Literatura

Mário Zambujal: "Não há máquina que substitua um abraço"

Mário Zambujal: "Não há máquina que substitua um abraço"

Mário Zambujal homenageado no Festival Escritaria, que arranca este domingo. O autor lamenta a "desumanização crescente".

A pandemia pode ter tirado a Mário Zambujal o convívio diário com os seus muitos amigos e antigos colegas, mas não apagou o sorriso do seu rosto. "Quando tudo isto passar, vamos sair um pouco melhores, vai ver. Com a parte dura da vida também aprendemos", contou ao JN o escritor e jornalista, na véspera de partir para Penafiel, a cidade duriense que, a partir de hoje, lhe rende homenagem em mais uma edição do festival literário Escritaria.

Otimismos proverbiais à parte, Zambujal tem acompanhado com "grande preocupação" o alastramento dos contágios. Mas também com angústia, sobretudo quando surgem alertas de óbitos nos rodapés dos noticiários televisivos. "Já perdi a conta ao número de amigos de cuja morte fiquei a saber dessa forma", lamenta, explicando que fica "em sobressalto" sempre que os oráculos dos telejornais entram em ação.

Fã das tertúlias e dos convívios, "as redes sociais à moda antiga", o autor de "Rodopio" acredita que ficamos mais pobres sempre que perdemos alguém que nos é próximo. E nem as tecnologias que ajudam a mitigar a solidão o impressionam por aí além, convencido como está de que lhes falta autenticidade. "Não há máquina no mundo que consiga suplantar, ou até substituir, os abraços e os beijos", dispara, ao mesmo tempo que lamenta a "descaracterização crescente" da sociedade.

"Autor" e não "escritor"

A homenagem no Escritaria é apenas mais uma das boas notícias literárias que tem recebido ao longo do ano. A comemorar quatro décadas de escrita de livros, o "autor" ("escritor é quem se dedica em permanência, como o Eça ou o Ramalho Ortigão", sublinha) aguarda com "curiosidade" a adaptação televisiva da sua "Crónica dos bons malandros", realizada por Jorge Paixão da Costa.

Lançado em 1980, o livro continua a chegar a novos leitores, atraídos pelo desacerto constante de um bando de malfeitores que "lá no fundo não passam de uns pobres diabos".

Mais de uma dúzia de livros depois, o autor de "Primeiro as senhoras" admite que o seu livro mais célebre nem sequer é aquele de que se orgulha mais. Nessa lista encontra-se "Uma noite não são dias", romance agora reeditado que releu há poucos meses e achou "bem caçado", na sua paródia a um futuro que já foi mais distante. A ação passa-se em 2044 e é marcada por uma tentativa de inversão face ao que hoje é norma.

A escrita é um pouso frequente, mas não constante. Afinal, "tão importante como a liberdade de escrever é a liberdade de não escrever", sentencia.

Hoje, 18
"Histórias mágicas", por Inácia Cruz (11 horas, Cinemax)

Amanhã, 19
À conversa com Germano Silva e José Rodrigues dos Santos (21.30, Auditório de Penafiel)

Sexta-feira, 23
Descerramento da escultura e da frase (12 horas, Jardim do Calvário). Conversas na Eira, com Mário Zambujal e Fernando Alves (21.30, Quinta da Aveleda).

Sábado, 24
Inauguração da mostra "O retrato possível de um bom malandro" (11 horas, Biblioteca)

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