Entrevista

"Não esperava encontrar memórias tão escuras"

"Não esperava encontrar memórias tão escuras"

Os anos de estudo passados por Cristina Almeida Serôdio no Instituto de Odivelas inspiraram-na para a escrita do seu novo romance, "O colégio". Um exercício de memória que a ajudou a arrumar o passado, diz a autora ao JN.

Não foi exatamente um acerto de contas com o passado, mas a escrita de "O colégio" ajudou Cristina Almeida Serôdio a lidar melhor com um tempo cujas marcas insistiam em chegar até ao presente. Para aproximar-se o mais possível dos anos passado num colégio interno onde a rigidez extrema do sistema encontrava a antítese perfeita na amizade entre as colegas, a autora de "A casa das tias" socorreu-se tanto de diários e notas como dos testemunhos de amigas. "A memória que tenho mudou depois de ter escrito o livro. Sinto que resolvi esta questão com que me debatia. Tornou-se menos penoso. É uma coisa em que não vou pensar mais", afiança.

No início do livro pergunta-se se valeria a pena voltar a pena recordar esses anos no Colégio de Odivelas e reabrir feridas esquecidas. Valeu a pena?
Com o livro, a minha memória tornou-se muito mais real, embora não seja apenas memória porque também há o lado da construção. Ficou mais cálido, mais tépido. Não fazia era ideia que ia encontrar uma memória tão escura.

Foi como se estivesse a escavar as próprias memórias.
Foi um exercício estranho, sim. Tive que me lembrar e procurar muitas coisas.

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Escondeu essas memórias bem lá no fundo?
Acho que deixei de pensar nisso. Claro que na altura sofri. Era muito pequena e não pude estar em casa com os meus pais. Fui-me habituando.

O ato da escrita foi doloroso?
Só em alguns casos. Tive uma certa compaixão de mim por ter passado por essas experiências muito difíceis.

Devolvo-lhe uma pergunta que coloca no início: de que valerá a memória e a escrita que a eterniza, para o bem e para o mal?
Continuo com a dúvida. Às vezes pensamos porquê. Hoje existe um conceito de que as pessoas devem estar alegres e evitar zonas sombrias.

Mesmo que seja uma falsa exibição de felicidade.
Sim, mas tinha essa dúvida, que resolvi revisitando essas experiências muito antigas.

Esse é o papel que atribui à escrita?
É o da fixação. N' "A Casa das Tias", tratava-se de fixar as memórias de uma casa, de figuras de que me tinham falado desde pequena, de papéis que fui encontrar numa casa vazia que ficou para mim e para os meus irmãos numa herança.

Há óbvios pontos de contacto entre um e outro, apesar de seguirem rumos diferentes.
É a ideia de ir descer até um lugar que parece desagradável mas que é importante visitar para ir reconstruindo o passado. Acho que esse é um dos fins da literatura.

Embora "O colégio" seja um romance, qualquer semelhança com a realidade é mais do que mera coincidência?
Há muitas semelhanças. Mas nem todas as histórias que são contadas se passaram diretamente comigo. Ouvi muitas pessoas...

Como fez com os nomes?

Mudei-os. Fixei personagens que englobavam mais do que uma pessoa. Há um lado de fantasia, de construção. Por isso é que se fala em histórias e não apenas memórias.

Apesar de ser a autora, tem dificuldades em compreender onde acaba a memória e começa a história?
Sim, é a criação de personagens que depois se colam muito a mim e à memória que tenho desse tempo.

Sabemos que a memória é sempre uma construção, mas pretendeu aproximar-se o mais possível da recordação em estado puro?
Sim. Como esses episódios se passaram há muitos anos, socorri-me dos cadernos e das agendas que fui guardando. Mas também documentos do instituto, cartas dos meus pais. Foi isso que me deu a factualidade.

Sem esses documentos não teria conseguido escrever o livro?
Não. Caso contrário, a memória seria muito muito ficcional. Também me socorri das memórias de antigas alunas, do meu ano ou não.

Manteve contactos pela vida fora com elas?
Algumas continuaram a ser as minhas melhores amigas. Foram muito interrogadas... Havia sempre alguém que se lembrava de um determinado ritual do colégio e usei muito a memória delas para não estar a construir uma coisa muito afastada da vivência desse tempo.

Quando guardou esses documentos já tinha em mente vir a escrever um dia sobre o colégio?
Acho que não, mas guardei-os e serviram para me dar uma imagem mais certa do colégio.

Como chegou à estrutura dos capítulos curtos?
É assim que consigo escrever. Já no primeiro, também foi assim. Consigo escrever qualquer coisa desde que tenha um fôlego breve. Escrevo sempre o que me apetece.

A sua escrita perderia bastante se o registo não fosse esse?
Sentia que era a forma em que conseguiria escrever. Nem sabia se teria textos suficientes para construir o livro. A arrumação foi a parte mais complicada.

Gosta da ideia de o livro ser lido sem ordem cronológica?
Ela impede o funcionamento das coisas. Essa ordem serviu para mim e, numa perspetiva egoísta, estava mais interessada em mim, em saber do que seria capaz de escrever, do que na forma em que iria ser lido. Creio que, num romance com uma estrutura linear, seria impossível fazê-lo.

