Literatura

Miguel Real: "Saramago faz falta para abanar o nosso comodismo"

Miguel Real: "Saramago faz falta para abanar o nosso comodismo"

Co-autor da biografia "As sete vidas de José Saramago", Miguel Real elege a capacidade de resistência manifestada pelo escritor em diferentes etapas da sua existência como o fator determinante para o reconhecimento que viria a ter a partir dos 60 anos.

Nas mais de sete centenas de páginas da biografia de Saramago, Miguel Real e Filomena Oliveira analisam de forma detalhada o que consideram ser os dois sentidos essenciais da vida do Nobel da Literatura: se a "criação estética" não causa surpresa de maior, já a segunda - "o apurado sentido de justiça social" - ganha uma importância que muitos não imaginariam.


Crê ter conseguido captar na sua biografia o "sentido da existência" de José Saramago e não apenas "os factos acidentais da sua vida", como refere a epígrafe que escolheu para o livro?

PUB

Sim, eu e a Filomena falámos muito sobre esse tema. Os dois sentidos essenciais da vida de Saramago são a criação estética - a Obra - e um apurado sentido de justiça social, que emerge tanto na obra quanto nas crónicas e nas entrevistas, quanto ainda nas intervenções políticas. Assim desenhámos a sua biografia.


A sua biografia deixa evidente, até pelo título, que a vida de José Saramago foi excecional a vários níveis. Quais os traços do seu caráter que, na sua opinião, mais contribuíram para que ele tivesse tantas vidas numa só?

Nunca desistir de ser escritor. Assim o disse aos 16 anos, que queria ser escritor, quando frequentava um curso industrial, mas, em verdade, só conseguiu sê-lo aos 58 anos, e só aos 60, quando publicou o Memorial, teve um forte sucesso editorial. Nunca desistiu de escrever, evidenciando uma fortíssima capacidade de resistência face às adversidades e às circunstâncias penosas da vida.

O reconhecimento avassalador de Saramago só acontece verdadeiramente quando ele já vai a caminho dos 60 anos. Crê que a obra de Saramago publicada até então não era merecedora desse estatuto ou sente que isso se deveu à dificuldade de enquadrá-la literariamente e até pelos conhecimentos reduzidos do autor no meio literário de então?

Em termos de escrita, há dois momentos importantes na vida de Saramago - antes do "Levantado do Chão" e do "Memorial do Convento" e depois da publicação destes dois livros, já Saramago tinha 60 anos. A obra anterior, não sendo de fraca qualidade, não se compara com a posterior, não só de altíssima qualidade estética como criadora de um estilo originalíssimo versando sobre temas eternos - o Amor, a Igualdade social, a Justiça, a Morte, o valor da História, a relação da realidade com a Transcendência, o que e quem é Homem...

Acredita que Saramago manteve os seus sonhos literários sempre vivos, mesmo quando esteve tantos sem publicar?
Sim, Saramago nunca desistiu de escrever, mesmo quando o jornalismo o assoberbava (1968 - 1975. Por isso, mal deu por finda as crónicas para os jornais, editou logo um conjunto de contos - "Objeto Quase" - e logo a seguir um novo romance - "Manual de Pintura e Caligrafia". Mesmo nos anos como editor da Estúdios Cor, ia escrevendo poemas - "Os Poemas Possíveis".

Em que sentido essas dificuldades iniciais foram importantes para as futuras "vidas" que teve?

Deu- lhe capacidade de resistência face aos imponderáveis nefastos e alimentou-lhe a solidez da esperança. Nunca desistiu. Ele sabia onde queria chegar e como fazer para lá chegar - escrever, escrever, escrever - só não sabia quando chegaria.

Como procurou evitar que esta fosse "apenas mais" uma biografia deste autor? Ou seja, que atributos acredita que ela possui que a diferenciam das demais?

É a única biografia que cruza os dois sentidos essenciais da vida de Saramago, década a década, demarcando os 7 momentos essenciais da sua vida - menino pobre destinado a ser serralheiro; o casamento e a passagem a empregado de escritório, enfileirando na grande massa da pequena burguesia; o golpe de sorte de ter sido convidado a trabalho como editor e a frequentar os círculos literários; a vida de jornalista até ser diretor do DN em 1975; a década de 8º - um década prodigiosa de criatividade; a passagem a escritor internacional; finalmente, o estatuto final de escritor mundial.


