Livros

Livre e insubmisso até à última linha

Livre e insubmisso até à última linha

Mais de um um século depois de ter sido escrito, "Manual de civilidade para meninas e de uso nas escolas" mantém a aura de "livro maldito". O seu autor, Pierre-Félix Louys, viveu sempre no limite.

Nem só de revoluções políticas e sociais se fez o ano de 1917. Data exatamente desse período uma obra que também apela a uma certa forma de sublevação. Não a das massas, mas a do indivíduo, mais especificamente no plano da chamada moral e dos bons costumes, contra o abastardamento do amor, antes de mais.

Sob o inocente título de "Manual de civilidade para meninas e de uso nas escolas", Pierre-Félix Louys desfere um violentíssimo ataque às condutas sociais da época, assentes no que considerava ser uma profunda hipocrisia: a ocultação do lado sensorial como componente fundamental da existência.

O tema foi recorrente na extensa obra do autor de "Afrodite" (1896), atravessando os seus poemas, romances e ensaios. Mas nunca como em "Manual de civilidade..." ousou ir tão longe, ao enunciar um conjunto de preceitos, sob a forma de recomendações ou advertências, para a prática do amor livre universal, com especial ênfase nas jovens, não por acaso as principais destinatárias das práticas fortemente castradoras então dominantes.

"Se estiver ao pé de uma dama que se ajoelha arqueando os quadris, não lhe pergunte se essa prática lhe traz enternecidas lembranças", escreve o autor num dos poucos fragmentos suscetíveis de serem aqui publicados.

Com um incontido humor e uma mais do que evidente verve, Pierre-Félix Louys - próximo de figuras como Paul Valéry, Claude Debussy ou Oscar Wilde - questiona "a pureza das meninas cristãs" com uma crueza que se manteve intacta até aos nossos dias.

Mais do que a violência verbal, subjaz a revolta do autor pela ausência de liberdade que rege as relações humanas, mas também o crivo ultraprotetor da escola, da religião ou da família na transmissão do valor supremo da individualidade.

PUB

Ciente de que o conteúdo do livro seria de imediato considerado licencioso pelas brigadas da moral, Louys apenas autorizou a publicação do livro "post mortem".

A sua vontade foi respeitada, mas o conteúdo da obra não: o livro começou por circular em edições clandestinas e truncadas. Seria preciso esperar até à década de 1980 para que uma edição livre de censura fosse disponibilizada.

A espera valeu a pena.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG