Óbito

Luís Noronha da Costa: exilado, esquecido e amaldiçoado

Luís Noronha da Costa: exilado, esquecido e amaldiçoado

Precursor da arte contemporânea em Portugal morreu aos 77 anos, em Lisboa. Fica uma obra extensa, e não tão conhecida como se julga.

Faltava apenas uma semana para completar 78 anos. Apontado como um dos artistas portugueses mais relevantes da segunda metade do século XX , Luís Noronha da Costa, o pintor da "explosão de luz jorrando de uma treva", como definiu o ensaísta e crítico de cinema João Bénard da Costa; o pintor "animado pela filosofia", como descreveu o filósofo José Gil; o pintor "das imagens das coisas", no espelho do próprio artista plástico; o pintor do mar, da perceção, da dialética, do diálogo com o exterior, da desfocagem, do spray, o pintor experimentalista, disruptivo, romântico, trágico, solitário, o pintor que alcançou o respeito da crítica - de José Augusto França a Ernesto de Sousa - antes dos 30 anos; o pintor que representou Portugal nas bienais de São Paulo (1969) e Veneza (1970), o precursor da arte contemporânea nacional morreu esta quinta-feira no Hospital Egas Moniz, em Lisboa, onde estava internado, sucumbindo a "doença grave". A notícia foi confirmada pela família.

Noronha da Costa, que nasceu e cresceu em São Pedro do Estoril, diante dos barcos e do mar, morreu afastado do território mediático, exilado e, como o próprio diria, vítima dessa "maldição" que é o esquecimento.

A última exposição aconteceu em 2017, por altura dos seus 75 anos de existência, 50 de carreira, na Casa-Museu Medeiros de Almeida, em Lisboa, com curadoria de Bernardo Pinto de Almeida, que lhe dedicou dois livros e uma vida inteira de prefácios, de "defesa" e de "amizade".

"É preciso ser muito bom para ser tão esquecido", afirma, ao JN, o historiador de arte, que batizou a exposição com ironia, desdizendo uma tela do autor: "Isto não é só um écran - Noronha da Costa - 50 anos de pintura (1967-2017)".

A mostra, recorda, "percorria a casa toda, dialogando com as outras obras de arte da coleção. Foi visitada por todo o meio artístico, que baixou a cabeça, e pelo presidente da República." Noronha da Costa ficou feliz, não era mostrado há quase 20 anos, precisava do reconhecimento que lhe faltou na segunda metade da vida. "A maioria das pessoas desconhecia-o."

A exposição acabaria também por desfazer um equívoco persistente, o de que Noronha da Costa se repetia. "Mostrei coisas acabadas de pintar, que deslumbraram mesmo as pessoas mais informadas", assegura Pinto de Almeida, para quem a obra do autor que considera ser "uma das figuras maiores da arte portuguesa", será "muito menos conhecida do que se julga".

Ainda a tempo da retrospetiva

Para Pinto de Almeida, que reconhece que houve no percurso do pintor "momentos mais frágeis", é incompreensível a inexistência recente de uma "ampla retrospetiva". "Serralves esqueceu-se dele. Outras instituições, também." Contudo, ressalva, "ainda vão a tempo de fazê-la, de forma séria e sem medo de identificar os momentos menos felizes da sua obra". Até porque, acentua, "no meio da sua solidão, foi sempre encontrando possibilidades novas".

Nuno Faria, diretor artístico do Museu da Cidade do Porto, comissariou uma retrospetiva em 2003, juntamente com o curador Miguel Wandschneider, no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, abordando o que diz ser "o período mais tenso" do trabalho de Noronha da Costa, situado entre 1965 e 1983.

De resto, "Noronha Revisitado", mostra de objetos, pinturas, fotografias e filmes, valeu ao artista, já então confinado, o Prémio AICA, distinção máxima atribuída pela secção portuguesa da Associação Internacional de Críticos de Arte. Desse período, recordaria com espanto Bénard da Costa, então convidado a pensar sobre o pintor, "foram inventariadas mais de quatro mil obras."

O pintor que foi também cineasta e arquiteto - formou-se nos anos 60, foi aluno de Nuno Portas, discípulo de Manuel Tainha, próximo de Vítor Figueiredo e alvo de elogio de Álvaro Siza - , produziu muito e muito depressa e quase até ao fim. E talvez tenha sido essa voragem, em parte ditada pela procura comercial das galerias de arte - para muitos sinónimo de repetição e não de criação nova -, a principal responsável pela sua "perda de relevância", observa Nuno Faria.

"Os percursos artísticos medem-se pela intensidade. E raros são os artistas que conjugam longevidade com intensidade." A obra de Noronha da Costa, insiste o curador com a propriedade de quem já em 1998 lhe dedicara a exposição "Paisagens no Singular", "perde intensidade e perde aquela tensão que tinha com a imagem e com a perceção, que vinha das leituras que fazia, sobretudo filosofia, sobretudo Heidegger, a leitura dos filósofos do sublime".

Nuno Faria, que não hesita em afirmar que Noronha da Costa "é o artista mais intrigante e mais fascinante" sobre o qual se debruçou, traça um diagnóstico sem retorno, mas no qual não encontra qualquer drama, apenas uma certa poesia. "Essa perda de intensidade é poética", diz. "É típica dos artistas românticos. E ele era um romântico por excelência. Há nele uma espécie de premonição que se realiza. O ideário romântico culmina sempre numa tragédia."

