Luis Sepúlveda

Um contador de histórias nunca morre. Apenas muda de morada

Um contador de histórias nunca morre. Apenas muda de morada

O escritor Luis Sepúlveda, também cineasta e jornalista, que morreu hoje, aos 70 anos, via a literatura como um ponto de encontro entre o escritor e o leitor, mas também entre o homem e os seus fantasmas.

Se tivesse podido escolher o momento em que se despediria dos leitores portugueses, fiéis seguidores dos seus livros durante quase três décadas, Luis Sepúlveda não teria desdenhado o que o destino lhe proporcionou: durante cinco dias, entre os dias 18 e 23 de fevereiro, esteve na Póvoa de Varzim, no festival do qual fez parte desde o início, confraternizando com imensos escritores, editores e, acima de tudo, leitores, afinal o que mais prezava.

Foi a sua derradeira aparição literária e pública: os primeiros sintomas gripais aconteceram ainda nas "Correntes", mas só alguns dias volvidos, a 29, veio a confirmação de que era o primeiro infetado na região das Astúrias, onde residiu durante duas décadas.

As suspeitas de que pudesse ter contagiado algum dos convidados do festival revelaram-se infundadas (apesar de terem dado origem a quarentenas que envolveram um número significativo de pessoas), mas o mesmo não se pode dizer do estado de saúde, que se foi agravando de dia para dia.

A notícia mais temida

A 11 de março, entrou em coma induzido, estado quase irreversível que conheceu agora o seu desfecho mais brutal. Embora, infelizmente, já esperado pelo seu círculo mais próximo de familiares e amigos.

Foi, apesar disso, com um "turbilhão de sentimentos" que Manuel Alberto Valente, editor e amigo do autor chileno há três décadas, viveu o dia de ontem. Assim que recebeu a notícia que menos queria ouvir, partilhou uma imagem na sua página do Facebook em que um muito jovem Sepúlveda visitava Portugal pela primeira vez, nos alvores de Abril, na emblemática "vila morena" de Grândola. Embora convicto de que "os escritores nunca morrem", e os contadores de histórias muito menos, o diretor editorial da Porto Editora lamenta a perda do "extraordinário homem". Separá-lo do escritor era tarefa impossível. "Ficávamos a escutá-lo, extasiados, muito tempo, sem sabermos ao certo se aquilo era verdade ou mentira. E, na realidade, pouco importava", recorda.

Memória e ficção pontuavam os seus relatos orais, mas também os literários. Autênticos exercícios de imaginação cujas origens gostava de ir buscar aos povos indígenas. Essa admiração sem reservas pelo saber ancestral atravessa grande parte da sua obra, seja nas novelas e nos contos ou nos livros para os mais jovens.

Como calar um idiota

De "O Velho que Lia Romances de Amor" a "Um Cão Chamado Leal", passando por "Mundo do Fim do Mundo", há em boa parte da sua bibliografia uma defesa dos valores de resistência, que considerava a melhor forma de enfrentar o risco da uniformização em curso. "O pensamento único ameaça o planeta", acusava o autor numa entrevista a este jornal no início dos anos 2000. O discurso incisivo contra os poderes instalados, na esteira do amigo José Saramago, dava lugar a uma atitude oposta sempre que se deparava com atitudes lastimáveis dos seus colegas de ofício. Como se sofresse por vergonha alheia.

Foi o que aconteceu num congresso literário realizado no Porto nessa altura, em que Sepúlveda, por sortilégio da organização, foi colocado ao lado de um escritor tão conhecido pelo talento como pela afetação. Ao aperceber-se disso, logo bradou, para quem o quis ouvir, que se recusava a sentar ao lado de um "escritor popular". Quando todos esperavam que o ficcionista sul-americano reagisse com cólera latina a tamanha afronta, Luis Sepúlveda limitou-se a entreabrir a boca e a dizer: "Com muito gosto".

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