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Memórias das guerreiras das conservas em palco

Memórias das guerreiras das conservas em palco

Peça baseada em depoimentos de antigas operárias estreia esta quinta-feira no Teatro Constantino Nery, em Matosinhos

Três gerações de operárias das fábricas de conservas são representadas no espetáculo "Titãs - Memórias e Sonhos da Indústria Conserveira em Matosinhos", que, entre esta quinta-feira e domingo, abre a temporada no Teatro Municipal Constantino Nery. Jorge Louraço Figueira, encenador e autor (em co-autoria com Diogo S. Figueira), baseou o texto em testemunhos de antigas trabalhadoras fabris, que revelaram episódios quase desconhecidos.

Entre eles, conta-se o "enterro da safra", um protesto em forma de ritual, que consistia em deitar um caixão com peixe ao mar, no início do defeso e dos "meses da fome", como lhe chama uma das personagens. "Era tudo proibido, não podiam fazer greves nem protestos, portanto só há registos disso na imprensa clandestina. Ninguém conhecia isto, só encontrei mesmo no testemunho dessa antiga trabalhadora. Elas saíam com o caixão e faziam uma espécie de protesto performático, era o que era permitido", referiu ao JN o encenador do espetáculo, promovido pela Câmara Municipal de Matosinhos.

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Outra história revigorada na peça o é o reconhecimento do papel de Maria de Lourdes Pintassilgo na defesa dos direitos daquelas mulheres que se prolongou para lá do 25 de abril de 1974. Enquanto primeira-ministra (chefiou um Governo de gestão para preparar eleições intercalares, entre 1979 e 1980), foi ela quem acabou por assinar o diploma de consagração desses direitos. "Uma das entrevistas frisou isto e nós acabámos por usar", contou Jorge Louraço Figueira, que, na voz das quatro atrizes do elenco, colocou relatos quase textuais dos testemunhos das antigas operárias.

A ideia inicial era construir quatro monólogos de mulheres de várias gerações da mesma família, que descrevessem as várias fases da indústria conserveira, desde finais do século XIX e através das guerras, quando se desenvolveu bastante. "Isso foi acabando por ficar pelo caminho e foi ficando a história da transmissão de conhecimentos e de hábitos de trabalho. E à medida que fomos fazendo as entrevistas, apareceram as histórias da fome, das pessoas que eram exploradas e que não sabia se iam ter trabalho no dia seguinte. Se não houvesse peixe, não tinham", referiu o encenador e autor.

O tema do trabalho não é estranho a Jorge Louraço Figueira que, ainda no ano passado, investiu no tema da fábricas de cerâmica de Aveiro, o que resultou na produção "As sete vidas da argila". Em Matosinhos, optou por não levar à cena membros da comunidade, mas um elenco de atrizes profissionais - Isabel Carvalho, Flora Miranda, Gracinda Nave e Romi Soares -, ao qual se juntam dois jovens atores recrutados num casting em Matosinhos, no papel de soldados. Um deles, Máximo Puga, faz a sua estreia neste espetáculo; ao lado de Rúben Pérola.

O cenário de caixotes industriais empilhados, versátil e minimalista, permite uma ambiguidade de interpretações ligadas às mudanças na paisagem de Matosinhos, à medida que a modernidade varria as fábricas da paisagem urbana, e nela nascia uma nova e moderna cidade burguesa. Vai colher inspiração ao imaginário brutalista das enormes fábricas, mas também à ruína em que muitas delas se tornaram, e ainda aos prédios que enchem agora o horizonte de Matosinhos sul. Uma romãzeira e as romãs que vão circulando pretendem evocar a fertilidade feminina - que é tanto um símbolo de força, como de outras lutas destas operárias, que relataram histórias de numerosas gravidezes e de abortos clandestinos.

O espetáculo "Titãs - Memórias e Sonhos da Indústria Conserveira em Matosinhos" está em cena até este domingo, dia 18, no Teatro Municipal Constantino Nery. Até sábado, as sessões são às 21 horas e, no domingo, às 16 horas. Os bilhetes custam entre 5 euros e 7,5 euros.

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