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José Mário Branco recordado como "um dos maiores nomes da canção portuguesa"

José Mário Branco recordado como "um dos maiores nomes da canção portuguesa"

A ministra da Cultura, Graça Fonseca, lamentou, esta terça-feira, a morte do músico e produtor José Mário Branco, dizendo que "resistir, em Portugal, terá sempre um disco [seu] como banda sonora".

Numa mensagem publicada na conta oficial do ministério, na rede social Twitter, José Mário Branco é lembrado como um "nome maior da música portuguesa" e uma "voz de luta e de intervenção".

"[A] Ministra da Cultura lamenta profundamente a morte de José Mário Branco, nome maior da música portuguesa. Voz de luta e de intervenção, o seu legado é intemporal e é património coletivo", acrescentou, na mesma mensagem.

Ferro Rodrigues destaca antifascista e figura ímpar da música de intervenção

O presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, manifestou-se consternado com a notícia da morte de José Mário Branco, considerando que foi um "antifascista", um dos maiores nomes da canção portuguesa.

"José Mário Branco é inquestionavelmente um dos maiores nomes da canção portuguesa, num percurso que começou muito antes do 25 de Abril e que durou até aos dias de hoje. E que durará, na verdade, enquanto tivermos memória", escreveu Ferro Rodrigues numa mensagem de pesar enviada à agência Lusa.

Como autor, segundo o presidente da Assembleia da República, ficarão de José Mário Branco "álbuns incontornáveis da música portuguesa, como "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades" (1971), "Margem de Certa Maneira" (1973), "FMI" (1982), "Correspondências" (1990) ou "Resistir é Vencer" (2004)".

"José Mário Branco foi uma figura ímpar da música de intervenção, da canção de Abril, tendo a sua música sido rica no recurso a vários géneros musicais, do cancioneiro popular à clássica, passando pelo rock, o jazz ou a música francesa", referiu também Ferro Rodrigues.

Nesta sua mensagem, Ferro Rodrigues destacou também que José Mário Branco foi um "antifascista, perseguido pela PIDE" e "a sua intervenção cívica empenhada e atividade política levaram-no ao exílio em França no tempo da ditadura (em 1963), onde, apesar da distância, nunca deixou de aspirar e lutar pelo fim do regime".

"Regressou a Portugal em 1974, com a liberdade, para ajudar a construir um País mais justo, propósito que nunca deixou de o inquietar. Hoje é um dia de enorme tristeza pessoal. À família (nomeadamente aos filhos e netos) e aos muitos amigos, quero transmitir, em meu nome e em nome da Assembleia da República, a expressão do mais sentido pesar, assim como reconhecer a importância da obra que José Mário Branco deixou ao país, bem como o seu exemplo de inconformismo, coerência e rebeldia", acrescentou Ferro Rodrigues.

Adolfo Luxúria Canibal lamenta morte de "amigo"

"Estou em estado de choque. É um amigo que se perde", disse, emocionado, Adolfo Luxúria Canibal. O vocalista de Mão Morta e poeta referiu ainda o valor e a importância de José Mário Branco para a música e cultura portuguesas.

Adolfo Luxúria Canibal e José Mário Branco escreveram em conjunto a canção intitulada "Loucura", que foi recentemente recuperada para um disco de tributo lançado este ano.

Capicua lembra "herói" de infância

A 'rapper' Capicua lamentou a morte de José Mário Branco e assumiu que o músico era um dos seus "heróis de infância" e uma inspiração que fez da canção uma ferramenta para mudar o mundo.

"É um dos meus heróis. É uma das figuras mitológicas da minha infância [...]. Foi um dos grandes exemplos de músicos em Portugal que fizeram da canção uma ferramenta [para mudar o mundo] e um megafone para ampliar as suas causas", declarou à Lusa Capicua, nome artístico de Ana Matos Fernandes.

Capicua assume que "Zé Mário", como lhe chama, a inspirou muito para a fazer a sua música, recordando que escreveu os versos a pensar no artista para o tema "A última", do seu primeiro álbum.

"'A última' começava com os versos 'Eu cresci a ouvir Zé Mário, a TV era a rádio, e a minha primeira rima foi à porta do infantário', porque de facto os meus pais ouviam muito Zé Mário e é um dos heróis do meu pai. São todos eles os meus heróis e ouvia muito as músicas dele que eu achava até que era música para crianças", como por exemplo "A ronda do soldadinho" ou o "Charlatão".