A grande tragédia

E qual terá sido, afinal, a grande tragédia de Noronha da Costa, o homem que foi menino com berço na aristocracia, neto de condes e viscondes, e que amadureceu no respeito férreo pelo Partido Comunista Português, no qual nunca militou, e na amizade maior por Ramalho Eanes?

"O envelhecimento prematuro, a morte precoce, se não física, espiritual", teoriza Nuno Faria. "E a sobreposição do projeto comercial." Mas também o facto de viver num país "com uma cultura profundamente ingrata, que vive de modas e de uma vontade provinciana de ser igual ao que se faz lá fora", acrescenta Bernardo Pinto de Almeida.

"Imitar não é dialogar", assevera. "Noronha da Costa faz parte dos raros artistas que não imitaram, não repetiram fórmulas, dialogaram com o exterior. Esses são os artistas mais isolados, porque os menos compreendidos. São os que arriscam as formas primeiras."

Mas para o seu esquecimento terá contribuído também a mudança de paradigma verificada em meados dos anos 80. "A minha geração", continua Pinto de Almeida, "ficou deslumbrada com a abertura de Portugal à Europa. E descurou a defesa de artistas de primeira importância. Não só Noronha da Costa, mas também Helena Almeida (1934-2018) ou Ângelo de Sousa (1938-2011)", redescobertos ou resgatados muito mais tarde.

Contudo, houve uma tragédia maior de que ninguém fala abertamente, apesar de sobre ela já terem passado três décadas: a morte da musa do artista. Noémia Cacho Rodrigues, a mulher que amava e de cujo reconhecimento dependia para exercitar a liberdade e o prazer de criar, morreu em 1990 com apenas 48 anos. Noronha da Costa, garante quem o conheceu, não voltaria a ser o mesmo.

"Ligação de contiguidade perfeita" com Rui Chafes

Luís Noronha da Costa nasce em Lisboa, em 1942, no fatídico ano da Segunda Guerra Mundial. Forma-se na Escola Superior de Belas Artes, em Lisboa, começando a expor com apenas 20 anos.

São dessa altura as suas obras mais "festejadas", para usar a expressão feliz de Bernardo Pinto de Almeida. Tem apenas 27 anos quando é distinguido com o Grande Prémio Soquil. Exatamente trinta anos depois, em 1999, o Parlamento Europeu atribui-lhe o Prémio de Pintura. Em 1983, a Fundação Gulbenkian dedica-lhe a primeira retrospetiva. Mas seria preciso esperar mais vinte anos, para que tivesse direito a uma segunda antologia, a já mencionada mostra da autoria de Faria/Wandschneider, no CCB.

A sua obra está representada em todos os museus do país e em muitos do mundo, figurando também em inúmeras coleções privadas. Mas, para lá da obra, Nuno Faria sublinha "o grande pensador", o homem que "convertia pensamento em imagem", que produzia sabiamente um discurso "sobre coisas que ainda nem tinham chegado a Portugal". Heidegger, filósofo do devir, eterna leitura de cabeceira, é disso exemplo. "Ainda o alemão não tinha chegado à academia portuguesa, e já ele o estudava."

Noronha da Costa não chega só antes do tempo, chega também, muitas, vezes, pelo lado de fora. "Rompeu os cânones, desbravou terreno, foi para Munique quando a maioria dos artistas ia para Paris. Perseguiu o romantismo alemão." Revia-se em autores como Novalis.

A sucessão de coincidências nas opções de percurso faz reverberação no imaginário que nos liga a Rui Chafes, o escultor da palavra de ferro, mais de vinte anos mais novo do que Noronha da Costa. Fará sentido a associação? "Há uma ligação de contiguidade absolutamente perfeita entre eles," corrobora Faria. "Ambos produziram um discurso muito forte, ambos têm hipersensibilidade."

"Manto trágico do esquecimento"

Bernardo Pinto de Almeida, que lhe sublinha a "vasta cultura", a "inteligência superior" e o "virtuosimo", faz outra associação - a Gerhard Richter, artista alemão de 88 anos, em tempos considerado o pintor mais caro do mundo. Consta que, uma vez, entrando numa exposição coletiva em que se destacava uma obra de Richter, Noronha da Costa terá exclamado: "Aquilo é meu!"

Mais tarde, no entanto, numa entrevista ao "Jornal de Negócios", o pintor português fez questão de explicar o que o distinguia do alemão: "Talvez a nossa obra tenha uma certa parecença formal que tem que ver com aquilo a que chamo de difusão e não desfocagem - a desfocagem tira-nos informação do objeto, a difusão coloca-nos o objeto no espaço, um pouco como os hologramas. É isso que faço. E faço-o, talvez, uns quatro ou cinco anos antes das primeiras experiências do Gerhard Richter nesse sentido."

Há quem hoje lamente "o manto trágico do esquecimento" que desceu sobre Noronha da Costa demasiado cedo. Mas João Bénard da Costa, que desapareceu em 2009, percebeu muito antes que não se regressa desse manto, por muito que muitos tentem. A propósito da exposição de 2003, escreveu: "Ninguém em Portugal levou mais longe essa demanda do sublime. Só não julgo, ao contrário dos comissários, que essa evidência seja a partir de agora evidente. Em terra de cegos, só quem tem um olho é rei. Quem vê com os olhos todos, o corpo todo, a alma toda - como Luís Noronha da Costa - só pode estar condenado ao exílio e à maldição."

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