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Cristina Ferreira: A "saloia da Malveira" que conquistou tudo e todos

Cristina Ferreira: A "saloia da Malveira" que conquistou tudo e todos

Quando se licenciou em História, Cristina Ferreira jamais imaginaria que o seu nome ficasse escrito na História da televisão portuguesa.

Quinze anos depois da sua estreia, ninguém duvida que o conseguiu. Sinónimo de sucesso, a "saloia da Malveira" não tem medo do risco. Corre-o agora uma vez mais, aos 40 anos, protagonizando a mais surpreendente transferência no seio da comunicação.

Alguns consideram-na "o CR7 da televisão portuguesa", outros apelidam-na de "Oprah lusa". Cristina Ferreira não teme as comparações ou não fossem eles os melhores nas suas áreas e nos seus países. "Isso deixa-me até feliz. (...) Sei que posso ser única na televisão por agregar à minha profissão uma série de coisas que foram feitas até agora com algum impacto e que mostraram uma forma de uma pessoa se comunicar", dizia, em 2014, à revista "Notícias TV".

Nessa altura, tinha já parte do seu império criado. Mas muito mais estava ainda para vir. À sua loja de roupa, ao blogue com o seu nome, ao livro de "deliciosas" receitas, à primeira de muitas coleções de sapatos e ao perfume "Meu", que se tornou na fragrância de milhares de portugueses batendo recordes de venda insuperáveis, Cristina viria ainda a ser a primeira mulher no nosso país a dirigir um projeto editorial com o seu nome ou a lançar um livro de memórias ao qual se recusa chamar autobiografia.

Apesar de muito diferentes, estes projetos fora do pequeno ecrã têm muito em comum: a entrega indescritível e emocional da "saloia da Malveira"... e o triunfo. A mulher que é muito mais do que uma apresentadora de televisão tem o toque de Midas, mas sem a tristeza da personagem. Tudo em que toca transforma-se em ouro. Tudo em que toca chega ao grande público. Tudo em que toca é sucesso.

Poucos conseguem explicar este fenómeno. Para Cristina, só há um segredo: muito trabalho. "Quando me perguntam se sou um exemplo, não me quero considerar um exemplo, como é óbvio, mas se conseguir passar esta imagem de que quando queremos muito, acreditamos e trabalhamos, chegamos sempre a algum lado, ótimo. Se me perguntar se fico mais feliz porque recebo dinheiro ou por o projeto ser bem concretizado, digo-lhe de caras que a segunda opção."

Emídio Rangel, o homem que "a tocou em vida e na vida"

Cristina Ferreira quis muito, acreditou e trabalhou. "Sempre" se imaginou "com sucesso na área que tivesse escolhido", mas nunca tinha sonhado chegar onde chegou. Afinal, licenciou-se em História e chegou mesmo a lecionar no ensino secundário. A aventura durou pouco tempo.

Durou até Emídio Rangel criar um curso de Comunicação Social na extinta Universidade Independente, corria o ano de 2003. Cristina inscreveu-se e foi aí teve o primeiro contacto com aqueles que viriam a ser os seus pais em televisão: Júlia Pinheiro e Manuel Luís Goucha.

Não podia, por isso, no momento da morte do homem que esteve na fundação da TSF e da SIC, deixar de lhe prestar um profundo agradecimento. "Há pessoas que sem se aperceberem mudam a vida dos outros para sempre. Estou aqui hoje porque este senhor resolveu criar um curso de apresentadores de televisão que frequentei. Não fosse Emídio Rangel e eu não seria a Cristina Ferreira do ecrã. Obrigada por me ter tocado. Em vida e na vida", disse há quatro anos, já a dupla que formava com Goucha na TVI dava frutos (e que frutos).

"Era para ganhar, não era? Está ganho"

Depois de um estágio na RTP, no programa "Regiões" (hoje "Portugal em Direto"), de reportagens no "Diário da Manhã", quando este era apresentado por Júlia Pinheiro e Henrique Garcia na TVI, e de ser um dos rostos dos "Extras" do "Big Brother", Cristina recebe "o" desafio: apresentar o novo programa das manhãs do canal de Queluz de Baixo ao lado daquele que já considerava ser o "Senhor Televisão".

"Fiquei petrificada. Perguntei: 'Para fazer o quê?' Eu não queria ser a boneca do Goucha. Não queria ser a menina que ajudava o protagonista em alguns momentos. Não queria ser um bibelô. (...) E o que a Júlia me disse é que não, que era para ser a colega do Manel. E a partir desse momento, eu encarei esse desafio", recordou, em 2011, numa entrevista para a "Notícias TV" ao lado do seu Manel.