Sérgio Godinho: "Tenho uma dor muito profunda"

O músico Sérgio Godinho manifestou uma "dor muito profunda" pela morte de José Mário Branco, um autor "riquíssimo e fundamental na música portuguesa".

"Tenho uma dor muito profunda, de repente esta morte súbita. Sempre fomos extremamente leais. Nunca houve um desentendimento. No essencial estivemos sempre próximos e cúmplices. [...] Somos irmãos de armas. As nossas vidas tocaram-se muito e tocaram-se em muitas aventuras criativas e pessoais", afirmou o cantautor.

Sérgio Godinho recorda-se de ter conhecido José Mário Branco em Paris, onde este estava exilado: "E imediatamente desenvolvemos uma amizade. [...] Começámos a fazer parcerias e letras para aquilo que viria a ser o seu primeiro disco, e o meu primeiro disco, que foram gravados mais ou menos ao mesmo tempo".

José Mário Branco editou "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades" em 1971 e Sérgio Godinho lançou "Os Sobreviventes" em 1972. Os dois álbuns incluem parcerias entre eles e do alinhamento faz parte um mesmo tema, "O Charlatão".

Independentemente da amizade que os uniu ao longo de décadas - reavivada ainda no espetáculo "Três cantos", com Fausto Bordalo Dias -, Sérgio Godinho considera que José Mário Branco "teve uma importância fundamental no renovar da música portuguesa" e sublinha dois artistas com quem ele trabalharam: José Afonso e Camané.

Sérgio Godinho nomeia "a enorme etapa no desenvolvimento sonoro" dos discos do Zeca Afonso que tiveram participação de José Mário Branco e a ligação "absolutamente fulcral" com o fadista Camané. "Foi ele que impulsionou muito".

"Era alguém riquíssimo e fundamental na música portuguesa", disse o músico de 74 anos.

A última vez colaboraram foi no álbum "Nação Valente", de Sérgio Godinho, em que José Mário Branco escreveu a música "Mariana Pais, 21 anos".

Tó Trips recorda a veracidade com que músico cantava

O guitarrista português Tó Trips recordou hoje a veracidade com que o músico José Mário Branco, que morreu aos 77 anos, cantava, algo que, "além da sua verticalidade", sempre admirou.

"Uma das coisas que sempre admirei nele, além da sua verticalidade, era uma coisa que já não encontro hoje em dia: a maneira como ele cantava, aquela escola tipo Ary dos Santos ou Jacques Brel", afirmou Tó Trips em declarações à Lusa.

Quando se ouve alguém cantar dessa maneira, referiu, "aquilo é bastante sofrido, é bastante vivido".

"Estás a ouvir alguém cantar e parece que o que está a dizer é a maior das verdades, que aquilo se passou ou que viveu aquilo, uma maneira bastante sofrida, bastante emotiva. Uma coisa que hoje em dia não conheço ninguém que tenha isso", referiu.

Tó Trips descobriu a música daquele autor na década de 1980, através de uma namorada da altura, "que era da JCP [Juventude Comunista Portuguesa] e gostava imenso de José Mário Branco e de Sérgio Godinho".

O guitarrista explicou que, no pós-25 de Abril de 1974, fartou-se "um bocado de música de intervenção e de música brasileira, era tudo aquilo que se ouvia na rádio" e "quando apareceu o Rock-Rendez Vous [um dos mais importantes espaços na história do rock em Lisboa] e a cena portuguesa de rock" foi esse o caminho que seguiu: "só mais tarde é que eu me reconciliei com esses artistas".

Com os Dead Combo, banda que formou com o baixista Pedro Gonçalves e que recentemente anunciou o fim, teve "a sorte" de um dia participar num concerto no Musicbox com o fadista Camané e com José Mário Branco. "Foi a única vez que estive a falar com ele nos camarins", recordou.

Reconhecendo também a importância de José Mário Branco enquanto produtor, Tó Trips partilhou ter havido uma altura em que chegou a falar com Pedro Gonçalves da possibilidade de o músico "produzir um disco dos Dead Combo". "Eu gostava, mas acabou por não acontecer", disse.