Escrever o livro ajudou-a olhar para o passado de uma outra maneira?
Pelas reações dos leitores, eles ficam mais assustados do que eu. Ficam mais tristes do que eu fiquei. Provavelmente houve algum exagero meu para criar alguma emoção. A memória que tenho mudou depois de ter escrito o livro. Sinto que resolvi esta questão com que me debatia. Tornou-se menos penoso. É uma coisa em que não vou pensar mais.

Teve que esperar pelo tempo certo para escrever este livro?
Sinto que não poderia ter escrito o livro enquanto os meus pais estivessem vivos. Mesmo que lhes dissesse que era era ficção. Houve uma espera, mas o livro também apareceu como uma urgência, uma necessidade.

É preciso o distanciamento devido para analisarmos o passado?
Para que ele possa ser entendido, sim. Uma proximidade muito grande não permite o olhar com essa lucidez ou distância.

Apesar das dificuldades da experiência, a narradora nem sequer hesita quando, no final, lhe perguntam se quer continuar no colégio. Houve um crescimento interior enorme durante esse período?
As amizades criadas tiveram um papel importante. A intimidade que poderíamos ter com a nossa família, sobretudo irmãos e pais, é transferida para as amigas do colégio. Essa rede torna-se muito forte, ao ponto até de prender-me e impedir-me de sair, o que não sei se foi bom. Acho que devia ter saído, porque a vida pedia-me uma experiência diversa da que tive.

A rigidez do sistema criava laços especiais de união entre as alunas?
Eram laços de resistência. Como sentíamos que havia coisas contra nós em conjunto, reagíamos em grupo. Éramos muito unidas. Ainda hoje, se precisar de ajuda a sério, sinto que a tenho, mesmo que não conviva todos os dias com essas pessoas.

Pelo seu conhecimento, o regime atual de internato mantém essas características?
A partir do 25 de Abril tornou-se muito menos feroz. Conheço pessoas que passaram pelo colégio uns anos depois de lá ter estado e escrevem-me a dizer que foram felizes lá e a experiência não foi tão dura assim. Aceito que possa ter acontecido.

Por ironia do destino, a sua vida profissional levou-a a estar do lado oposto ao ponto de vista a partir do qual narra o livro. Essa coincidência levou-a a prestar especial atenção ao que significa ser aluno?
Tento sempre não me esquecer de que também já fui aluna. Tenho a preocupação de lidar com os alunos de forma pedagógica ou didática.

A opção pelo ensino teve alguma coisa que ver com o impacto tão grande que a rigidez do sistema de ensino teve em si, para melhor e para pior?
Fui para o ensino porque tive uma professora extraordinária no colégio. Tinha uma forma rigorosa de estar nas aulas, mas ensinava-nos literatura de uma forma sedutora. Foi por ela que quis ser professora de Português.

No deve e haver entre o ensino de outrora e o atual, para onde acha que pesam mais os pratos da balança?
São situações incomparáveis. Não pode haver situações tão rígidas como existam, mas também não pode acontecer o oposto. Tenho alunos do 12º ano de escolaridade e sei que enfrentam condições muito exigentes.

Há uma grande pressão psicológica.
Sentem-se frágeis com a obrigação das boas notas. O que está a acontecer é que já não há alunos médios. Há alunos que se esforçam demasiado...

E não basta ter 18 valores.
Há algo de muito perturbador no sistema atual de ensino. Acho que tem que ver com as limitações na entrada das faculdades..

A literatura tem estado omnipresente na sua vida, do ponto de vista profissional e não só, mas publicou pela primeira vez há apenas quatro anos. O que a fez por fim decidir-se pela publicação?
Comecei a escrever o meu primeiro livro muito antes de sair, mas ainda não sabia o que iria ser. Não foi fácil editá-lo, mas, quando saiu, teve críticas muito boas. Houve muita gente a dizer que tinha gostado e isso deu-me vontade de prosseguir.

É-lhe fácil encontrar a sua filiação literária, com que autores mais se identifica e quais os que mais a influenciaram?
Gosto muito de ler poesia. E também dos clássicos que tenho que ensinar. Gosto sobretudo da escrita mais convencional e regrada.

Imune às modas.
Um pouco conservadora nessa forma de escrever. Sempre tive essa ideia de escrever usando práticas tradicionais, podendo ser original dentro dessa convencionalidade.

Acredita que esse é o traço mais forte da sua escrita?
Acho que sim. Gosto de uma escrita que associamos aos autores mais antigos, mas cujas características vamos vendo cada vez mais.

Tal como "A Casa das Tias", há uma tentativa de chegar a respostas através do exercício da escrita?
É uma inquietude que é anterior à própria escrita.

Nos dois livros que publicou, há uma forte aproximação a terrenos familiares. Foi uma forma de pisar terrenos mais seguros numa estreia literária?
Sempre tive desejo de escrever, só que achava que o máximo a que podia aspirar era ser uma escritora boazinha. E eu queria ser uma boa escritora. Quando entrei na Faculdade de Letras comecei a ler escritores tão extraordinários que tive medo. Eram tão bons que só me davam vontade de admirá-los e de nem sequer aproximar-me deles.

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