A dupla só se formou por sugestão de Júlia Pinheiro ao então diretor-geral da TVI. "Quando eu entro no gabinete do (José Eduardo) Moniz, ele diz-me: 'Este projeto, o Você na TV!, é para ganhar!'. Assim, friamente, diretamente". Cristina calou-se e "não lhe disse nada". O caminho para o primeiro lugar das audiências foi-se trilhando, passo a passo, dia após dia. "Passados uns anos, quando nós já éramos líderes, eu fui lá. E disse-lhe: 'Era para ganhar, não era? Está ganho'".

Líder incontestável, "Você na TV" não mais perdeu a preferência dos portugueses. A energia de Goucha e Cristina, a cumplicidade de Goucha e Cristina e o amor de Goucha por Cristina e vice-versa foram fatores decisivos para os resultados. Isso e a "parvoíce" genuína dos dois.

"Parvoíce" que perdura desde o tempo em que ela era a aluna e ele o professor. Durante o curso da Universidade Independente, "fui uma parva, virei-me para o Manel e disse-lhe: 'Um dia ainda vamos trabalhar juntos' ", lembrou, soltando a característica gargalhada. "Eu pensei: 'Olha para esta maluca, coitada. Era só o que faltava, ir trabalhar com esta fedelha'", parafraseou Goucha.

Mas aconteceu. Quis o destino e a perseverança dela uni-los anos mais tarde. Para o trabalho. Para a vida. Juntos, partilharam milhares e milhares de horas em direto na televisão - entre "Você na TV", "Uma Canção Para Ti", "A Tua Cara Não Me É Estranha" e incontáveis emissões especiais da TVI. "Ela agora já pode dizer-me qualquer coisa, que eu acredito em tudo. Se ela me disser um dia que vai ser diretora de programas, eu acredito. Só direi: 'Eu não quero cá estar nesse dia'", brincou Goucha em 2011.

Entrada na direção de programas da após nega à SIC

Mal ele sabia... Praticamente dois anos depois, em novembro de 2013, a TVI emitia um comunicado dando conta de uma reformulação na sua estrutura diretiva. Cristina, aposta mais do que ganha da estação, seria a partir desse momento também diretora de conteúdos não informativos do canal.

"Comunicadora nata, sempre demonstrou grande profissionalismo, determinação e criatividade em tudo o que faz. Por estas qualidades e pela forma como sempre se entregou a todos os projetos na TVI, Cristina Ferreira é sem dúvida uma mais-valia para a estação", justificava a televisão da Media Capital.

Um ano antes, a apresentadora recusara uma oferta de Nuno Santos, na altura diretor de programas da SIC. Foi a primeira vez que confirmou terem existido "conversas" com a direção da televisão de Francisco Pinto Balsemão. Decidiu ficar na TVI, que tinha roubado Fátima Lopes à SIC, que, por sua vez, garantiu o regresso de Júlia Pinheiro ao canal em que tinha conduzido o inesquecível "A Noite da Má Língua".

Tragédia num dia que deveria ter sido de glória

A renovação do contrato de Cristina ocorreu poucos meses depois da sua estreia a solo no horário nobre da televisão portuguesa. A "saloia da Malveira" - "Sou a primeira a brincar com isso. Nunca encarei o 'saloia' de forma pejorativa. Para mim ser saloia é ser esperta, inteligente e arisca. Tudo isso eu acho que sou" - tinha sido a eleita para conduzir o refrescante concurso com famosos "Dança com as Estrelas".

A noite de 28 de julho de 2013 não mais sairá da memória de Cristina. Mas nem só pelas melhores razões. Horas antes do serão em que todos queriam ver (ou não) a apresentadora triunfar sozinha na condução de um programa, um acidente envolvendo um concorrente no ensaio geral transformou o clima de festa num ambiente negro e sombrio.

O toureiro José Luís Gonçalves caíra da escada do cenário do estúdio da Venda do Pinheiro e fora transportado em estado grave para um hospital com um traumatismo cranioencefálico. Lá permaneceu a lutar pela vida nos meses seguintes em estado semi-vegetativo. Seguiram-se anos de constantes recaídas e recomeços.

Cinco anos depois, há finalmente boas notícias. "O último ano foi de vitórias e conquistas (...). Foi o ano em que as coisas deram uma volta de 180 graus, ainda não foi o clique que os médicos estavam à espera, porque falta a parte motora acompanhar este progresso, mas o Zé conquistou muita coisa! Começou a falar, diz tudo, com um discurso articulado, já mantém conversas, pede coisas, consegue exprimir-se e isso é muito importante para uma pessoa na condição dele. Além disso, tem muitas manifestações de carinho comigo, pede-me beijinhos, muitas vezes! Já come sozinho, o que até há pouco tempo não acontecia... Ainda somos nós que lhe damos a comida, mas já mastiga e engole bem os alimentos", contou recentemente a mulher, Isabel Gomes, à revista "TV Mais".

