1930-2022

Morreu a artista plástica Lourdes Castro fundadora do grupo "KWY"

Morreu a artista plástica Lourdes Castro fundadora do grupo "KWY"

A artista plástica Lourdes Castro, uma das fundadoras do grupo artístico e da revista "KWY", em França, morreu este sábado, no Funchal, aos 91 anos.

Lourdes Castro nasceu a 9 de dezembro de 1930, no Funchal, ilha da Madeira, uma paisagem natural que deixou aos 20 anos para estudar em Lisboa, mas onde regressaria a partir de 1983 para viver em permanência, criando ali o seu refúgio.

Marcelo Rebelo de Sousa recorda Lourdes Castro - que condecorou em junho passado - como "uma das mais inconfundíveis artistas portuguesas".

"Nascida na Madeira, Lourdes Castro estudou Belas-Artes em Lisboa, casou-se com René Bertholo e viveu em Munique, Berlim e Paris. Em 1958, fundou a revista KWY, e essas três letras do alfabeto, pouco habituais em português, anunciavam todo um programa cosmopolita, desalinhado e moderno", lê-se numa nota publicada no site da Presidência.

O texto do chefe de Estado refere que, regressada à Madeira em 1983, com Manuel Zimbro, Lourdes Castro "dedicou-se a livros de artista, álbuns de família, memoriais da história e do quotidiano, coleções de lugares e de plantas, sem abandonar uma das suas marcas autorais: a dialética da luz e das sombras (concretas, sugeridas, projetadas, esfumadas, transfiguradas)".

"Figura discreta, mas muito admirada, recebeu nas últimas décadas diversos prémios (EDP, Vieira da Silva, AICA) e reconhecimentos tendo sido condecorada pelo presidente da República em junho passado com a Ordem Militar de Sant'Iago da Espada", refere a nota, que recorda várias retrospetivas de que foi alvo.

Também o presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, manifestou o seu "sentido pesar" pelo falecimento de Lourdes Castro.

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"Nome incontornável da pintura portuguesa contemporânea, Lourdes Castro deixa uma vasta obra, marcada inicialmente pela abstração e pelo novo realismo e que conhece, no dealbar da década de 1960, o tema da sua eleição: a sombra", destaca a nota de Ferro Rodrigues.

O presidente do parlamento recorda ainda as "inúmeras exposições" em que participou ou que lhe foram dedicadas, como a retrospetiva "Além da Sombra", promovida em 1992 pela Fundação Calouste Gulbenkian, ou outra acolhida na Assembleia da República em 2018 ("Arte, Resistência e Cidadania"), no âmbito das Comemorações do 25 de Abril de 1974 e dos 40 Anos da Bienal de Cerveira, "na qual uma das suas obras assumiu lugar central no edifício-sede do Parlamento".

"Em meu nome e no da Assembleia da República, endereço à sua família e amigos as mais sinceras condolências", acrescenta o texto de Ferro Rodrigues.

O primeiro-ministro, António Costa, manifestou "enorme tristeza" pela morte da artista plástica madeirense Lourdes Castro, aos 91 anos, que recordou como uma "artista singular e surpreendente".

"Artista singular e surpreendente, Lourdes Castro sempre se guiou por uma liberdade jovial e pela busca de uma arte da vida. Em 2019, inaugurámos nos jardins de São Bento um painel de azulejos figurando uma das suas sombras projetadas. A sua morte deixa uma enorme tristeza", refere o primeiro-ministro, numa mensagem na sua conta da rede social Twitter.

A ministra da Cultura, Graça Fonseca, lamentou "profundamente a morte da artista Lourdes Castro (1930-2022)". A sua vida e obra representam "um contributo incontestável para a cultura portuguesa e ocupam um espaço insubstituível na história de arte, tanto portuguesa, quanto mundial".

Manifestou "desde muito cedo aquelas que seriam as suas características mais evidentes: uma abordagem multifacetada, não conforme, inovadora, com recurso a técnicas e processos muito próprios e que mostram a sua profunda sensibilidade face à impermanência e a atenção particular com que o seu olhar artístico se relaciona com o mundo", defendeu.

Graça Fonseca recorda igualmente que a obra de Lourdes Castro está "amplamente representada em grandes coleções de arte mundiais, nacionais e estrangeiras, públicas e privadas".

"Lourdes Castro construiu, com as suas inconfundíveis sombras e os seus livros de artista, algumas das peças mais emblemáticas e imediatamente reconhecíveis da arte contemporânea portuguesa", reconhece a ministra da Cultura.

"Contributo incontestável"

A natureza era uma das suas grandes paixões, e com ela viveu uma estreita ligação que se projetou e entrelaçou profundamente no seu trabalho, nomeadamente na série "O grande herbário de sombras" (1972).

Lourdes Castro iniciou estudos no Colégio Alemão, mas, aos 20 anos, partiu em direção a Lisboa onde frequentou o curso de pintura da Escola Superior de Belas Artes (ESBAL), terminado em 1956.

Iniciou o seu percurso expositivo com uma coletiva ao lado de José Escada, no Centro Nacional de Cultura, em Lisboa, em 1954.

Em 1958, foi-lhe atribuída uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian, o que coincidiu e ajudou o início da revista, impressa à mão, em serigrafia, "KWY" (1958-1963), de título composto por três letras que não existiam, na época, no alfabeto português.

A sua obra foi celebrada por exposições de caráter antológico como "Lourdes de Castro e Manuel Zimbro: a Luz da Sombra", no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto, em 2010, e na Fundação Calouste Gulbenkian, em 1992, intitulada "Além da Sombra".

Em 2020, o Governo português atribuiu-lhe a Medalha de Mérito Cultural pelo seu "contributo incontestável para a cultura portuguesa".

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