Entrevista

Maria Mendes: "O fado é colorido, de tantas outras cores e emoções"

Maria Mendes: "O fado é colorido, de tantas outras cores e emoções"

"Saudade, Colour of Love" é o novo trabalho ao vivo que mostra o outro lado do disco de fusão de jazz e fado que trouxe nomeações a Grammy à artista nacional. Neste sábado à noite atua no Festival de Jazz da Marinha Grande.

"Vejo um futuro brilhante e promissor para esta jovem e talentosa cantora". As palavras elogiosas vieram de Quincy Jones, referindo-se a Maria Mendes, artista portuguesa baseada na Holanda que ao terceiro disco ganhou nomeações para um Grammy e um reconhecimento com pouco paralelo, a nível internacional.

O ano era 2019, o disco chamava-se "Close to Me" e a sua visão e interpretação única do jazz, fundido com o, tão nosso, fado, granjeou atenção, elogios, distinções para Maria Mendes. "Asas Fechadas", tema de Mendes com John Beasley, foi mesmo nomeado para os Grammy e Grammy Latino.

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Pegando neste trabalho, surge agora "Saudade, Colour of Love": editado a 7 de outubro, o quarto disco da cantora foi gravado ao vivo em Amesterdão com a Metropole Orkest dirigida por John Beasley, com novos arranjos orquestrais das canções de "Close To Me".

Nascida em Portugal e baseada na última década e meia na Holanda, a vocalista e compositora Maria Mendes falou com o JN sobre o seu percurso e sobre o novo disco.

Quando decidiu que queria ser cantora - e abraçar o estilo jazz?

A minha mãe conta-me que desde os meus 3 anos de idade eu dizia que queria ser cantora de ópera. Essa vontade permaneceu por muitos anos, o que me levou a ingressar na Academia de Música de Vilar do Paraíso aos 12 anos de idade e mais tarde no Conservatório de Gaia para perseguir esse sonho. Aos 16 anos numa tertúlia entre amigos encontrei o jazz. Cantei o "Over the Rainbow" e o "My Romance" sem os conhecer, leitura à primeira vista. Marcou-me a sensação de liberdade criativa. Desde esse momento, em segredo fui procurando discos. Encontrei uns "perdidos" lá em casa do Sinatra, Duke Ellington, Nat King Cole. Fui saboreando a ideia de que afinal gostaria de me dedicar ao Jazz. Essa partilha foi feita em bom tempo com os meus pais, que me apoiaram, mas sei que deu desgosto à minha mãe. O desgosto foi já substituído, há muitos anos por orgulho! Os meus pais presenciaram o meu desenvolvimento musical e pessoal com o jazz. Há 20 anos abracei o jazz e pretendo não mais largar o abraço.

Que tipo de música ouvia na sua infância e até que ponto a motivou?

Música erudita, muito Vivaldi e Mozart. Chopin pela Maria João Pires e muito Pavarotti, Jessye Norman e Maria Callas. Foram muitas idas a concertos, ciclos de piano e operas no Coliseu do Porto e Salão Árabe no Palácio da Bolsa. Todas estas experiências fizeram com que bebesse a realidade criativa e a testemunhasse sempre com a possibilidade de vir a ser real para mim. A música clássica e erudita é a base mais fundamental no alimento da metodologia no ato de se fazer arte. Enquanto linguagem musical é das que alimenta o rigor e perfeccionismo. Foi um pilar muito enriquecedor e fundamental na estrutura do músico que sou hoje.

Quais são os artistas que mais a influenciam? No passado e hoje em dia?

Tantos. Voz: Carmen McRae, Shirley Horn, Betty Carter, Ella Fitzgerald, Chet Baker, Nat King Cole, Gretchen Parlato, Diane Reeves, Anne Ducros, Curtis Stigers, David Linx, Cecilia Bartoli, Maria Callas, Rosa Passos, Elis Regina, Djavan, Ney Matogrosso, Mariza, Cristina Branco. Instrumental: Rachmaninoff, Chopin, Puccini, Pat Metheny, Jackie Terrasson, Brad Mehldau, Bernardo Sassetti, Tigran Hamasyan, Hermeto Pascoal, Monk, Herbie Hancock, Anat Cohen, Stan Getz, Coltrane, Miles Davis, James Carter, Pascal Schumacher...

Como é tratada e recebida a música jazz em Portugal? Há um mercado, um interesse?

O Jazz é uma linguagem intelectual e muito especifica em gosto, visto que ela é imensa em diversidade. Portanto, não há como não gostar de jazz, mas o que muitas vezes é celebrado em alguns países europeus é um dos estilos, o que é mais vanguardista e mais experimental. Este estilo mais free e concetual é por vezes menos inclusivo para um publico pouco conhecedor da história e linguagem quase centenária do jazz. Então que dependendo da orientação da comunidade e imprensa do jazz do país em questão, alguma da diversidade estilística no jazz tende a ficar comprometida não chegando a ser promovida com o mesmo ardor ao público e na comunidade artística. Há mercado, sim. Há interesse no publico, sim, em se surpreender com o que jazz oferece. Mas em geral, não há igualdade na promoção da diversidade estilística que o jazz tem na sua raiz de existência.

