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"Morna contribuiu para o empoderamento da mulher caboverdiana"

"Morna contribuiu para o empoderamento da mulher caboverdiana"

A Morna de Cabo Verde já é Património Imaterial da Humanidade. A decisão da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) foi ratificada, esta quarta-feira, em Bogotá, na Colômbia.

Cabo Verde tem desde hoje, com a Morna, a sua primeira inscrição na lista do património Imaterial da Humanidade, da UNESCO. Os cabo-verdianos exultam e celebram o acontecimento.

"O momento esperado e muito desejado aconteceu. A morna é, a partir de hoje, Património Imaterial da Humanidade", afirmou o primeiro-ministro cabo-verdiano, Ulisses Correia e Silva, rodeado de mais duas dezenas de músicos, compositores e instrumentistas que, no Palácio do Governo, na Praia, acompanharam através da Internet a proclamação da UNESCO, na Colômbia.

"É um dia particularmente feliz, em que nós todos devemos estar felizes de ter nascido cabo-verdianos", afirmou o chefe do Governo, já depois da festa do anúncio e antes de um improvisado concerto de mornas no Palácio do Governo, com os artistas.

O ministro da Cultura e das Indústrias Criativas, Abraão Vicente, que liderou a delegação cabo-verdiana, que integrou músicos locais, como a cantora Nancy Vieira, regozijou-se com a decisão. Na verdade o governante, mal foi conhecida a decisão preliminar da UNESCO, já havia anunciado, na sua página na rede social Facebook que este seria o desfecho, mas só hoje essa decisão foi oficialmente tomada pelo comité independente de peritos, constituído por representantes de diversos países.

"Este é um dia histórico para Cabo Verde, um país pobre em matéria de recursos materiais que vê a sua riqueza cultural reconhecida. Para alguém, como eu, que fez a sua escolha cantando o género, esta é a prova de que tudo valeu a pena", disse a cantora Nancy Vieira ao JN minutos depois de ter sido conhecida a decisão.

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O antropólogo Paulo Lima, um dos envolvidos no processo de candidatura, sublinhou por seu turno que este género musical de Cabo Verde reunia todas as hipóteses para ser inscrito na lista do património imaterial.

"Existem alguns elementos que me parecem importantes como a atenção às questões de género. A Morna, através da Cesária Évora, e não só, abriu hipótese para o empoderamento da mulher caboverdiana. E isso, sublinho, foi algo muito importante. O que ela conseguiu com a sua música, nos anos 80 e 90, foi abrir uma janela de hipótese para as mulheres do seu país. Portanto, é natural que esta candidatura acabasse por ser reconhecida".

O especialista português, que esteve envolvido nas candidaturas portuguesas ganhadoras do Fado, Cante Alentejano e Arte do Chocalho, sublinhou o facto de a UNESCO ter considerado "a morna como uma das expressões de relevo cultural que interessam a todo o Mundo".

Para Paulo Lima, "a Morna é identitária, tem uma forte expressão na cultura cabo-verdiana, serve como elemento de ligação entre os cabo-verdianos que estão em Cabo Verde e os que estão na diáspora. É uma prática musical que se transforma e reconstrói. Absorve e está em contínua mutação, mas há sempre uma identificação entre a cultura cabo-verdiana e este género musical".

Já José Maria Silva, responsável do Centro Cultural de Cabo Verde em Lisboa sublinha o facto de a morna ter acompanhado "todos os movimentos literários e intelectuais de Cabo Verde, mas também os movimentos de resistência e de emigração. Para os cabo-verdianos esta decisão da UNESCO irá elevar a autoestima de toda nação".

A Morna fez parte dos quarenta e dois elementos da Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade, avaliados na reunião de Bogotá, na qual Portugal também esteve representado com os Caretos de Podence.

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