Festival Mimo

Manel Cruz no Rio: "Ainda sinto medo mas tenho uma pica muito grande"

Manel Cruz no Rio: "Ainda sinto medo mas tenho uma pica muito grande"

O fundador dos históricos Ornatos Violeta estreia-se no Brasil e vai tocar no Rio e em Olinda todo o disco novo que gravará em janeiro. O compositor do Porto está mais "positivo", mas mantém o mesmo universo de "vastas emoções, pensamentos imperfeitos".

Muitas vezes nem sabemos, mas aquilo está tudo preso por fita-cola: o teclado Novation e o Alesis Vi 49 do Edú, agarrados para não escorregar dos pés de metal, o varão que segura um bidão de água à bateria do Serginho, que gosta de experimentar com percussão, papéis, fios e fichas e pedais de som do Manel, a fita adesiva rola por todo o lado, preta ou colorida e outra vez atirada pelo ar.

É manhã muito cedo e estamos no palco da Marina da Glória, baixa do Rio de Janeiro onde Manel Cruz ainda nem começou o ensaio de som. Mais logo, à hora dos raios dos "mágicos cansaços" do fim da tarde, vai-se estrear-se aqui ("nunca toquei no Brasil, já cá vim curtir, mas tocar vai ser hoje (sábado) a primeira vez", diz o compositor do Porto), no quadro do Mimo Rio, festa de música do mundo anual e gratuita que chama milhares de pessoas. O festival é o mesmo que o ano passado inaugurou uma extensão, tremendamente concorrida, em Amarante, no Norte de Portugal e que em junho de 2018 lá voltará para mais 3 dias de música gratuita - e cinema e poesia e palestras e exposições e ideias.

A No Smokin Orchestra toda a fumar

Está tudo muito atrasado, pelo menos duas horas, chove um chuvinha morrinhenta que vem tocada a Norte lá do fundo, do morro do Pão de Açúcar, metido alto entrecortado numa neblina rendada de cinzas, e faz até um bocadinho de frio para um Brasil que está às portas do verão, que começa oficialmente dia 22 de dezembro. Em palco espalha-se uma parafernália de instrumentos e coisas e "super-tape" e quatro músicos que falam português dispõem tudo em pequenas bandejas no chão, pedais, fios, fichas, caixas elétricas que não sabemos o que são, e depois colocam-nas no seu estrado de rodinhas em cima do palco. "Temos muitas coisinhas, muitos cabos midi, o nosso som mudou", diz Manel Cruz, ali a rasgar com os dentes mais um pedaço de fita de isolar, "mas vai ficar tudo prontinho a horas, depois é só meter no forninho e tocar", diz a sorrir com os olhos muito abertos o compositor do Porto que fundou os Ornatos Violeta em 1991.

Pelo meio, ele, que traz a nova banda Extensão de Serviço, constituída pelo Edú Silva, Nico Tricot e António Serginho, entretem-se, a ver a trupe "gitane" da No Smoking Orchestra, a banda de homens-festa de Emir Kusturica, cabeça de cartaz do Mimo deste dia. Eles estão sempre a aparecer e a desaparecer do palco, os da No Smoking Orchestra, nome definitivamente irónico para um decateto cheio de chaminés, e que ensaiava o som desde as 8 da manhã aqui na Marina da Glória. O Emir, que chega sempre acoplado ao seu espigado charuto, esse ainda ninguém o viu - só irá testar o seu som em cima do concerto, que é só à meia-noite.

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"Eles são uns fixes", diz ao JN o Serginho, que acabou de tirar uma foto pedida pelo Stribor, o risonho baterista de Emir. "Parece que ele faz isto com todos os bateristas que apanha", comenta a rir o Pedro Nascimento, o expedito manager do Manel, a passear um novo bigodinho, agora a vestir um oleado verde porque a chuva está a apertar. Logo depois, Pedro, rápido como Lucky Luke, sai largado e logo volta cheio de toalhas brancas para tapar os instrumentos porque a chuvinha está a inclinar...

