Exposição

Maria Antónia Siza revelada em Serralves

Maria Antónia Siza revelada em Serralves

Uma exposição antológica desvenda o universo doméstico e onírico da artista que partiu prematuramente, a partir de cem desenhos doados pelo seu marido, o arquiteto Siza Vieira, que compara o seu talento ao de Picasso.

O Museu de Arte Contemporânea de Serralves inaugura esta quinta-feira uma exposição antológica de Maria Antónia Siza (1940 - 1973), assinalando os 50 anos passados desde a sua morte precoce, a partir de cem desenhos da artista doados à Fundação pelo seu marido, o arquiteto Álvaro de Siza Vieira. Além dos desenhos doados por Siza Vieira, em abril passado, outras obras foram procuradas e selecionadas pelo curador António Choupina em casas de amigos, numa pesquisa que o levou a sentir-se parte da vida de Totó - tal como era carinhosa tratada a artista, que morreu com apenas 32 anos.

O processo de pesquisa e seleção durou um ano, resultando nesta exposição "Maria Antónia Leite Siza, 50 anos depois", a maior feita em Portugal - onde apenas expôs uma vez, em vida, em 1970, na Cooperativa Árvore, no Porto. Esta exposição teve depois replicações póstumas, nesta cidade e em Madrid (2002-05), em Zagreb (2016), Berlim e Lisboa (2019), na Fundação Calouste Gulbenkian. O curador sublinhou que a exposição que inagura esta quinta-feira, em Serralves, "amplia esta visão sobre a artista, é uma visão mais eclética, mais madura, mais abragente que a única [mostra de trabalhos] feita em vida".

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No conjunto de obras, há uma maioria de desenhos em papel, mas também em linóleo, um quadro a óleo e bordados. E cartas que Maria Antónia escrevia aos amigos; e ainda, dessas cartas, excertos transcritos na parede em cada uma das partes da exposição "Acabei agora de fazer um desenho que me deu cabo da cabeça", pode ler-se num desses excertos de uma carta de Totó, de 1964. Estes apontamentos revelam ao público algo mais íntimo de uma artista que o Museu de Serralves classifica como "uma das figuras mais talentosas e enigmáticas da década de 1960".

A doação de cem desenhos de Siza Vieira foi, segundo o diretor do Museu de Serralves, Philippe Vergne, um ato "de uma generosidade extraordinária". "Para mim, foi uma verdadeira descoberta. Não estava familiarizado com o trabalho dela, fiquei espantando com a qualidade e a profundidade, e de como continua atual e relevante. É um presente para nós, e para toda a comunidade, que tem a oportunidade de descobrir uma artista extraordinária", declarou.

Desenhos resgatados do lixo por Siza Vieira

Como Maria Antónia raramente assinava ou datava os desenhos - e frequentemente os amarrotava e deitava fora, com Siza Vieira a ir resgatar alguns ao lixo (há um passado a ferro e encaixilhado na exposição) -, a mostra não está organizada de forma cronológica. Inclui trabalhos de Totó desde os seus tempos de aluna da Faculdade de Belas Artes do Porto, onde conheceu o futuro marido, e até à sua morte, em 1973, dispostos na Biblioteca do Museu de Serralves, o espaço que acolhe esta exposição de dimensão quase íntima, por fases definidas pelo curador António Choupina.

Na organização do espaço, há algum destaque para obras que considerou particularmente representativas, como um quadro a óleo que pintou nas aulas da Faculdade e que dá uma intensidade muito humana à (então) famosa modelo dos estudantes, de nome Maria; ou uma sequência de retratos de Siza Vieira, que "vai sublimando até ser só os óculos, o nariz e uma mão que desenha".

Numa visita feita ontem à mostra - que antecipou a inauguração -, o marido da artista descreveu o fascínio de a ver criar, muitas vezes num impulso, e diretamente sobre os materiais, incluindo o exigente linóleo, sem esboços ou estudos prévios. "O que é espantoso é que ela estava muito tempo sem dar um traço e, quando lhe apetecia, pegava numa peninha e num papel - e, em geral, não era papel de grande qualidade - aparentando que tinha treinado todo aquele tempo", contou, sublinhando o sair sempre uma "composição impecável" do seu modo de desenhar impulsivo e muito rápido.

Siza Vieira descreveu a prática criativa de mulher como se a estivesse a observar ainda, amorosamente e com vagar, num relato suscetível de ser descrito como tocante. "O desenho ocupa a página com uma segurança total, não há nenhum desequilíbrio na folha. E isso é uma qualidade um pouco estranha que tinha, por exemplo, Picasso. Aquele desenho devia estar inscrito onde realmente está", referiu. Maria Antónia "desenhava sobretudo por repentes e repentes com muito rendimento", descreveu Siza Vieira, relatando que a mulher era capaz de fazer vinte desenhos de enfiada numa noite.

São muitos desses desenhos que se dão agora a conhecer ao público, como um repertório emocional onde cabe o seu universo íntimo e onírico, as memórias e os lugares de Maria Antónia. Por exemplo, António Choupina associa uma imagem de três figuras presas pela mesma base a um pinheiro com a mesma forma que existia junto à casa de infância da artista. A maternidade está ali muito presente, com as imagens da cama da mãe, da multiplicação e transfiguração corpórea, feitas a partir do nascimento dos filhos.

Mas há também memórias das viagens que Maria Antónia fez ao estrangeiro; ou ainda do seu "desejo de futuro", da sua vocação revolucionária. Há desenhos com um timbre nervoso, inquieto, de figuras que parecem nascer umas das outras, sobrepor-se, fazendo-nos sentir movimento e textura. A metamorfose e os desdobramentos fazem Choupina evocar os heterónimos pessoanos. A recusa da abstração geométrica e um favorecimento do figurativo por influência de Giotto e Bellini, porém "reinventado de modo profundamente singular", segundo sublinha o Museu de Serralves, no texto de apresentação da mostra.

Na fase final da vida da artista, há um imaginário grotesco, semelhante a fases de outros grandes artistas. E há muito poucos trabalhos a óleo, simplesmente porque Maria Antónia não tinha paciência para esse trabalho de esperas, explicou o marido. "É uma coisa a longo prazo, não é compatível com a prática dela, apetecia-lhe e fazia, não lhe apetecia e não fazia", referiu. O arquiteto associa estas pausas e repentes também à vida doméstica da artista, mãe de duas crianças, que trabalhava em casa. "Isso estava na base de parar o trabalho e depois haver lufadas de criação", sublinhou.

Publicação com as cem obras inéditas

A mostra é acompanhada por uma publicação bilingue (português/inglês), que apresenta integralmente as cem obras inéditas doadas à Fundação de Serralves. O livro, que se vende na loja do Museu (35,90 euros). inclui textos do curador António Choupina, do diretor do Museu, Phillippe Vergne e uma série de ensaios do arquiteto Álvaro Siza, da escritora Deanna Petherbridge e da artista Madelon Vriesendorp. A edição encadernada a vermelho, uma cor presente na obra e representativa de Maria Antónia, conta ainda com registos forográficos das famílias Siza Vieira e Marinho Leite e de várias coleções.

A exposição "Maria Antónia Leite Siza, 50 anos depois" está patente desde esta quinta-feira, 8 de setembro, até março de 2023. O bilhete para o Museu tem o preço de 12 euros e o bilhete geral (para todas a valências de Serralves) custa 20 euros.

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