Artes plásticas

Margarida Reis e o belo têxtil feito arte

Margarida Reis e o belo têxtil feito arte

Tributo à influente artista plástica nascida em Gaia há 89 anos foi um dos destaque da Contextile - Bienal de Arte Têxtil Contemporânea que terminou neste domingo.

Em 2012, Guimarães foi Capital Europeia da Cultura e consolidou o que, há muito, era marca do território: a criação artística de excelência e vanguarda e a participação ativa da sociedade civil na construção de um lugar que nunca se posicionou à margem ou na condição de periferia, mas como central de pensamento. Os motivos que fazem, e sempre fizeram, de Guimarães um pequeno paraíso no deserto cultural português fora dos principais centros urbanos, remontarão, direi, a 1884, o ano da Exposição Industrial, que trouxe para a cidade onde nasceu Portugal o progresso, a Revolução Industrial e, claro, o comboio!

A geração que, em 1884, abraça a causa da indústria como fator de desenvolvimento de todo o vale do Ave, era uma geração, à luz do século XIX, culta e escolarizada, muito acima dos padrões da época. A História explica sempre tudo e estará na génese desde desenvolvimento industrial que estarão as causas de este se ter tornado num território diferente do que marcou o tecido económico do Cávado e mesmo do Minho, mais bruto e menos sensível às andanças das Bibliotecas e dos fóruns de debate.

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2012 não é, portanto, uma conquista apenas de um projeto político localizado no tempo, mas a de toda uma comunidade, de toda uma elite intelectual, com os seus naturais efeitos de contágio, que é essência de tessitura humana de Guimarães. A execução do projeto de Capital Europeia da Cultura foi, também por isso, um êxito, sendo caso de estudo 10 anos depois. Mas, em 2012, o país estava mergulhado numa profunda crise económica e social, marcada pela presença da Troika, pela austeridade e pela desolação coletiva. A indústria têxtil do vale do Vale foi uma das muitas afetadas, com milhares de pessoas a caírem no desemprego.

A Contextile - Bienal de Arte Têxtil Contemporânea surge neste mesmo ano e é, de alguma forma em minha opinião, uma tentativa de resposta e de procura de projetar o setor através de novos olhares, evocando a sua importância como tecnologia em voga na produção artística contemporânea. Nos caminhos criativos das artes visuais hoje, a cerâmica e o têxtil, práticas ancestrais, marcam as novas tendências, sendo reveladoras da emancipação da mulher do confinamento da casa, deixando de ser para serventia doméstica e tornando-se possibilidades sérias e muito mais distantes dos conceptualismos lineares a sair de moda. Um olhar atento aos grandes eventos internacionais dedicados à arte contemporânea, revelam-nos o lugar da cerâmica, do têxtil e também do vidro no topo das novidades.

A Contextile surge, também por isso, alinhada com o seu próprio tempo e é a consistência do seu programa, com menções e participações, que a tem feito crescer enquanto referência. Esta ano, a sexta edição e os 10 anos de aniversário, foram motivo para homenagear as que, primeiro, foram precursoras do uso desta tecnologia na criação de coisas belas. Margarida Reis (PT, 1933) mereceu destaque. A sua obra é um elogio e uma forma elevada de respeito pelas características da seda, do linho ou da lã, que transforma em universos cósmicos e em lugares de memória das suas emoções. Os azuis e os dourados, obtidos através de processos de tingimento que experimenta e descobre através da experimentação, marcam uma carreira de muitas décadas em que a clareza das ideias é a marca do seu olhar. Margarida Reis não gosta de expor ou de se expor. Gosta do recanto do atelier e de se encontrar na magia dos dedos que transformam tudo em obra, que transformam matéria em vida eterna. Contudo, em boa hora lhe presta a Contextile esta homenagem porque a História da Arte precisa que o seu nome lá seja escrito como uma das primeiras que quebrou os muros entre as ditas belas-artes e as artes decorativas, passando tudo apenas a tecnologia, matéria e processo.

A CONTEXTILE esteve patente até este domingo e fez mais uma vez do Minho o território da cultura, o lugar da Arte.

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