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Casamentos no pequeno ecrã são contos de fadas com divórcio à vista

Casamentos no pequeno ecrã são contos de fadas com divórcio à vista

Pode um canal de televisão armar-se em casamenteiro e juntar desconhecidos, depois de um trabalho com especialistas, testes, entrevistas que concluem um "match" e abrem a porta à possibilidade de se sonhar com o par ideal?

A psicóloga Ana Oliveira diz que não. E explica porquê. "A busca pela perfeição e pela relação ideal pode criar expectativas irreais. A beleza das relações humanas está na sua complexidade e subjetividade".

A especialista, com mais de dez anos de experiência, vai mais longe: "Um psicólogo ou um "coach" não deve tentar acertar na relação perfeita. Nunca devemos escolher pelo outro. Devemos, sim, ajudar (antes de mais) a estar bem consigo mesmo, ultrapassando inseguranças e desafios pessoais que lhe permitirão não só melhorar a sua vida afetiva, mas também outras dimensões da sua vida".

Estas palavras vão contra o que o programa da SIC "Casados à primeira vista" quer impor. Houve candidatos, especialistas escolhidos (postos em causa pela Ordem de Psicólogos) e foi encontrada a percentagem de compatibilidades entre pares.

A regra foi sempre aceitar casar com alguém desconhecido. Regra que não parece afetar quem quer participar. Mas depois, tal como se está a ver, os casais entram em confronto. No programa, já há dois que se divorciaram e os restantes sete permaneceram até o final do contrato (oito semanas), argumentando, porém, que se mantiveram unidos porque "procuram o amor". Não esconderam, no entanto, as incompatibilidades a nível de ideias e de comportamento.

O "coach" Ricardo Peixe sublinha que a ideia de se juntar os "melhores pares possíveis" normalmente falha por três motivos. "O primeiro é que os "especialistas" podem não o ser. E não tendo as capacidades corretas é provável que não tenham os melhores resultados. Segundo, mesmo com as capacidades, podem não ter o tempo e recurso para conhecer suficientemente bem os candidatos. Terceiro, porque mesmo com isso tudo, há sempre um fator imponderável nas relações entre seres humanos."

Câmaras atrapalham

Júlio Machado Vaz, psiquiatra e sexólogo há 40 anos, considera que aquilo que a SIC designa por experiência social não passa de um "reality show", onde "as pessoas não conseguem ser completamente espontâneas" devido à presença das câmaras, que podem estar junto aos casais 10 horas por dia. "Mesmo sem cenas de intimidade física, provavelmente haverá gente que sente que as câmaras ligadas podem deturpar as situações", frisa.

Um dos fatores das separações foi a falta de afeto. "A ciência é uma análise de factos e conclusões desses factos. Não se pode falar de uma abordagem científica dos afetos", releva Machado Vaz, para quem a ausência de sexo pode ter a ver com a falta de interesse. E desengane-se quem pensa que são sempre os homens a estar mais disponíveis.

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