Há quem eleja o célebre retiro que o autor fez, do qual nasceu "Levantado do chão", como o momento definidor da sua obra mas também do próprio percurso. É da mesma opinião?

Sim, "Levantado do Chão" (1980), um épico às avessas, um louvor à reforma agrária, contra tudo e contra todos, foi o início do "estilo saramaguiano", que se concretizou depois em "Memorial", em "Ricardo Reis" e "História do Cerco de Lisboa", preparando o romance eterno do Evangelho.

Por questões de ordem ideológica ou outras, José Saramago nunca foi uma figura consensual. Acha que essa ausência de consenso, ou até clara aversão, que a sua figura suscitava lhe causava algum azedume ou, pelo contrário, acentuava ainda mais a veia polemista?
Sim, Saramago foi sempre um escritor polémico, sobretudo por defender ideias não consensuais (o comunismo, a necessidade igualdade social e económica, a crítica da democracia formal, a crítica do catolicismo e a identificação da Bíblia como um "manual de maus costumes". Saramago era um autor "estranho", assumindo para a segunda metade do século XX e princípios do XXI o estatuto do intelectual do século XIX, como sismógrafo cultural e guia orientador do povo. Em época em que cada intelectual se tornou indiferente às grandes questões da existência, Saramago ousou "sujar as mãos" (Antero de Quental), descer à arena e incentivar as populações a revoltarem-se face à generalização da injustiça.

Uma das razões para a hostilidade que muitos lhe tinham devia-se à alegada participação direta do escritor no pretenso saneamento de jornalistas em pleno Verão Quente, o que Saramago sempre negou. Ao pesquisar sobre este episódio em concreto, com que opinião ficou?

Descobrimos que Saramago não estava na sala da Assembleia plenária do DN quando os 24 jornalistas foram saneados. Saramago falou antes, falou duro e forte, criticou asperamente a posição ideológica e jornalísticas dos autores do manifesto, depois foi para o seu gabinete. Não votou. As suas críticas não foram mais duras do que muitas outras intervenções. O papel de Saramago na orientação do DN, de apoio ao PREC não foi diferente do papel de Pinto Balsemão e de Marcelo Rebelo de Sousa no Expresso e de Artur Portela no "Jornal Nov"o. Não era uma questão jornalística, era uma questão eminentemente política. Isto é, Saramago defendeu o PREC e as forças revolucionárias como Marcelo defendeu as forças do PS e do PSD. Dito de outro modo, Saramago não estava inocente, mas também não foi um algoz.

Desde a morte de José Saramago, não mais voltámos a ter no espaço público um escritor ou até mesmo um intelectual que utilizava a sua visibilidade e prestígio na defesa das causas em que acreditava. O que perdemos enquanto cidadãos com essa ausência?

Perdemos o sentido de justiça social, perdemos a possibilidade de que "todos os homens fossem reis e todas as mulheres rainhas" (Memorial), perdemos o sentido da utopia e tornámo-nos utilitaristas, adormecidos , calculistas, interesseiros.. Trocámos a política e os ideais históricos pelos centro comerciais, pelo futebol e pela praia no Verão. Saramago faz falta para abanar o nosso comodismo.

Aproximamo-nos do final das comemorações do seu centenário. Em forma de balanço, é da opinião que foram um momento bem aproveitado para manter viva a sua obra e até levá-la a novos públicos?

Sim, a Fundação José Saramago, a Pilar, o Prof. Carlos Reis, o Sérgio Letria, o Ricardo Viel e os restantes colaboradores da Fundação fizeram um brilhante trabalho. Mesmo excelente. Ficámos, por vezes, com a sensação de que Saramago continuava vivo, só não podia aparecer. Era uma partida que ele nos estava a pregar.


Com o empobrecimento crescente da linguagem, até na literatura, e a apatia manifesta dos leitores a livros que estimulem o ato de pensar, teme de alguma maneira que a obra de José Saramago - e a de outros autores igualmente exigentes - possa estar "ameaçada" no futuro, ou seja, correndo o risco de passar mais despercebida?
Saramago e Agustina terão sempre leitores suficientes para nunca desaparecerem da história da literatura, como haverá sempre espectadores para o bailado, a ópera, o teatro. Em todos os tempos houve sempre leitores populares e leitores eruditos, faz parte da natureza do escritor e da própria literatura, que explora múltiplas dimensões, algumas das quais populares, até muito populares. Quem não recorda a sobranceria de Sá de Miranda face a obra Gil Vicente: eu escrevo "comédias", não escrevo "autos".

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG