Teatro

Líderes fracos, desgraças fortes

Líderes fracos, desgraças fortes

"O Rei João", de Shakespeare, orientado para o presente pela Escola do Largo, está em cena no Teatro Carlos Alberto, no Porto. Há quatro récitas, esta quinta-feira, sexta, sábado e domingo.

É uma das peças menos cotadas de Shakespeare, tanto no meio teatral como académico. "O Rei João", escrita na década de 1590, tem também como protagonista um dos monarcas menos amados da Inglaterra, conhecido como "João Sem Terra", estando o seu reinado associado à perda de territórios em França e ao fim do Império Angevino, em 1214. Foi a liderança fraca do rei que atraiu Marcos Barbosa e a Escola do Largo para a encenação do espetáculo que tem coprodução do Teatro São João.

"Há um espelho para a atual realidade neste drama histórico", diz o encenador. "João representa tudo o que um líder não deve ser, alguém que passa por guerras, deixa um rasto de mortos, mas não muda realmente nada. Não há uma revolução, não há um amor impossível. A única alavanca para as decisões são os interesses.

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Nesse sentido, está muito próximo da maior parte dos líderes atuais". Também Jacinto Lucas Pires, responsável pela dramaturgia da peça, encontra ecos no presente: "A polarização e o divisionismo, a demagogia e o populismo, a desinformação e a manipulação ganham concretizações cristalinas".

Repleta de intrigas palacianas e lutas pelo poder, o drama de Shakespeare tem uma concretização minimalista no palco do Carlos Alberto. Apenas quatro atores - Luciano Amarelo, Pedro Fontes, Pedro Moldão e Marcos Barbosa - desdobram-se por vários papéis num espaço feito de geometrias e marcações. O encenador quis explorar o contraste entre a violência das palavras e uma certa bufonaria por parte dos intérpretes, que usam perucas e se movem artificiosamente.

Há uma personagem lúcida em palco, o Bastardo, filho do anterior rei, Ricardo Coração de Leão, o único que tem "compreensão sobre o funcionamento do Mundo", diz Marcos Barbosa.

Mas a verdadeira contracena com o Rei João deverá ser o público: "Não queremos apontar dedos, porque se há um Zuckerberg com demasiado poder e se a Europa não funciona de acordo com os seus valores, a responsabilidade também é nossa. Não podemos esperar mudanças se não mudarmos primeiro nós próprios".

"Rei João" tem ainda quatro récitas agendadas no Teatro Carlos Alberto: esta quinta-feira (19 horas), sexta-feira (21 horas), sábado (19 horas) e domingo (16 horas). Os bilhetes custam 5 euros.

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