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Michel Houellebecq e a arte do escândalo

Michel Houellebecq e a arte do escândalo

Finalmente disponíveis para os leitores portugueses, as intervenções públicas de Michel Houellebecq revelam um autor desassombrado, mas também dependente das polémicas. É, contudo, quando despe a máscara de 'maldito' que o escritor consegue ser mais interessante.

É tarefa inútil querer separar o homem do escritor. Pelo menos, quando o ser em questão é Michel Houellebecq, o mais controverso escritor francês do nosso tempo, cujo rastro de polémicas, questiúnculas e "parti-pris" seria suficiente para a criação de uma obra porventura ainda mais extensa do que aquela a que deu origem.

Para os seus detratores, a celeuma de que o autor de "Partículas elementares" se alimenta é, mais do que uma necessidade, a sua absoluta razão de ser enquanto escritor.

Excessiva ou não, a tese ganha algum sentido ao lermos o volume "Intervenções", uma súmula de entrevistas e artigos de opinião de teor diverso publicados ao longo dos anos.

Se a truculência com que Michel Houellebecq pontua as suas declarações públicas merece crédito pela forma como coloca em causa o discurso politicamente correto que sempre andou de mãos dadas com o meio literário, há, todavia, uma propensão inata para o escândalo, em negação absoluta com as afirmações do próprio autor nas quais se declara "um escritor normal".

Dir-se-ia, lendo as suas opiniões eternamente desassombradas, que se tornou refém da sua própria lenda de desbragamento, suscetível de desiludir os seus seguidores caso se comportasse efetivamente (e não o declarasse apenas com o intuito notório de provocar efeito) como "um homem normal".

E, contudo, nas escassas vezes em que o autor de "Submissão" coloca de lado a pose provocatória, deixa-nos entrever uma humanidade não menos que tocante, infinitamente mais interessante do que a imagem de rufiola que se habituou a propagar.

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´´É esse o caso de um curto artigo de opinião, publicado há uma dúzia de anos, em que recorda a sua condição de leitor voraz desde a meninice. Sem o afã de causar escândalo que o acompanha por norma, o escritor natural da ilha de Reunião recorda o tempo em que era feliz entre os livros, lamentando apenas que "a felicidade não deixe muitas marcas".

O artificialismo do escritor atinge o auge nas entrevistas. A noção de que está a comunicar para plateias mais numerosas do que as que têm por hábito ler livros, fá-lo assumir, na maioria destas peças jornalísticas, uma pose que oscila entre a "rock star" arrogante até à medula e o tudólogo que avança cenários pós-apocalípticos para causar maior impacto.

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