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Morreu o escritor Christopher Hitchens

Morreu o escritor Christopher Hitchens

O controverso jornalista e escritor britânico Christopher Hitchens, considerado um dos mais importantes representantes do novo ateísmo, morreu quinta-feira, aos 62 anos, num hospital do Texas, após uma batalha de 18 meses contra um cancro no esófago.

A doença foi-lhe diagnosticada em Junho de 2010, pouco depois de publicar as suas memórias, intituladas "Hitch-22", e sucumbiu agora a uma pneumonia, no Anderson Cancer Center em Houston, noticiou a "Vanity Fair".

Hitchens iniciou a carreira em Londres, mas mudou-se para os Estados Unidos em 1981, obtendo grande êxito devido à sua prosa elegante e opiniões radicais, acompanhadas de uma atitude provocadora, oscilando os seus alvos entre Deus e a madre Teresa de Calcutá e Henry Kissinger, por exemplo.

A revista norte-americana, de que o escritor era colaborador há 19 anos, descreveu-o como "um crítico incomparável, um mestre da retórica, um espírito sagaz, e um intrépido 'bon vivant'".

"No fim, Hitchens era mais engajado, implacável, hilariante, observador e inteligente do que quase toda a gente, tal como fora nas últimas quatro décadas", indicou a Vanity Fair.

Em "Hitch-22", o escritor documentou uma carreira prolífica em que se tornou conhecido por fumar e beber excessivamente, produzindo, em simultâneo, numerosos artigos e livros.

Salman Rushdie, que Hitchens apoiou quando o Ayatollah Khomeini emitiu uma "fatwa" contra ele, condenando-o à morte por alegados insultos ao Islão no seu romance "Versículos Satânicos", prestou-lhe homenagem no Twitter.

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"Adeus, meu querido amigo. Cala-se uma grande voz. Detém-se um grande coração", escreveu.

Graydon Carter, que contratou Hitchens depois de se tornar director da Vanity Fair, em 1992, caracterizou-o como "um homem de apetites insaciáveis - por cigarros, por scotch, pela grande escrita e, acima de tudo, pela conversa".

Um orador e um filósofo controverso e destemido, Christopher Hitchens sempre expressou publicamente os seus pontos de vista, por mais radicais que fossem, sobre a religião, os políticos e o estado da governação no mundo.

Frequentemente apontado como um dos quatro "Cavaleiros do Apocalipse", sendo os restantes três os ateus Richard Dawkins, Sam Harris e Daniel Dennett, Hitchens assumiu-se como um crente nos valores filosóficos do Iluminismo que considerava que a liberdade de expressão e a investigação científica deveriam substituir-se à religião como forma de ensinar a ética e definir a humanidade.

As redes sociais encheram-se de comentários sobre o autor. O biólogo evolucionista Richard Dawkins saudou Hitchens como "uma grande voz contra a hipocrisia, o obscurantismo e a pretensão, contra todos os tiranos, incluindo Deus".

"Adeus, grande guerreiro. Estavas numa toca de raposa, Hitch, e não vacilaste", escreveu Dawkins.

Hitchens, que estudou em Oxford e começou como crítico literário, afirmou-se como repórter de guerra, conquistando a reputação de homem inteligente e com apurado sentido crítico, que não hesitava em dirigir duras críticas a figuras públicas sem medo das consequências, e esteve em Portugal em 1975 a fazer a cobertura do período pós-revolução.

Nos últimos 12 meses de vida, Hitchens escreveu sobre as agitadas relações entre os Estados Unidos e o Paquistão e o futuro da democracia no Egipto, a seguir à Primavera Árabe.

Ao longo de uma carreira em que escreveu 25 livros, confrontou-se muitas vezes com aqueles que tinha atacado.

Em "O Julgamento de Henry Kissinger", apontou o secretário de Estado do Presidente Richard Nixon como um criminoso de guerra pelo que considerou serem políticas assassinas no Vietname, Chile e Bangladesh.

Hitchens atacou também o Presidente Bill Clinton num livro intitulado "No One Left To Lie To: The Values of the Worst Family", e defendeu a sua causa contra a religião em "Deus Não É Grande", publicado em Portugal pela Dom Quixote, em 2009.

Apesar de ter acabado a vida na direita política, começou na esquerda, trabalhando para a revista da Internacional Socialista e, mais tarde, para a New Statesman, onde se opôs ferozmente à guerra do Vietname.

Mas após os atentados do 11 de Setembro de 2001, nos Estados Unidos, abraçou uma política externa intervencionista e apoiou a guerra no Iraque, tendo condenado aquilo a que chamou "fascismo de aparência islâmica".

Deixou mulher, a escritora norte-americana Carol Blue, e três filhos.

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