Nasceu em Portugal, estudou no estrangeiro e reside na Holanda, tem tours pelo mundo. Sente-se uma cidadã do mundo ou uma portuguesa a viver fora (ou um pouco de ambos)?

Sou uma cidadã do Mundo. Aprendo com o Mundo, na vivência e contínuo estimulo das culturas que me rodeiam.

Viver no estrangeiro para um músico, ajuda à internacionalização? Aos contactos, a chegar a mais lados e pessoas?

Tenho certeza que sim se o país de residência for um país com consciência cultural e historia política em abraçar a cultura tanto comercial como a mais conceptual e exclusiva. Os contactos na comunidade artística fazem-se bem independentemente do país de residência. A força motriz da internacionalização é a dedicação diária a esta arte bem como ao planeamento da carreira na consciencialização do propósito dos projetos e colaborações selecionadas. Acredito que o público vai crescendo de forma orgânica.

Sobre os últimos trabalhos. Quando, como e porquê se voltou mais para o fado?

Este meu novo disco está ligado ao seu antecessor, o "Close To Me" editado 2019. Em 2017 recebi um convite para integrar as festividades do Dia do Jazz, em Roterdão. Pediram-me que pegasse num tema folclórico holandês, de Roterdão, e lhe desse uma reviravolta para jazz e eu decidi fazer uma composição mais longa, adaptando o 'Barco Negro' juntamente com esse tema holandês". A descoberta musical, ao trabalhar este tema de Amália Rodrigues de uma forma muito mais conceptual e muito diferente, foi tão interessante, que a ideia de poder dedicar um projeto a fazer esse jogo de adaptações, de alterações harmónicas, melódicas, tornou-se muito forte e real. O disco foi muito bem recebido pela critica e imprensa internacional. Venceu um prémio Edison de melhor álbum de jazz vocal, nos Países Baixos, e com o tema 'Asas Fechadas' de Amália Rodrigues fui indicada ao Grammy Latino, na categoria de Melhor Arranjo, bem como ao Grammy Americano na categoria de Melhores Arranjos, Instrumentais e Vocais. Nesse disco, quarto das onze canções tiveram a Metropole Orkest como convidada. A colaboração foi tão fértil que ficou a vontade de fazermos uma digressão juntos, sendo necessário orquestrar todas as outras canções desse disco. A Covid confrontou-nos com o desafio de termos que adiar a digressão e foi com esse tempo de espera que começou a surgir a ideia de adicionar canções novas ao repertório do "Close To Me". Fui trabalhando os novos arranjos e mais um original à distancia com o meu produtor e co-arranjador John Beasley. Em novembro de 2021 encontramo-nos em Roterdão para concluir os arranjos para que em poucas semanas o Beasley fizesse as orquestrações para as nove canções que fazem agora parte do "Saudade, Colour of Love".

Diria que é um disco de fusão, entre jazz e fado?

Para mim este é um disco surpreendente e reacionário. Esteticamente falando é jazz, pois há improvisação instrumental e vocal e os músicos tem a escola e experiência jazz. Os arranjos musicais foram concebidos por mim e pelo Beasley, ambos músicos com formação no jazz. É um disco que celebra a música Portuguesa, desde Paredes ao Fado, contando com originais meus.

Saudade no título é um sentimento tão português - e sobretudo de quem mora fora? Por isso o escolheu?

Sim. Geralmente pintamos o Fado de preto, mas na canção que canto neste álbum, "E se não for Fado", com uma letra extraordinária do nosso Tiago Torres da Silva, o fado é colorido, de tantas outras cores e emoções, então que esta viagem musical neste disco é como eu sinto a saudade por Portugal, enquanto expat, mulher independente, liberta do tradicionalismo cultural português mas com a nostalgia por as minhas vivencias no passado.

Como surgiu a colaboração com John Beasley foi a Maria que o abordou? E qual a importância para chegar a este som e resultado final?

Sim, a contribuição do John Beasley foi importante para este resultado sonoro. O Beasley é um musico muito eclético e com uma experiência de 30 anos de carreira em cima dos meus 20 anos enquanto musico de jazz. Foi importante para mim encontrar alguém do mundo do Jazz, com distanciamento estético do fado, e alguém criativo com experiência enquanto arranjador e orquestrador. O que me convenceu no trabalho do Beasley foi precisamente a sua orquestra, a Monk"estra, em que aí se ouve e denota o seu rigor criativo e "cool" num reportório original do Monk, que por si só é já imensamente criativo e surpreendente.

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