"Já retribuí o que a TVI me deu"

À edição de estreia, seguiram-se outras duas épocas do "Dança com as Estrelas". Uma quarta estava a ser perspetivada, a ponto de Cristina e Lurdes Guerreiro, responsável pela produtora Endemol Shine, terem viajado há pouco mais de um mês ao país vizinho para se inspirarem na versão espanhola do formato.

Vislumbrada estava também a gravação de uma nova temporada do concurso "Apanha Se Puderes", com a qual a TVI desafiou a apresentadora com um único propósito: retirar a longa e penosa (para a televisão de Queluz de Baixo) liderança do "espetáculo" que é "O Preço Certo" (RTP1), com o "gordo" Fernando Mendes. Imagine... Cristina - e Pedro Teixeira, claro - conseguiu. Desde o primeiro dia. Desde a primeira emissão do concurso de origem israelita que a TVI lidera, após vários anos em segundo lugar, no segmento das 19 horas. Feito inédito e que muitos atribuem, lá está, à "marca" Cristina Ferreira.

O que é passado fica no passado. A "saloia da Malveira" já não volta ao "Dança". Nem ao "Apanha". Surpreendeu tudo e todos - sobretudo o canal da Media Capital - ao não ter a intenção de renovar o seu milionário contrato. Transfere-se para a SIC após 16 anos de ligação afetiva a Queluz de Baixo.

Vai para Carnaxide com o sentimento de dever cumprido. Disso ela não duvida. Em 2013, à "Notícias TV", garantia que vai "ficar sempre com a dívida de a TVI (lhe) ter dado a oportunidade de (se) mostrar enquanto apresentadora de televisão". "Foi na TVI que eu comecei e essa dívida é para o resto da vida. Agora, acho que já retribuí o que a TVI me deu."

Só que na altura Cristina dizia estar "numa relação consolidadíssima de mãos dadas" com a estação que a catapultou para a fama. Assim foi há cinco anos e assim foi há quatro meses, quando disse, à N-TV, estar "muito feliz na TVI". "O que se fala (sobre a sua saída), pode-se falar à vontade, porque eu e os dirigentes da TVI sabemos como estamos a preparar o futuro", assegurou.

Afinal, o futuro já não vai existir. A estação e a apresentadora "acordaram em não renovar o contrato de prestação de serviços que está em vigor até 30 de novembro de 2018". "As partes encontram-se atualmente a negociar os termos aplicáveis à cessação da relação contratual vigente e, bem assim, do vínculo laboral existente", clarificou, esta quarta-feira, o canal, numa nota enviada às redações.

Parte para a rival da TVI, onde irá conduzir o novo programa das manhãs. Além de apresentadora, será também o braço-direito de Daniel Oliveira, diretor-geral de Entretenimento da Impresa, dona da SIC, já que assumirá também o papel de consultora executiva.

A Cristina só falta uma coisa: apaixonar-se

Cristina tem tudo? Tem trabalho, tem sucesso, tem dinheiro, tem um amor maior, Tiago, o seu único filho, e tem a Malveira à sua espera, todos os dias, às seis da tarde, a sua "hora da Cinderela". Falta-lhe a paixão, que não existe, diz ela, desde a mediática separação do empresário António Casinhas.

O amor por ele não desvaneceu. Pelo contrário. Cristina garantia, em abril, numa entrevista a Goucha para a sua revista, que o sentimento manter-se-á para sempre: "Eu amarei o Casinhas eternamente. (...) Porque o amei durante muitos anos. Eu cresci com ele. Tinha 17 anos quando comecei a namorar com ele. Portanto, eu descobri tudo com ele. E ele é... o pai do meu filho!"

A atenção de Cristina Ferreira está agora virada para a nova etapa da sua vida profissional, que vai agarrar com unhas e dentes, como sempre faz com tudo. Se alguma vez imaginou estar onde está e ser a figura da TV portuguesa mais bem paga de sempre? A resposta foi dada já em 2014, em entrevista à revista "Notícias TV": "Se já tive alguns falhanços? Já. Se vou ter mais? Vou. É a errar muitas vezes que crescemos. Mas também tenho um lema: seguir em frente e se não der certo é porque não era o caminho que tinha de seguir". Veremos se a SIC era, ou não, o caminho que Cristina tinha de seguir.

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