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Três gerações do JN juntas na evocação do combate à censura

Três gerações do JN juntas na evocação do combate à censura

Os 40 metros do painel a "Ribeira Negra", de Júlio Resende, entram pelos olhos, portas da alma, de quem sobe a escadaria de acesso ao Museu dos Transportes e Comunicações, no edifício da Alfândega, no Porto. "Assisti à pintura disto", atira Germano Silva, historiador e jornalista.

A frase de Germano Silva, 88 anos, é um exemplo de como os 131 anos de história do "Jornal de Notícias" se embrenham com a da cidade, a região Norte e todo um país que não existiria se não fosse o JN, que juntou cerca de 50 pessoas, na maioria jornalistas, no VII Encontro de Gerações, sábado, no Porto.

"Temos aqui três gerações, três camadas, de pessoas que partilham os mesmos ideais, os mesmos valores, de ligação a este jornal e a esta cidade", explicou Joaquim Fidalgo, jornalista a exercer como professor e mentor de jornalistas desde 2001. Foi fundador do jornal "Público", em 1989, de onde entrou pela porta do "Expresso", depois de três anos no "Jornal de Notícias", entre 1980 e 1983. "Não é saudosismo, é uma marca do cunho intemporal do JN que nos junta", acrescentou.

"Este encontro é uma prova da vitalidade do JN. Esta capacidade de juntar gerações faz parte do ADN deste jornal", disse o diretor do "Jornal de Notícias", Domingos de Andrade, que acompanhou o encontro, dividido por dois polos, debaixo de uma tema comum: a liberdade de imprensa e, particularmente, a forma como a censura a afetou.

Mais do que uma reunião de velhos amigos, o "VII Encontro de Gerações do JN", organizado por Alfredo Maia e Fernanda Gomes, sublinhou a importância da liberdade. A organização selecionou para mostra no Museu dos Transportes e Comunicações (MTC), na Alfândega do Porto, 30 exemplos de "Provas da Censura ao JN", resgatadas ao acervo do jornal, que incidiram especialmente nos anos de 1968, da "queda de Salazar" da cadeira, de 1969, da revolta estudantil de Coimbra, ou de 1974, quando o regime caminhava para o ocaso.

"Vítima a duplicar da censura", nas palavras de Alfredo Maia, por ser jornalista e comunista, César Príncipe, é um prova viva, e uma voz livre, do que foram esses tempos. "Isto é um jornal com 50 anos de atraso, o jornal que a censura não queria", disse aquele ex-jornalista do JN, frente à vitrina onde está exposta, temporariamente, a exposição "Provas da Censura ao JN", que mostra algumas das práticas da censura, das notícias cortadas às proibidas.

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"A omissão é a maior arma da censura", disse César Príncipe. "Enfant terrible" do JN, recordou como usou a mesma arma para atingir os censuradores: ao selecionar as notícias das agências estrangeiras, que chegavam em papel à redação, "deitava fora as notícias que eles queriam que saíssem, e assim censurava a censura", recordou.

A segunda vez que subiu as escadas da PIDE foi em liberdade

A segunda parte do encontro de gerações do JN foi especial para António Ribeiro dos Santos. "É a segunda vez que entro aqui", disse ao franquear os portões do número 329 da rua do Heroísmo, no Porto, a antiga sede da PIDE, hoje museu militar e casa da Unidade de Informação e Interpretação do Património de Resistência ao Fascismo.

Ribeiro dos Santos foi um dos dois estudantes detidos pela PIDE na noite de São João de 1969, por distribuir panfletos, na refrega e no calor da luta estudantil que emanava de Coimbra. Voltou ao 329 da rua do Heroísmo, para repetir o percurso feito há 50 anos, da sala do registo à infame escadaria, o vaivém das celas dos prisioneiros, na subcave, até às salas de interrogatório, no último andar.

No átrio altaneiro, debaixo da claraboia e cercado pelas antigas salas onde a PIDE pressionava presos políticos, evoca-se agora libertação, em 28 fotografias, do espólio do Sindicato dos Jornalistas, que mostram o dia da tomada da sede da Polícia Militar no Porto. A mais icónica das imagens, é de Virgínia Moura, levada em ombros, de punho no ar, a gritar liberdade frente ao edifício onde foi vítima. "Tanta porrada levou aquela mulher. E o marido também, até ficou paralítico", recordou Bruno Neves, o autor do instantâneo. "Esta foto é uma homenagem às mulheres, à resistência ao fascismo e à liberdade", desabafou, com a voz embargada pela memória do tempo em que o pai passou 18 dias preso naquele edifício, pressionado pela polícia política, "apenas porque tinha uma máquina fotográfica a tiracolo".

A exposição tem ainda fotos de Pereira de Sousa. Repórter fotográfico com anos de história no JN, captou muitos momentos que se viveram após o 25 de abril. De entre esses, uma expressão da liberdade da imprensa, um dia após o ocaso da ditadura: vários jornalistas, entre estes Manuel Dias, do "Jornal de Notícias", revistam os arquivos da PIDE, escrutinando provas de tortura, mentira e censura de 48 anos do antigo regime, a que se chamou de Estado Novo.

Da evocação de Manuel António Pina aos novos talentos das antigas gerações

O encontro foi, também, uma forma de recordar amigos e estreitar laços entre gerações, de oportunidade dos mais novos conhecerem os mais velhos. Com almoço no bar-resutaurante Monchique, no Cais das Pedras, no Porto, e momentos de convívio e evocação da gente que fez esta casa, fundada em 1888.

Um dos momentos mais tocantes, saiu da criação de Júlio Roldão, antigo editor das páginas de Sociedade do JN. Foi dele a seleção, e dele o pontapé de saída, de uma sessão de declamação de poemas de Manuel António Pina.

Escritor, poeta, jornalista, Pina continua vivo entre os livros que deixou; eterno na elevação que a poesia dá aos simples mortais, como se ouviu naqueles minutos em que o encontro parou para ouvir e dizer poemas, para os sentir, no Museu dos Transportes e Comunicações.

Foi, também, a oportunidade de mostrar a capacidade de adaptação dos jornalistas do JN à mudança e às novas dinâmicas. No estúdio de televisão do MTC, Fernanda Gomes, ex-editora do Norte-Sul do JN, pegou no microfone e moderou uma conversa com ex-camaradas de redação, filmada e gravada em vídeo por outros "compagnons de route". Uns atrás das câmaras, outros à frente.

"Gostava de ter tido tempo de me preparar antes, porque fui apanhada de surpresa, mas quando os jornalistas se encontram há sempre histórias para contar, por isso acabou por ser fácil" conduzir a conversa, disse Fernanda Gomes, que agora que é avó se viu nestas andanças da multimédia por uns minutos. Sem censura, que hoje existe, mas é menos visível, não é de lápis azul.

"As redações hoje estão muito limitadas por constrangimentos financeiros e impossibilitadas de ter uma agenda própria", observou Fernanda Gomes. "Os jornalistas têm muito mais capacidade, chegam às redações mais cultos, mais informados, o que não têm é tempo, espaço, para ir ao fundo das coisas", disse, quando na sala ecoavam já os versos musicados de José Mário Branco, falecido na terça-feira.

A escolha musical, a cargo das anfitriãs no MTC, Cecília e Adriana, embalou o JN, deu o mote. "Eu vim de longe, de muito longe", 131 anos de história; "o que andei p'ra aqui chegar"; monarquia, república, ditadura, censura, liberdade. "Eu vou p'ra longe, p'ra muito longe, onde nos vamos encontrar, com o que temos p'ra nos dar".

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