Cultura

Morreu encenador Joaquim Benite criador do Festival de Teatro de Almada

Morreu encenador Joaquim Benite criador do Festival de Teatro de Almada

O encenador Joaquim Benite morreu, esta quarta-feira, aos 69 anos, revelou um amigo da família. Ficará para a história como o criador do Festival de Teatro de Almada, um dos mais importantes da Europa.

O corpo do encenador Joaquim Benite vai estar, a partir das 18.00 horas, em câmara ardente na capela de Santa Joana Princesa, em Lisboa, realizando-se o funeral, quinta-feira, às 14.45 horas, para o cemitério do Alto de São João.

Joaquim Benite ficará para a história como o fundador de uma das maiores companhias teatrais do país e de um dos mais importantes festivais de teatro da Europa, em Almada.

Nascido em 1943, filho de um empresário do teatro, Joaquim Benite foi ator quando tinha 17 anos, antes de perceber que "não tinha jeito nenhum", e depois jornalista e crítico de teatro, com passagem pelas redações de vários diários, antes de fundar, em 1970, o Grupo de Campolide.

Abandonou a crítica - porque "não tinha muito sentido escrever sobre o teatro dos outros. Se uma pessoa gosta, é fazê-lo", defendeu, numa entrevista ao jornal i, em julho deste ano. E foi isso mesmo que fez: estreou-se na encenação com a peça "O Avançado-Centro Morreu ao Amanhecer", de Agustin Cuzzani. Sete anos depois, em 1977, o Grupo de Campolide profissionalizou-se e instalou-se no Teatro da Trindade.

No ano seguinte, saiu de Lisboa e mudou-se para Almada. Achou que "era bom ir para a periferia" por "uma razão estética e uma cívica": "A primeira era que certas opções estéticas são mais bem aceites por um público que não tem convenções e a segunda era a vontade de criar um público".

Em Almada se estreou com "Aventuras de Till Eulenspiegel", de Charles de Coster e Virgílio Martinho. A designação de Companhia de Teatro de Almada (CTA) viria mais tarde.

Em 1987, inaugurou, com a peça de García Lorca "Dona Rosinha, a Solteira", o Teatro Municipal de Almada (desde 2005 instalado no Teatro Azul, edifício da autoria dos arquitetos Manuel Graça Dias, Egas José Vieira e Gonçalo Afonso Dias, que é, a seguir ao Centro Cultural de Belém, a segunda maior sala do país).

Ao longo de 40 anos de carreira, Benite encenou textos de Molière, Brecht, Lorca, Pushkin, Beckett, Shakespeare, Gogol, Eugene O'Neill, Mikhail Bulgakov, Camus, Edward Albee, Thomas Bernard, Pablo Neruda, Peter Shaffer, Nick Dear, Victor Haim, Sanchis Sinisterra, Marguerite Duras e Antonio Skármeta, entre outros.

Deu igualmente a conhecer, em estreia, autores portugueses como José Saramago, Virgílio Martinho, Fonseca e Lobo e, mais recentemente, Rodrigo Francisco, além de ter também encenado textos de outros autores nacionais, como António José da Silva e Almeida Garrett.

É autor de diversos textos para teatro, bem como de conferências e ensaios e lecionou muitos cursos de teatro. Dirigiu, até morrer, a revista de teatro Cadernos e a coleção de "Textos d'Almada".

Criou, em 1984, e dirigiu sempre o Festival de Almada, um certame de teatro internacional que se tornou o maior acontecimento teatral realizado em Portugal, pela qualidade e quantidade de espetáculos de teatro de companhias nacionais e estrangeiras que todos os anos nele se apresentam.

Várias encenações suas receberam prémios da crítica e outros e ele próprio foi distinguido com a Medalha de Ouro de Mérito Cultural do Concelho de Almada e a Medalha de Mérito Cultural do Ministério da Cultura, além de ter sido condecorado pelo Governo francês com o grau de Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras e pelo rei de Espanha com a comenda da Ordem de Mérito Civil.

Quando lhe perguntaram se achava que ficaria na história, respondeu assim: "Os encenadores nunca ficam na história. Só os escritores, como o Shakespeare. Sabe, acho que vale a pena viver para nos divertirmos. Lutar por coisas, para cumprir missões, não. O teatro é um sinal de civilização que está na origem da sociedade. Até nos animais. Quando chego a casa, o meu cão faz uma dança que parece egípcia, pá. São rituais de representação. Mas o teatro não tem missão nenhuma. É uma coisa que as pessoas fazem porque gostam e as outras veem porque lhes dá prazer".

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