Livros

Manuel da Silva Ramos: "Os prémios literários caem sempre para o mesmo lado"

Manuel da Silva Ramos: "Os prémios literários caem sempre para o mesmo lado"

Em mais 50 anos de atividade literária - estreou-se em 1968, com o aclamado "Os três seios de Novélia" -, Manuel da Silva Ramos nunca desistiu de radiografar o seu país, mesmo quando a sua frontalidade poderia chocar os mais puritanos. "Ao colo de Virgílio" é o seu mais recente romance.

A crítica social não está ausente do novo livro do autor de "Ambulância", mas cede o seu protagonismo habitual a um tom "otimista", como confessa. Sinal porventura do papel especial que a literatura desempenha em tempos marcadamente difíceis como os atuais, admite Silva Ramos.

Este é um livro que, na sua essência, parece um pouco mais esperançoso ou luminoso do que muitos dos seus anteriores, em grande parte devido aos traços do caráter do protagonista. Em tempos difíceis como os atuais, a literatura pode oferecer algum alento?
A literatura é essencial nestes tempos difíceis. Aliás, em quase todos os países, a leitura de livros aumentou. Quanto ao meu romance, é um livro otimista para o nosso tempo. Reconfortará os cuidadores informais, os que fazem o bem e aqueles que gostam da vida.

Virgílio Quintela é uma personagem muito rica. Vê-o como um puzzle, uma justaposição de várias figuras com que se foi cruzando ao longo da vida?
Baseei-me, em parte, na figura do meu amigo Hélder Santos para modelar a personagem de Virgílio Quintela. Este homem bondoso, cuidador de vários familiares, cultíssimo e excêntrico, é um passador de cultura no Banco de Portugal em Lisboa.

PUB

O Virgílio é um intelectual humanista. Porque é que em seu entender não existem tantos exemplos similares na nossa realidade, já que a Cultura e o Saber têm supostamente a capacidade de aumentar a nossa empatia para com os outros?
Há poucos intelectuais em Portugal que são passadores de cultura. Guardam para si o saber e estão-se nas tintas para o resto... Virgílio Quintela poderá ser o primeiro intelectual humanista empático de uma nova era de esperança. É que ele transmite a cultura, ao mesmo tempo que alia a bondade com o sexo livre e sem preconceitos.

"Ao colo de Virgílio" é também um dos poucos livros de que me lembro que realça o papel da figura do cuidador. Por que motivo o fez e qual a explicação que encontra para essa subrepresentação literária?
O meu pai morreu de Alzheimer, mas antes teve os cuidados da minha mãe e da minha irmã. O Hélder Santos cuidou da sua mulher, com esta doença, durante dez anos. Ajudar os cuidadores informais é tão importante como agir contra as alterações climáticas que são o resultado de causas humanas. O Estado ainda arrasta este problema crucial do nosso tempo com a barriga, dá migalhas... Quanto à subrepresentação literária deste problema, posso acrescentar que é preciso muito cabedal artístico e muita vivência para abordá-lo e muitos escritores não estão preparados... Lembre-se que eu já abordei a exploração dos operários dos lanifícios da Covilhã, o caso do cabo Costa que matou três vizinhas, a odisseia do Toninho de Arcozelo com o Gigante de Moçambique...

A narrativa é pontuada por outras personagens curiosas, como figurões literários e pretensos génios. Quando retrata essas figuras procura dar-lhes um cunho universal ou não esconde que pensa em alguns casos em particular?
São inventadas e têm um cunho universal, mas algumas possuem algum traço local. Por exemplo, o escritor genial Leonel Valente do meu livro tem semelhanças com um escritor muito conhecido da nossa praça...

Embora talvez não tão presente neste novo livro, a crítica social está sempre, de um modo ou outro, representada nos seus romances. É o amor a Portugal que o leva a ser muitas vezes mordaz e crítico para com o seu país?
Sou um escritor político, eticamente engajado. E quem vê mordacidade crítica, sátira feroz, riso vingativo nos meus livros não pense que odeio o meu país. Deixe-me dizer-lhe isto: os portugueses não gostam do contraditório, cortam logo relações... Eu não sou assim.

