Aniversário

A última geração da máquina de escrever é a que lidera agora o jornalismo digital

A última geração da máquina de escrever é a que lidera agora o jornalismo digital

Para a maioria de nós, que entrou aqui com a máquina de escrever pela mão, o tempo parece ter passado desmedidamente depressa. Como se estivéssemos dentro da nossa própria elipse narrativa e temporal, como Hugh Grant a avançar velozmente estações num plano de 360 graus em Notting Hill, o tempo deslocou-se irrefreado através dele, e de nós, e os anos pareceram dias só.

Sem que déssemos por isso, num ápice passamos da máquina em que escrevíamos com força e ferro e agora temos telemóveis na palma da mão, com que redigimos notícias velozes, publicamos fotos e editamos vídeos diretamente no ecrã de consumo final. Pelo meio, assistimos ao eclipsar de um modelo de negócio que durava há cinco séculos, desde que Johannes Gutenberg inventou e ordenou os blocos tipográficos amovíveis de imprimir e revolucionou a forma de comunicar.

Na primeira fila do entusiasmo, sobrevimos todos, novos e veteranos de 50 anos, à imperial alvorada da Internet, um canal de propulsão global, indisputável e colossal, que pulverizou tudo o que conhecíamos, até a força da verdade, que julgávamos inamovível.

Entre um e outro tempo, continuamos, jornalistas, a fazer o imperecível -responder às seis perguntas primordiais: o que sucedeu, a quem, onde, quando, e (é aqui, nas duas perquirições finais, o momento crucial da notícia, aqui se perde ou se fisga o leitor) como é que isso aconteceu e porque é que foi assim.

Formado noutra era, quando a verdade era de chumbo e havia pistolas da geração anterior nas gavetas da Redação, Domingos de Andrade, que cá entrou em 1992 e desde há seis anos é diretor do jornal, achou a súmula do sucesso contemporâneo: fazer pontes intergeracionais e saber mantê-las a funcionar.

"Nós somos a última geração da impressão a chumbo, da máquina de escrever, e agora somos nós, esses mesmos, que lideramos o melhor jornalismo digital", diz o diretor que levou o JN a dar 5 milhões de euros de lucro em 2019. Resumo de clareza e precisão, defende o "jornalismo que se importa" e a inalienabilidade da profissão: "O direito à informação é a pedra angular de todos os direitos, nada faz sentido sem ele".

notória credibilidade

Qualidade, memória, velocidade: pouco mais importará a Manuel Molinos, diretor-adjunto com Inês Cardoso e Pedro Ivo Carvalho, que sublinha números a celebrar: "3,55 milhões de leitores passam atualmente pela edição digital do JN. Ninguém tem hoje melhores números que nós. Somos o líder nacional da informação online desde abril, diz o painel Net Audience da Marketest". No JN desde 2000, Molinos sorri: "41,5% da audiência total, 50 milhões de "pageviews" no site, 20 milhões de visitas mensais". E Pedro Ivo, o mais novo adjunto de uma direção JN (tinha 39 anos em 2017), apensa: "É isso notoriedade, é isso credibilidade, os números ampliam a confiança em nós".

Com uma pandemia de coronavírus que dobra o Mundo pelo avesso (6 milhões de infetados, 374 mil mortos) e impõe a dura distanciação social, a Redação, confere Pedro Ivo, reconfigurou-se: "Reagimos rapidamente, desdobramos equipas em espelho, reforçamos o online, fortalecemos a secção-chave covid no papel, apostamos, mais ainda, no jornalismo explicativo, na infografia, nos especialistas, na pedagogia. E fizemos tudo com 80% dos jornalistas em teletrabalho, mantendo o núcleo duro na Redação. Foi desafiante, superámo-nos".

Pedro Pimentel, o diretor gráfico contratado em 2007 e que anda a trabalhar 12 horas/dia, revolucionou a face do jornal. "A realidade foi um soco. Mudamos grafismo, tipografia, adotamos o "knockout", quisemos ser impactantes. Foi stressante, foi muito bom". E destaca várias capas, na "Notícias Magazine", "a revista nobre de domingo, ágil e muito rigorosa na atualidade - todos nos lembramos da capa de foto gigante do bebé com uma viseira -, e na "Evasões", a revista das sextas, do roteiro dos prazeres e lazeres de rua, que foi toda reinventada para se virar para dentro" - e Dora Mota, editora da "Evasões", que esta semana voltou à Redação após nove semanas e meia confinada a editar em casa, ajunta: "Não mudamos só tudo; ainda ganhamos proximidade com o leitor. Temos uma equipa muito brava".

Rafael Barbosa, que entrou cá com 20 anos em 1989, hoje é chefe de Redação e tem talvez a mais preciosa memória no jornal, está capaz de citar George Orwell, autor de "1984", o romance do poder opressivo num mundo de guerra perpétua, vigilância governamental omnipresente e manipulação pública e histórica permanente, recorda a nossa função: "Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique; todo o resto é publicidade". Intimando a pandemia "como boa para o jornalismo", vinca que também o nosso contexto é difícil: "O impacto socioeconómico é brutal em todos, nós também temos lay-off [redução horária e salarial que ainda vigora no JN e no Global Media Group], todos sofremos com ele". E Rafael Barbosa pára, inclina-se, diz: "Mas estamos a fazer o jornal mais lido do país".