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Lisboa e Liberdade, as escolhas de Madonna

Lisboa e Liberdade, as escolhas de Madonna

No segundo concerto no Coliseu dos Recreios, Madonna voltou a levantar a sala por Portugal, pela sua música e pelas suas causas.

Ainda antes de surgir em palco, em "voz off", Madona explicou ao público por que decidiu que não haveria telemóveis na sala - à entrada, são enfiados em pequenas bolsas de tecido invioláveis e só são destrancados à saída. "Quero que estejam presentes e aproveitem esta viagem connosco. Não deixem que nada nos atrapalhe", disse, antecipando a primeira aparição, atrás da projeção de uma enorme bandeira dos EUA, queimada e desbotada. Mais tarde, e por duas vezes, haverá de manifestar-se contra a liderança do seu país: chama a Donald Trump "um homem com um pénis pequeno" e, depois, um "psicocopata" que não tem pudor em "inventar uma guerra" para lidar com um processo de "impeachment" em curso. ""God bless America", haverá de pedir.

"Madame X", a enésima iteração de Madonna, revelada no disco homónimo do ano passado, subiu esta terça-feira pela segunda vez ao palco do Coliseu dos Recreios para oferecer um espetáculo em que a rainha da pop retribuiu a "inspiração" que Lisboa lhe deu, desde que se mudou para Portugal há três anos. Em cerca de duas horas e meia, com as músicas do novo álbum, trouxe para o palco o fado, a morna o funaná e as suas músicas intemporais.

O concerto foi música, mas também política e manifesto sobre a atualidade mundial. Levantou o braço contra guerras, a proliferação de armas nos EUA, a discriminação e a emergência climática. Durante "God control", sublinhou estarmos "todos no mesmo barco. Se o navio afundar, afundamos todos. Mas nós não vamos deixar que isso aconteça", diz, sobre a urgência de "uma nova democracia".

A ambição política é grande e de abrangência global, mas Madonna quer um espetáculo de intimidade, em comunhão com o público. Exigiu que todos se entregassem, mas devolveu tudo, sem reservas, apesar das lesões e das dores que revelou ter nas pernas (e que levaram ao cancelamento de alguns concertos da digressão nos EUA). Madonna, 61 anos, cantou, tocou, dançou e interagiu abundantemente com a sala.

No regresso à sua "segunda casa", como chamou a Lisboa e onde arranca a tournée europeia que tem passagem também por Londres e Paris, voltou a explicar a mudança para a capital portuguesa. A história é conhecida. A paixão do filho pelo futebol e por treinar no Benfica fê-la sair da sua "zona de conforto" e descobrir novas sonoridades e "grandes mulheres", por quem se diz ter apaixonado. Fala da fadista Celeste Rodrigues, cujo bisneto Gaspar Varela convidou para a acompanhar neste espetáculo com a guitarra portuguesa; de Cesária Évora, de quem canta "Sodade" com Dino d'Santiago; e das Batukaderas de Cabo Verde, que catapultou para a fama e com quem balanceia em palco. "Sejam orgulhosos de vocês porque criaram todas estas mulheres fantásticas".

Em casa e em português

Houve sentimento de pertença quando o palco se transformou na casa de fados de Madonna, onde a norte-americana arriscou cantar em português: "Perguntei a um fadista/ Qual é sua devoção/ Apontou-me uma guitarra/ E bateu no coração"". Por várias vezes, desejou uma Amarguinha ou um Porto Branco - mas só bebeu cerveja em palco -, e para o fim reservou alguns dos temas mais acarinhados pelo público. Quando canta "Frozen", é projetado um vídeo da filha mais velha, Lourdes Leon, atualmente com 22 anos, numa performance de dança. Todos os filhos de Madona passam pelo palco.

"Like a prayer" foi talvez a música com que a sala mais vibrou, embora o público mal se tenha sentado durante o concerto, que acabou com a cantora a gritar a palavra "Home". Madonna voltou ainda para um encore, com "I rise". O ecrã exibe imagens de florestas a arder, do ataque de Parkland, de vítimas de guerra e pessoas amputadas. A sua eterna luta, garante Madonna, é pela Liberdade. A tela transforma-se numa enorme bandeira LGBTQ+ e Madonna deixa a sala atravessando o corredor principal do Coliseu, de punho erguido. E grita: "Power to the people".

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