera no Vává centro histórico do Cinema Novo português, e em cujo prédio ele já vivia.

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E foi à primeira. Recebeu-nos de braços abertos, como se nos conhecesse há muito. As cópias chegaram a bom preço e continuei a encontrar o Lauro, em especial nos então tão importantes festivais da Figueira da Foz. Foi aí que, em 1980, apresentou o que seria uma lufada de ar fresco no cinema português da altura, uma adaptação cuidadosa, inteligente por saber que era cinema e já não literatura, da "Manhã submersa" de Vergílio Ferreira.

Meses mais tarde, foi um grupo de jovens nervosos e fascinados que lhe bateu à porta para uma entrevista sobre o filme, para uma revista editada na universidade. A surpresa maior ainda estava para vir: o Lauro convencera Vergílio Ferreira a ir a sua casa falar connosco sobre o filme.

Entrar em casa do Lauro era como penetrar na gruta de Ali Babá, onde os tesouros davam pelo nome de revistas, livros e, quando começou a ser possível ver cinema em casa, cassetes vídeo e DVD. Por vezes era difícil andar de um lado para o outro, naquela desarrumação arrumada onde nos sentimos à vontade mas costuma irritar aqueles que vivem connosco.

E foi em boa hora, em mais uma demonstração de altruísmo e de pensar no outro, que doou o seu espólio a uma instituição em Setúbal, uma Casa das Imagens que leva o seu nome. Cidade onde ainda há poucos dias fizera mais uma das suas inúmeras palestras sobre cinema, tão contagiantes para quem as ouvia e que tantas vocações despertava. E onde, dentro de dias, estava prevista - e deverá realizar-se - a projeção de uma série de filmes comemorativos dos 50 anos da abertura do infelizmente já extinto cinema do Apolo 70.

Lauro António nasceu em Lisboa, a 18 de agosto de 1942, viveu parte da infância e adolescência em Portalegre e regressou à capital para estudar História. Escreveu nos jornais "República", "Diário de Lisboa", "Diário de Notícias", "A Capital" e "Se7e", e nas revistas "Plateia" e "Opção", "Isto É Espectáculo" e "Isto É Cinema", que dirigiu. A sua escrita era ao mesmo tempo formativa e informativa. Nunca escreveu só para si, mas para os que o liam.

Foi membro do Cine-Clube Universitário de Lisboa e dirigente do ABC Cine-Clube. Realizou as curtas "Vamos ao Nimas" e "Prefácio a Vergílio Ferreira", e depois de "Manhã submersa" dirigiu a série "Histórias de mulheres", para a RTP e a longa-metragem "O vestido cor de fogo". Nunca conseguiu viabilizar um projeto antigo que tinha sobre Florbela Espanca.

Disse-se ainda - talvez mito urbano - que Lauro António esteve ligado por cá às pesquisas para uma longa-metragem nunca realizada por Stanley Kubrick sobre Napoleão Bonaparte. Experimentando ainda o teatro, teve programas na televisão e na rádio, dirigiu festivais e escreveu vários livros sobre cinema, deu aulas e orientou seminários. Uma vida dedicada à sua paixão. Até sempre, Lauro...

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