O eixo Covilhã-Lisboa-Paris é um resumo da sua geografia de afetos?
Acrescente mais dois lugares. Assim: Covilhã-Lisboa-Paris-Toulouse-Fundão.

Quão diferente está Portugal, para melhor ou para pior, do país do qual saiu há tantas décadas?
Há mais liberdade e o sexo está melhorzinho. Mas os portugueses não são socialmente combativos. Atualmente há uma incultura muito grande (então nos mais jovens é uma aflição) e comportamentos generalizados de egoísmo e hedonismo autofágicos. A internet escravizou muita gente. No meu livro, o Quintela promove o humanismo total e não a literacia digital...

E o meio literário, mudou muito?
O meio literário também mudou muito. Há agora uma competição económica entre autores reconhecidos num país em que há escritores banalizados em todas as esquinas.

Escreve no livro sobre a febre do jogo e das raspadinhas, que afeta sobretudo as camadas mais pobres. Por muito que as dependências mudem através dos tempos, acha que a função que elas desempenham não se tem alterado assim tanto?
Pululam jogos como cogumelos. E até há na internet. Os pobres vivem na ilusão da grande maquia porque com dinheiro serão respeitados. Raspa-se ou estrela-se e não se pensa em lutar por melhores condições de vida. Já o disse: os portugueses têm fraca ou nenhuma consciência política. O Estado continua a amealhar e agora há a raspadinha do património. É o cúmulo! Os pobres vão pagar reabilitações de monumentos que nunca visitarão. Ao escritor compete dar sinal dessa alienação que são os jogos...

Olhando para o seu percurso literário, há uma palavra que resume todas essas décadas: independência. Não a trocaria por nada, nem por um eventual maior reconhecimento junto de alguns círculos?
Não trocaria a minha independência por nada deste mundo. Ela é a garantia da minha autenticidade.

A independência continua a ser um bem que se paga demasiado caro em Portugal?
Como não pertenço a capelinhas, não me ajoelho diante de oragos, nem publico numa editora integrada num grande grupo económico, sou colocado à parte. É por isso que os prémios literários caem sempre para o mesmo lado... Mas o mais importante são os meus livros que saem em direção aos leitores. Deixe-me aqui fazer esta reflexão pertinente: ao olharmos para o panorama da literatura portuguesa contemporânea, parece que ela é só feita por escritores com menos de cinquenta anos quando na realidade há escritores mais velhos que estão a fazer obras formidáveis...

A tensão erótica e a ousadia formal que já eram visíveis em "Os três seios de Novélia" continuam bem evidentes na sua escrita. Em que sentido é que tem mudado o uso que faz desses dois atributos?
A tensão erótica continua a ser uma das características da minha escrita porque a vida também é atividade sexual e eu nos meus livros falo da vida. Quanto às ousadias formais, elas surgem mais diluídas, mas estão sempre presentes (veja o diálogo entre o Virgílio e o narrador do meu romance), pois o fundo e a forma são preocupações minhas...

Acredita que o tempo tem tratado bem os seus livros mais antigos?
A poesia, a "pequena música" e os temas raros e originais dos meus livros mais antigos continuam a fazer-me crer que o tempo ainda não passou sobre eles.

Embora tenha começado por ser influenciado pela linguagem dos surrealistas, é lícito dizer que preferiu sempre seguir o seu próprio caminho, ao invés de inscrever-se em movimentos ou correntes?
Comecei por ser influenciado pelos surrealistas franceses e depois de ter lido muito, em Portugal e nos países onde estive, frutifiquei um caminho próprio longe das correntes e dos movimentos. Hoje dou tanta importância ao Joyce e ao seu experimentalismo como ao Philip Roth, que é um extraordinário romancista clássico.

O que o ato da escrita lhe proporciona tem-se mantido através dos anos? A pulsão vital com que começou a escrever há mais de 50 anos é idêntica ou assume diferentes formas?
O ato de escrever proporciona-me sempre um bem-estar físico e emocional. E continuo com a mesma pulsão vital para a escrita como quando tinha os meus 20 anos. Essa pulsão essencial foi decifrada pelo Óscar Lopes que escreveu sobre mim esta frase profética na badana de "Os três seios de Novélia": "Manuel da Silva Ramos... Um nome cuja trajetória literária o leitor vai, com certeza, seguir desde este primeiro passo."

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG