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Leonor Antunes não aceitaria convite para Veneza se viesse de um governo de Direita

Leonor Antunes não aceitaria convite para Veneza se viesse de um governo de Direita

A artista plástica Leonor Antunes, a escolhida para representar Portugal na 58.ª Exposição Internacional de Arte vai decorrer de 11 de maio a 24 de novembro deste ano, na cidade italiana, assumiu ontem ter aceitado o convite que lhe foi endereçado pelo curador João Ribas, "porque Portugal vive uma situação fora do comum e tem um Governo fantástico".

A artista plástica portuguesa Leonor Antunes chegou a afirmar que nunca aceitaria representar Portugal na Bienal de Arte de Veneza deste ano se estivesse neste momento um Governo de direita a dirigir o país.

No final da conferência de imprensa, Leonor Antunes reiterou as suas convicções políticas: "Tem a ver com a situação muito grave que estamos a viver hoje em dia".

"Se estivesse o PSD ou o CDS no Governo, eu não aceitaria porque não são valores em que eu acredito. Eu defendo os valores da democracia, embora sejam regimes também democráticos, eu defendo os valores de esquerda", afirmou.

Na opinião de Leonor Antunes, que reside desde há 2004 em Berlim, "um artista também representa um país".

"Eu estou a representar o meu trabalho, a mim própria, mas também represento Portugal, e defendo o Governo que existe no país", sustentou.

A artista referiu a situação vivida na Alemanha, recordando que "o Governo não é assim tão desinteressante, mas, neste momento, a extrema direita também está no parlamento, com uma presença bastante forte, que até há pouco tempo era proibida".

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"Sou uma estrangeira que vive em Berlim e não são esses os valores que quero dar à minha filha", sublinhou a artista de 46 anos, que diz estar "num momento bom" do seu percurso artístico.

Ressalvou, no entanto, que o alvo do projeto não é nacionalista, mas internacional: "Não me vejo como uma artista portuguesa. Sou uma artista que, por acaso, nasceu aqui [em Portugal], mas o nosso público é internacional".

A artista falava no decorrer da apresentação oficial do projeto, que teve lugar esta quarta-feira, no Teatro Nacional de São Carlos, na presença da ministra da Cultura, Graça Fonseca, do curador português da bienal, João Ribas e do recém empossado diretor- geral das Artes, Américo Rodrigues.

"A seam, a surface, a hinge or a knot" ("uma costura, uma superfície, uma dobradiça ou um nó", em tradução livre), assim se intitula o projeto de Leonor Antunes, concebido propositadamente para ocupar três salas do Palazzo Giustinian Lolin, onde estará instalado o Pavilhão de Portugal. A pré- abertura da exposição está marcada para 8 de maio.

"O título que escolhi para este meu projeto foi retirado de uma frase que a historiadora Briony Fer escreveu para a exposição que inaugurei no ano passado em Milão", revelou hoje a artista no decorrer de uma conferência de Imprensa.

Ainda sem imagens concretas do trabalho q ue está a realizar, a artista adiantou que o mesmo "envolve história de arte, arquitetura e design", e "reflete sobre as funções dos objetos do quotidiano, contemplando o seu potencial para se materializarem como esculturas abstratas".

Para isso, a artista adiantou ter pesquisado o trabalho de figuras importantes no contexto da arquitetura de Veneza, como Carlo Scarpa, Franco Albini e Franca Helg e, mais recentemente, Savina Masieri e Egle Trincanato, de forma a incorporar essas premissas nas esculturas/instalação que irá desenvolver.

"Estou a trabalhar com várias oficinas de artesãos de Portugal e de Itália na área dos vidros, do cobre, da madeira e do couro. Interessa-me explorar de que forma as tradições artesanais de várias culturas se cruzam nesta história, ligando, por exemplo, o conceito japonês de Shakkei, que denota o uso de uma paisagem de fundo no projeto de um jardim, com o trabalho de Scarpa e formas de artesanato originárias de Itália, Japão e Portugal. Alguns elementos da exposição são fabricados na Falegnameria Augusto Capovilla, uma das carpintarias venezianas ainda ativas que trabalharam de perto com o arquiteto Carlo Scarpa", adiantou a artista.

"Como projeto site-specific,a seam, a surface, a hinge, or a knotfoi concebido em relação com o local escolhido para acolher o Pavilhão de Portugal, ao qual a artista respondeu com uma série de gestos e motivos esculturais", acrescentou o curador, João Ribas.

Assim, no piso inferior do Palazzo Giustinian Lolin, irá ser revestido por um pavimento intercalado por duas esculturas que funcionam como telas e dois candeeiros concebidos por Trincanato para o Istituto Nazionale per L'Assicurazione Contro gli Infortuni sul Lavoro (INAIL) em Veneza.

No piso nobre, uma série de perfis de alumínio revestido, baseados em exposições de Trincanato, funcionam como elementos recorrentes.

Distribuídos pelo espaço, o seu ritmo vertical envolve e suporta esculturas intricadas fabricadas em mogno, freixo, aço inoxidável e tília. A artista irá criar também várias lâmpadas em latão e vidro soprado feitas em colaboração com uma fábrica de vidro em Murano. As próprias janelas do palácio irão seralteradas de modo a permitirem a entrada de luz natural no espaço interior.

"Não foi fácil adaptar o conceito do meu projeto a um palácio histórico. Há muito trabalho a fazer de modo a que a minha intervenção não colida com o que existe. Por exemplo, as grades telas que decoram as paredes de uma das salas do palácio terão de ser repostas ao contrário. Também há que retirar lustres e reforçar vigas. Há uma equipa de restauradores a trabalhar nisso", adiantou a artista.

Pela primeira vez, a representação portuguesa na Bienal de Arte de Veneza foi selecionada através de um concurso promovido em 2018 pela Direção-Geral das Artes (DGArtes), facto que hoje foi ressaltado quer pelo curador e artista, quer pela ministra e pelo diretor-gerald as Artes.

Numa modalidade até agora inédita, nove curadores foram convidados a apresentarem propostas, analisadas por uma Comissão de Apreciação constituída por representantes da DGArtes e da AICEP, (Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal). Também foi constituído um júri, que contou, entre outros, com os curadores Sergio Mah e Jürgen Bock e a historiadora de arte contemporânea Catarina Rosendo.

"Esta modalidade de concurso é para ter continuidade", assegurou Graça Fonseca que aproveitou para lembrar que, nos últimos 20 anos de edição de Bienal de Veneza, Leonor Antunes é a quarta mulher a ser escolhida para representar Portugal..

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