Cultura

Memórias da censura como alerta para o presente

Memórias da censura como alerta para o presente

Foi reeditado esta semana o livro "Segredos da censura", do jornalista e escritor César Príncipe. Recolha de instruções enviadas pela censura ao "Jornal de Notícias" entre 1967 e 1974.

Publicado pela primeira vez em 1979, o livre surge agora reeditado pelas Edições Afrontamento com novo prefácio de Francisco Duarte Mangas, presidente da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, em cuja sede foi lançada esta edição de "Segredos da censura". César Príncipe, nascido em 1942, foi repórter, editor e redator principal do "Jornal de Notícias", tendo obra publicada nos domínios da poesia, crónica, ficção e reportagem.

A partir deste levantamento das ordens enviadas pela censura, que o autor confessa ter "pirateado" dos arquivos do "Jornal de Notícias", constrói-se quase uma narrativa distópica onde se verifica a aspiração a um controlo total da realidade por parte do regime de Salazar e Marcelo Caetano.
A "falsidade programada", como lhe chama César Príncipe, incidia não apenas sobre os assuntos relacionados com a política, como no caso desta ordem de 29 de julho de 1970: "Protestos da população do Porto contra o aumento das tarifas do transporte - CORTAR". A Comissão do Exame Prévio do Porto interferia ainda em todas as matérias relativas aos costumes: "Reuters (de Paris). Fala na utilização da pílula. Não falar em pílula, no título." A cultura também não escapava: "Qualquer referência ao filme "Quem tem medo de Virgínia Woolf" - SUSPENDER". E, por vezes, pareciam apenas caprichos: "Telegramas de Cassius Clay [ou Muhammad Ali, famoso pugilista americano]. Nada de sensação, que ele não merece." Mas mesmo quando as ordens parecem destinadas a fazer rir, convém estar atento, avisa o autor: "Não se distraía com algumas passagens ridículas. Está a ler uma cartilha de criminosos".

Estes telegramas telefonados, a que o jornalista e escritor chama "telefonicídio", eram quase sempre assinados por coronéis (Saraiva, Simas, Roma Torres, etc), que bem podiam ser os funcionários abnegados do romance "1984", de George Orwell, na sua reescrita permanente da realidade.

Mas se esta censura "oficial, funcionalizada, telecomandada e telecomandante" já não existe em Portugal, César Príncipe alerta para outras formas de censura, oriundas sobretudo da esfera do "poder económico", e que se mascaram por vezes na chamada "linha editorial do jornais" e nos "enquadramentos", que significam geralmente que "os objetos das noticias são sempre os mesmos". Também o "ruído", o "choque", o "sensacionalismo", são obstáculos a uma "informação abrangente e representativa do real". Como se lê no remate da introdução a "Segredos da censura": Identifique-os [aos censores]. Alguns ruminam a seu lado. Já foram ou são candidatos a "coronéis".