Cultura

Milú, a vedeta portuguesa que recusou Hollywood

Milú, a vedeta portuguesa que recusou Hollywood

A actriz Milú, falecida hoje em Cascais, foi a primeira vedeta do cinema português que Hollywood convidou mas a protagonista de "O Costa do Castelo" recusou por medo.

O convite repetiu-se por três vezes, mas Milú sempre recusou "por medo de não corresponder às expectativas", afirmou numa das muitas entrevistas que deu.

Em 1982, numa entrevista ao jornalista Sousa Neves, confessaria ter-se arrependido. Forrester, da Universal Pictures, apresentou-lhe um contrato em branco e o projecto de dois filmes, contou.

Nascida em 24 de Abril de 1926, baptizada Maria de Lourdes Almeida Lemos, tomou o nome artístico de Milú que chama logo a atenção na Emissora Nacional, integrando um quarteto feminino ou cantando a solo.

Todavia, desde menina que já actuava em emissões radiofónicas, tendo-se estreado aos 12 anos, simultaneamente, no teatro e no cinema.

No Éden Teatro integra a peça infantil "O preto mazalipatão" e consegue um pequeno papel na "Aldeia da roupa branca" de Chianca Garcia, protagonizado por Beatriz Costa.

A sua popularidade na Emissora leva o realizador Arthur Duarte convidá-la, em 1943, para protagonizar "O Costa do Castelo" que se transformou num êxito, designadamente a canção "Cantiga da rua", que interpretava ao lado de "A minha casinha".

Milú torna-se um caso sério de popularidade, partindo nesse ano para Espanha onde filma "Doce lunas de miel" de Ladislao Vajda, ao lado de María Brú, Ana María Campoy e Raúl Cancio.

Referindo-se ao realizador que a descobriu afirmou anos mais tarde: "Havia nesses tempos de cinema, horários e disciplina imposta por essa pessoa fabulosa que é o Arthur Duarte".

Casa-se em Dezembro desse ano e correu logo a notícia que se afastava da cena para "grande tristeza dos seus fãs", como escreveu a imprensa da época.

Porém, regressa ao cinema três anos mais tarde em "O Leão da Estrela" em que volta a contracenar com António Silva.

Até à década de 1950 trabalha ininterruptamente no cinema, em filmes como "A volta do José Telhado", "O grande Elias" ou "Os três da vida airada".

Em 1952 estreia-se na revista "Ó rosa arredonda a saia" no Teatro Avenida; passando a primeira figura dos palcos portugueses até à década de 1960.

Em 1960 é vedeta em Barcelona na revista "Ven y ven" e surgem os primeiros rumores de que foi convidada para Hollywood.

Volta a casar-se, no mesmo ano, e a afastar-se da cena artística até 1968. Durante este período viveu no Brasil onde esporadicamente fez umas aparições nas televisões e gravou alguns discos.

Regressa a Portugal em 1968, sendo protagonista com António Calvário do filme "Afinal o diabo era outro", de Constantino Esteves, voltando depois aos palcos em peças como "A casa das cabras" (1970) ou "Quarenta quilates" (1971) e em revistas como "Lisboa acordou" (1975), tendo-se despedido em 1978 na revista "Meninos, vamos ao vira".

O realizador Fonseca e Costa convida-a para uma participação especial em "Kilas, o mau da fita", que é exibido em 1980.

Numa entrevista, afirmaria que gostou sempre de cinema e que tinha "sido sempre, essencialmente, uma actriz de cinema".

A sua última aparição em público foi no ano passado, numa gala de homenagem, no Teatro S. Luiz, em Lisboa, no mesmo ano em que filmou o documentário "Milú, a menina da rádio" de António-Pedro Vasconcelos.

Em declarações à imprensa afirmou: "Fiz um nome à minha custa, com muito trabalho", sublinhando "acho que valeu a pena".