"Uma grande pica! Mesmo"

"Ainda sinto medo, sim, menos um bocadinho agora, acho que é normal, é até fixe sentir medo antes de ir ao palco. Agora, pânico, isso já não", diz ao JN Manel Cruz, 43 anos, que pisca os olhos e sorri incessante. Ele está a horas de se estrear ao vivo no Brasil, festival que trouxe ao Rio a também portuense Capícua e tem como estrelas maiores Vieux Farka Touré e Emir Kusturica. "Bom, além de medo, sinto, sentimos todos, uma grande pica em tocar aqui. Grande pica mesmo! E isso é também muito fixe", diz ele ao JN.

Manel passou a manhã inteira, ele e a sua nova Extensão de Serviço, que tem como nome de projeto Rumo à Idade Mídia, em testes de som cheios de gente curiosa a gravitar pelo palco - e talvez a fugir da morrinha... Mas o tempo passou-se bem, e depressa, cheio de línguas cruzadas pelo ar: ouviu-se, pelo menos, inglês, espanhol, sérvio (ou croata, vamos lá saber), francês e português com sotaque do Porto, além, é claro, do brasileiro, que às vezes, dependendo da velocidade com que é falado, parece uma língua muito diferente do Português falado em Portugal.

Manel começa a gravar em janeiro

Ainda sem nome escolhido, o novo disco de Manel Cruz, cantor e compositor do hino geracional de 90 "Capitão Romance", já está todo composto, já tem arranjos, começa a ser gravado em janeiro, pode adiantar o JN. Será, de novo, um disco-objeto com trabalho gráfico de Manel, um desenhador excecional, e em março de 2018 saem as primeiras canções na Net. "Aqui no Rio vamos tocar 17 canções novas e 3 antigas. É isso, o disco novo todo! Temos mais teclados, mais samples, mais sonzinhos, mais potencial".

O músico garante que se mantém o espírito de "vastas emoções, tantas emoções, e pensamentos imperfeitos". Mas, eventualmente, há uma coisa que mudou, avisa Manel, que agora já é pai. "Tenho vontade de ter um pendor mais positivo. A introspeção, o exorcismo, a melancolia, essas existirão sempre no meu universo, serei assim, mas há músicas antigas, mais tristes ou desesperadas, que não quero agora cantar - nem quero pôr os meus filhos a ouvir".

Isto é um festival de resistência

Com 1,2 milhões de espectadores em 14 anos, o Mimo Rio, que é gratuito e terá em 2018 a sua 3.ª extensão a Amarante, em junho, prometia chamar pelo menos 10 mil pessoas que, garante-nos a produção, "pouco se importarão" com a chuvinha rendada de fim de Primavera para vir aqui ver pela primeira vez Manel Cruz - e o Emir, claro está. O compositor do Porto repetirá o concerto domingo, dia 19 de novembro, em Olinda, cidade histórica de Pernambuco fundada em 1535, outrora conhecida como uma opulenta "pequena Lisboa".

"Este festival não é um milagre. Este festival é uma resistência", diz Lu Araújo, a potente e omnipresente produtora brasileira do festival que acaba de chegar aos bastidores postos atrás do grande palco, vinda de um almoço de feijoada - "ahh, maravilhosa, estavam lá todos os portugueses, só faltou você!", diz ela a piscar o olho e a mirar a cortina de chuva. "É, aqui preferimos a nossa chuva de poesia, que vai haver este domingo, é já amanhã, é, este ano temos só mulheres poetas. Mas não tem problema não, chuva de verão passa logo", diz a Lu, nascida optimista e que já está pelo menos um mês com o pensamento no futuro. Ela tem números que impressionam: "1,2 milhões de pessoas nas 14 edições, zero concertos cancelados, 3 dias com 46 atividades, mais de 20 mil alunos beneficiados pelos nossos workshops, músicos de dezenas, dezenas de pontos do mundo. E sabe quanto isso custa a quem quiser vir ver? Zero. Zero Reais!", e logo Lu é engolida pelo seu staff e pelas perguntas, e desaparece em direção ao outro lado do recinto, enquanto mais um avião se levanta ali ao lado no Galeão, e faz um longo arco debaixo da neblina e da filigrana cinza brilhante de chuva, desaparecendo também ele com os motores a troar atrás.

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