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Cinema. Miss França é um rapaz num corpo de mulher, e depois?

Cinema. Miss França é um rapaz num corpo de mulher, e depois?

Um grupo de rapazes e raparigas revela para uma câmara ligada o que sonha ser quando for grande. De repente, Alex, de dez anos, diz ambicionar ser Miss França. Quinze anos mais tarde, ganha o concurso regional, o que lhe permite ir a jogo na muito mediática eleição de Miss França.

Esta é a história da comédia dramática "Miss", o novo filme do luso-francês Ruben Alves, que conquistou mais de um milhão de portugueses, em 2013, com "A gaiola dourada". O realizador e o seu protagonista, o antigo manequim Alexandre Wetter, conhecido também pela sua androginia, estiveram em Portugal a apresentar o filme na 21.a Festa do Cinema Francês.

Mesmo para uma indústria habituada a grandes sucessos de bilheteira, "A gaiola dourada" foi considerado um fenómeno, mas não mudou a vida de Ruben Alves. "Não me mudou, mas permitiu-me ser reconhecido profissionalmente, com a nomeação aos Césars e com os prémios ganhos", diz o realizador ao JN. "Não posso dizer que as pessoas passaram a olhar-me de forma diferente. Posso dizer que passaram a olhar, antes nem me conheciam".

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Ruben Alves admite que teria sido fácil realizar um novo filme no rescaldo do sucesso do primeiro, mas preferiu esperar. "A questão do género e da identidade é um tema que me toca particularmente", diz, para explicar por que razão se sentiu fascinado com a história que quis contar. "A ideia nasceu do meu encontro com o Alexandre. Descobri-o nas redes sociais e fiquei fascinado com o à-vontade com que desfila no feminino, em alta costura e saltos altos, como se houvesse uma mulher naquele seu corpo de rapaz".

O tema da identidade de género é transversal à sociedade e o cinema não lhe é indiferente. "É muito atual essa fluidez dos géneros. Há jovens que não querem pertencer a uma categoria, que querem explorar a sua feminilidade sem quererem forçosamente ser mulher. E vice-versa", diz Ruben Alves. "É algo que me toca, tenho amigos muito próximos que o fizeram".

Da ideia ao filme foi um passo. "O Alexandre pediu-me para fazer dele uma Miss França muito bela. Quando contei a ideia ao meu produtor, ele olhou para mim e disse-me para escrever de imediato a história", recorda. "Pensei que o comité do concurso de Miss França ia dizer-me para não fazer o filme. Mas aconteceu o contrário, achou a ideia ótima. E contou-me que no ano passado teve dúvidas na pré-seleção de Toulouse e acabou por não aceitar a candidata", revela o realizador quando questionado sobre a verosimilhança da história.

No início deste ano, Ruben Alves percorreu França a promover o filme. "Tivemos um acolhimento extraordinário. As pessoas ficaram muito tocadas. Sentimos que havia uma grande ternura pelo filme e pela personagem", diz. "Tinha medo do público masculino, que pudesse colocar em causa a sua virilidade. Mas não. Muitos homens também se identificaram".

Manequim andrógino, capa de inúmeras revistas e modelo que adquiriu uma espécie de consagração ao desfilar para Jean-Paul Gaultier, Alexandre Wetter, nascido e criado no Sul de França, tem em "Miss" o seu primeiro trabalho no cinema, mas já tinha tido um pequeno papel na série "Versailles", criada pelo Canal Plus. Ao JN, o manequim confessou que o mais difícil foi a dieta. "Fiquei muito nervoso. A minha treinadora disse-me que não podia comer mais do que cabia na minha mão. Arroz, legumes, ar e água". Excluindo a restrição alimentar, tudo o resto correu bem. "Estive sempre bem acompanhado. O Ruben sabia bem o que queria fazer". Ao todo, foram dois meses de preparação. "Tive de perder um pouco de peso e de andar em saltos altos, mas não como manequim. Senti-me uma miss, bem acolhida por outras misses. Tornaram-se muito amigas, compreenderam a história. Contaram-me as experiências que tiveram, o que também ajudou imenso". Tem vontade de continuar? "A experiência foi tão rica e poderosa, há uma espécie de liberdade que adoro". Por isso, a resposta é "sim".

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