Arte do Dia

Make love, not (only) art

Do(s) confinamento(s) não resultou, como muitos esperavam, o "baby boom" que habitualmente acontecia após "apagões" prolongados. Em sentido contrário, a criação de obras artísticas inspiradas por esse momento tão particular na História parece não ter fim. Aqui ficam algumas cujo usufruto se recomenda.

São 17 rápidos vislumbres sobre a pandemia, lançados por quem faz do olhar o seu modo de vida. O título, esse, diz (quase) tudo) "Feito em casa" e faz parte do pacote de ofertas disponível na Netflix.

Protegidos (ou presos, consoante a perspetiva) pelo seu ambiente familiar, cineastas de diferentes paragens, gerações e correntes captaram em breves minutos o tantas vezes insustentável peso do confinamento.

Foi o que pôde observar Ladj Ly, cineasta e argumentista francês que realizou "Os Miseráveis" em 2019: munido apenas com um 'drone' e muita curiosidade, procurou demonstrar que o confinamento coletivo não significa, nem de perto nem de longe, que "estamos todos no mesmo barco", como reza a frase batida.

Digno de um visionamento atento é também o filme de Paolo Sorrentino, protagonizado por uns improváveis Papa Francisco e Rainha Isabel II. Como lidam com o distanciamento social aqueles cujo estatuto já assegura há muito esses propósitos? A resposta prima pela surpresa.

Se "a arte é apenas uma maneira de forçar uma nova perspetiva em algo familiar", como nos diz uma personagem de "Feito em casa", talvez o melhor mesmo seja cedermos aos seus encantos.

PUB


Habituado a gravações, ensaios e concertos constantes, o saxofonista João Cabrita reagiu ao confinamento forçado da melhor forma que sabe, ou seja, a criar e a tocar sem parar.

"Quarantine sessions" é o resultado desse esforço criativo que convoca sem tibiezas territórios sonoros como o jazz, blues ou funk, mas sem enjeitar a aproximação a outras latitudes.

Se ao longo de três décadas de música, Cabrita colaborou com quase todo os principais nomes do meio nacional - de Sérgio Godinho, Sitiados e Orelha Negra a Kussondu-lola, Dead Combo ou Legendary Tigerman -, a mundividência que revela em disco não é menor. Um feito a que não é alheia a longa lista de colaborações, que inclui músicos como Tó Trips, Hélio Morais, Sandra Baptista, Selma Uamusse, Ivo Costa ou Sam the Kid, entre muitos outros.

Disponível em formato de CD, vinil nas plataformas digitais, o disco procura demonstrar que as quarentenas podem ser, afinal, um pouco mais divertidas do que pensávamos.

O confinamento era ainda uma criança quando José Jorge Letria escreveu de rajada "A vida triunfa em casa". Num tom que alia o receio do desconhecido à vontade de resistir, o presidente da Sociedade Portuguesa de Autores lamenta os silêncios e ausências que nos afastam de quem mais gostamos, ao mesmo tempo que apela à derrota do medo, vergado "pelo sonho colorido que ilumina o riso de um menino".

O poema não tardou a ser amplamente partilhado nas redes sociais e não só, tendo sido lido por várias figuras, incluindo Diogo Infante:

"A vida triunfa em casa"

"Esta ausência não foi por nós pedida,

este silêncio não é da nossa lavra,

já nem Pessoa conversa com Pessoa,

com o feitiço sempre imenso da palavra

Este tempo só é o nosso tempo

porque é nossa a dor que nos sufoca

e faz de cada dia a ferida entreaberta

do assombro que esquivando-se nos toca

Esta ausência é dos netos, dos filhos, dos avós,

é a casa alquebrada pelo medo,

é a febre a arder na nossa voz

por saber que o mal a magoa em segredo

Este silêncio é um sussurro tão antigo

que mata como a peste já matava;

vem de longe sem nada ter de amigo

com a mesma angústia que nos castigava

Esta ausência é uma pátria revoltada

que se fecha em casa sempre à espera

que a febre não a vença nem lhe roube

a luz mansa que lhe traz a Primavera

Esta casa somos nós de sentinela,

à espera que a rua de novo nos console

e que festeje debruçada à janela

a alegria que só nasce com o sol

Esta ausência mais tarde há de ter fim,

por nada lhe faltar nem inocência;

que se escute o desejo de saúde

anunciando que vai pôr fim à inclemência

Que se abram as portas e as janelas,

que o medo, derrotado, parta sem destino

por ser esse o sonho colorido

que ilumina o riso de um menino."


José Jorge Letria (20 de Março de 2020)

Calcula-se que 95% de todos os museus mundiais viram a sua atividade suspensa ou parcialmente afetada por causa da pandemia. Grande parte dessas inquietações ainda hoje se mantêm, dada a incerteza que paira sobre o restabelecer da normalidade. Mas, por muito paralisantes que sejam os problemas causados pela covid-19, a comunidade artística também soube reagir. Uma dessas manifestações mais originais foi a criação do Covid-19 Art Museum. Trata-se de um espaço, para já, virtual, alojado numa página do Instagram, que recebe obras de artistas de todo o Mundo relacionadas de algum modo com a pandemia. As contribuições desafiam géneros, suportes e formatos, atravessando a ilustração, fotografia, vídeo, instalação ou escultura.


Se os poemas e os ensaios sobre a pandemia são já incontáveis, o mesmo não se pode dizer ainda dos romances. Um dos primeiros contributos conhecidos vem de José Gardeazabal. Em "Quarentena, uma história de amor", o autor de "Meio homem, metade baleia" narra-nos a história de um casal que tenta sobreviver à pandemia, mas sobretudo ao fim do amor.

Estranhos no próprio lar, tentam tatear por entre os escombros do que já foi uma relação familiar. Ao longe chegam-lhes os ecos de uma civilização aturdida pelo vírus, mas, submersos como estão nos seus próprios dramas, tudo lhes parece excessivamente distante.

"Como um adolescente, pondero começar um diário. Evitaria falar de amor. Abandono o plano imediatamente. Neste atmosfera do medo novo, um diário não seria um testemunho, seria um prolongamento e eu, um prisioneiro numa ilha deserta, a contar as semanas com riscos na parede da minha história. Sem eu perceber, a história ia prolongar a minha prisão. Infinitamente. As histórias distraem-nos. Enquanto houver uma história para contar, aguentamos mil, duas mil e uma noites. Estamos cansados do tempo. Atrás deste tempo, outro tempo virá. O tempo vai reduzir-nos a lugares -comuns. Por outras palavras, o fim disto não é literatura. E como eu gosto de ler"

("Quarentena, uma história de amor; José Gardeazabal; Companhia das Letras; 2021)

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG