1942-2019

Morreu José Mário Branco, nome grande da música portuguesa

Morreu José Mário Branco, nome grande da música portuguesa

José Mário Branco, um dos mais importantes nomes da música portuguesa, com uma carreira que se estendeu por mais de 50 anos,morreu, esta terça-feira, aos 77 anos.

O músico morreu durante a noite, vítima de um acidente vascular cerebral. As cerimónias fúnebres realizam-se a partir das 17.00 horas desta quarta-feira na Voz do Operário, em Lisboa. O funeral está marcado para quinta-feira à tarde. O corpo seguirá para o cemitério do Alto de São João pelas 17.30 horas do mesmo dia.

O autor de "Qual é a tua, o meu..." estava retirado dos palcos e tinha já declarado que não iria voltar a atuar, embora continuasse empenhado na produção de música em estúdio e no tratamento do seu espólio. José Mário Branco já não gravava desde 2004 e tinha decidido fazer uma pausa nos concertos. "O Mundo mudou tanto que não me senti bem a cantar as músicas do costume", confessou, em 2018, em entrevista ao JN.

Mal a notícia da morte do lendário músico foi conehcida, as reações de tributo e homenagem começaram a surgir. Camané, que tinha uma relação especial com José Mário Branco, que foi produtor de vários discos do fadista, revelou-se ao JN muito consternado. "Não estava nada à espera, à partida ele estaria bem, foi completamente repentino. Está a ser uma manhã muito difícil", confessou.

E relembra o tempo em que conheceu o "cantor de intervenção com uma obra fantástica". Quem os apresentou terá sido Carlos do Carmo, um dia que se cruzaram no Bairro Alto."Ele foi ver uns concertos que eu dava ao domingo à tarde, no teatro da Comuna, e convidei-o a produzir o meu primeiro disco". Antes de partirem para a produção, que viria a ser a primeira colaboração de muitas, "falámos imenso, a visão que ele tinha do fado era muito respeitadora, e isso aplicava-se a tudo o que fazia, sempre preocupado em não desvirtuar a música", disse o fadista, que acrescentou que irá guardar sempre como ensinamentos "a passagem do bom gosto, o aprofundar da palavra e dos textos. E a interpretação, fundamental, para a forma como se transmitem os textos e a música".

No campo pessoal Camané admite ter também uma profunda admiração "pela forma como ele se relacionava com a família, com a mulher e a sua estreita ligação a todas as formas de arte, especialmente o teatro e a literatura".

José Mário Branco nasceu no Porto a 25 de maio de 1942 é unanimemente considerado um dos mais importantes autores da música portuguesa. Homem sempre inconformado com a situação política e social portuguesa, oseu trabalho foi particularmente importante no final do período da ditadura e nos anos seguintes à Revolução de abril de 74, a par de outros grandes músicos como José Afonso, Fausto ou Sérgio Godinho.

Homenagem no Porto e disco em 2018

Na primavera de 2018, o músico tinha lançado o que viria a ser o seu último disco, que reuniu inéditos gravados ao longo da carreira. Popular com a marcha "São João do Porto", erudito com o quarteto instrumental em três andamentos "Fantaisie Languedocienne" , intervencionista com "Mãos ao ar", estudioso do cancioneiro português com cantigas de amigo.O duplo CD "Inéditos 1967-1999" mostrava José Mário Branco em toda a sua dimensão criativa e estética.Um disco que resgatou 26 temas ao vasto espólio do músico, que tinham ficado guardados.

O ano passado acabou por ser o último ano de atividade pública do autor do clássico álbum "FMI". No mês seguinte, regressou à cidade Invicta. Mais de 60 anos depois, José Mário Branco voltou às avenidas do Palácio de Cristal. Desta vez, não para andar nos carrosséis e nos carrinhos ou comer algodão-doce e farturas, como na altura em que o recinto acolhia a feira popular, mas para ser o autor homenageado na edição desse ano da Feira do Livro do Porto.

Terá sido por esse regresso "a um lugar mítico da infância", como admitiu, que o histórico músico abriu uma exceção na sua habitual recusa em marcar presença nas homenagens de que costuma ser alvo. "Em miúdo, quando morava em Leça da Palmeira, na altura um bairro de pescadores pobres, já fazia a avenida toda a salivar sempre que os meus pais me traziam à feira popular", recordou, na cerimónia de atribuição do seu nome a uma tília na avenida principal dos jardins do Palácio. Honrado por fazer parte de uma lista onde constam "vários membros do meu comité central clandestino, como Sophia", comparou o ato de viver à personagem mitológica de Sísifo, condenada a carregar para todo o sempre um penedo pela encosta acima. "Só que, ao contrário do mito grego, a nossa montanha vai crescendo sempre um bocadinho. Não é uma condenação ao inêxito. É antes uma condenação ao futuro", defendeu.

Foi também em 2018 que todo o seu espólio e arquivo passou a estar disponível online, numa iniciativa que reuniu mais de mil documentos, como partituras, cartas, letras de canções, alinhamentos de espetáculos, fotografias, material de trabalho, maquetas.

"Realizar a Mudança"

"Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto, muito mais vivo que morto, contai com isto de mim para cantar e para o resto", dizia o cantor no fecho da interpretação de "FMI", disco de 1982 e que se tornou num dos seus mais célebres registos, um monólogo com cerca de vinte minutos gravado no Teatro Aberto, no qual, acompanhado por guitarra acústica e flauta, recita e canta um texto que compôs "de rajada", numa noite de fevereiro de 1979.

Exilou-se em França, em 1963, depois de perseguido pela PIDE, a polícia política da ditadura, militante comunista que se opôs ao regime ditatorial de Salazar e a uma participação na guerra colonial, e só regressou a Portugal depois da Revolução de Abril. O momento histórico do seu regresso foi acompanhado por centenas de pessoas, que se juntaram aos nomes maiores da música de intervenção, para o receber.

Gravou o seu primeiro disco, o EP "Seis cantigas de amigo", em 1967. Ao longo de uma carreira de cinco décadas, produziu música de vários géneros e para vários artistas portuguese, com Camané, Kátia Guerreiro ou Amélia Muge. Da sua discografia, destacam-se também "Mudam-se os tempos, mundam-se as vontades", lançado no exílio, em 1971, assim como o seguinte, "Margem de Certa Maneira", em 1973. "A cantiga é uma arma" (1976), "A mãe" (1978), "FMI" (1982) , "Ser solid(t)ário" (1982), "A Noite" (1985) ou "Correspondências" (1990). , "José Mário Branco ao Vivo" (1997) são álbuns que surgem nos anos seguintes, a par de outros projetos, da produção à composição. O último álbum de originais, "Resistir é Vencer", data já de 2004,

Com trabalho que se estende também ao cinema, ao teatro e à ação cultural, foi fundador do Grupo de Ação Cultural (GAC), fez parte da companhia de teatro A Comuna, fundou o Teatro do Mundo, a União Portuguesa de Artistas e Variedades.