Cinema

Morreu o ator francês Michel Piccoli

Morreu o ator francês Michel Piccoli

O ator francês Michel Piccoli, protagonista, entre outros, de "Vou para casa", de Manoel de Oliveira, morreu na semana passada, aos 94 anos, avançou hoje a Agência France Presse (AFP).

Podia haver atores tão bons como Michel Piccoli, mas seguramente nenhum maior do que ele. Era um daqueles monstros da arte de representar que, mesmo parecendo sempre igual a si próprio, era capaz de encarnar todo o tipo de personagens, o que fez, para além do teatro e na televisão, em mais de duas centenas de filmes, numa carreira iniciada ainda em finas da década de 1940. Morreu nos braços da mulher, revelou a família.

Piccoli era também um dos franceses mais portugueses. Fez quatro filmes com Manoel de Oliveira. "Party" foi rodado nos Açores, e contracena com Irene Papas e Leonor Silveira. Em "Vou Para Casa", representa um ator que a meio de uma cena decide que a sua carreira terminou e tem a seu lado, Catherine Deneuve e John Malkovich, Leonor Baldaque e Leonor Silveira.

Nesta fase em que Manoel de Oliveira teve acesso a grandes atores internacionais, Piccoli seria ainda o Professor Heschel de "Espelho Mágico", dizendo palavras de Agustina Bessa-Luis e integrando um elenco de enorme prestígio onde se incluíam nomes como os de Marisa Paredes e Lima Duarte, e retomaria, quarenta anos depois, a personagem de Henri Husson, criada por Luis Buñuel no clássico "Belle de Jour", para a variação oliveiriana de "Belle Toujours", com Catherine Deneuve, que se recusou gentilmente a fazer o filme, a ser substituída por Bulle Ogier.

Paulo Branco, que produziu alguns destes Oliveiras, produziu ainda outros filmes em que o ator representou, como dois títulos de Raoul Ruiz, e uma das últimas aparições de Piccoli, "As Linhas de Wellington", dirigido após a morte do realizador chileno pela viúva, Valeria Sarmiento.

Já numa fase muito avançada da sua vida, Piccoli quis ser realizador. E dirigiu três filmes bem à sua imagem: simples, de enorme doçura e mostrando uma tremenda paixão pela vida e pelas suas personagens. E foi o português Paulo Branco que teve a audácia de produzir esses três filmes: "E Então", "La Plage Noire" e "Cést Pas Tout à Fait la Vie dont j"Avais Révê".

Na hora da sua morte, Paulo Branco recorda assim Michel Piccoli: "É com imensa tristeza que lamento a morte de Michel Piccoli, esse "monstro" do cinema, esse ator único. Acima de tudo, partiu um grande amigo. Uma pessoa com quem partilhei a amizade, algumas discussões, muitos risos e uma grande doçura, durante muito tempo. Vai fazer muita falta. Posso dizer que me orgulho de ter sido o produtor dos três filmes que fez como realizador, e assim ter-lhe dado a possibilidade de mostrar também o seu génio como diretor de cinema."

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Faltariam palavras para descrever todo o génio de Piccoli. Talvez enumerando cinco das inúmeras obras-primas para que contribuiu com o seu talento: "O Desprezo", de Godard, tão apaixonado como nós por Birgitte Bardot; "As Donzelas de Rochefort", de Jacques Demy, cantado e encantado pelas irmãs Catherine Deneuve e Françoise Dorléac; "O Charme Discreto da Burguesia", um dos manifestos mais surreais de Buñuel; "Os Inseparáveis", de Sautet, inseparável de Yves Montand e Serge Reggiani,;ou "A Grande Farra", de Ferreri, comendo e saciando os seus desejos até morrer, na companhia de Mastroianni, Noiret, Tognazzi e Andréa Ferreol.

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