Literatura

"Não mudámos quase nada ao longo do tempo"

"Não mudámos quase nada ao longo do tempo"

Investigador Joaquim Fernandes aborda no livro "Apocalipses" os vários fins do Mundo da nossa História.

Uma vida inteira dedicada ao estudo e à investigação "dos mitos culturais que perduram e enquadram a mentalidade geral dos povos", como escreve Miguel Real no prefácio, não foi suficiente para impedir o espanto de Joaquim Fernandes durante a pesquisa que deu origem ao seu novo livro, "Apocalipses, os vários fins do Mundo da História de Portugal".

Afinal, nos quase nove séculos decorridos desde a fundação do país os fenómenos extraordinários sempre foram tudo menos isso, tamanha a sua recorrência. A lista de eventos (de origem interna ou externa) que têm causado agitação popular é quase infindável, mas inclui forçosamente fenómenos como eclipses solares, auroras boreais, dilúvios, secas, pestes, cometas, pragas ou epidemias.

Apesar da longa distância temporal que já nos separa de alguns episódios descritos no livro, o historiador acredita que continuamos a reagir da mesma maneira perante o desconhecido. "Não mudámos nada ao longo dos tempos", assume o cofundador do Centro Transdisciplinar de Estudos da Consciência da Universidade Fernando Pessoa, convicto de que "acumulamos as certezas tecnológicas e científicas, mas fica sempre de fora o rastilho da emoção, o sentimento de repulsa perante o que se desconhece".

O desconhecido, esse, "seja um marciano ou um vírus microscópico", é sempre uma ameaça, garante. Para demonstrar a sua certeza, Joaquim Fernandes dá como exemplo a atual pandemia, marcada por várias reações de descontrolo das massas. "Já conhecíamos os coronavírus há muito, mas no espírito da sociedade isso não fez grande diferença".

Sebastianistas a 100%

Desde o século XII, Portugal teve o seu quinhão de fenómenos naturais destruidores, fossem sismos ou dilúvios, a que o livro faz amplas referências. Todavia, a maior parte dos episódios narrados diz respeito a teses apocalípticas que, não raro, geraram reações de pânico junto das massas.

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Essas "fake news de outras eras", como as apelida o autor de "Portugal insólito", sempre circularam livremente entre a população, que viam cada passagem de um cometa ou até de um simples eclipse solar como a aproximação do fim dos tempos ou mesmo uma punição divina.

"Como povo, somos muito sensíveis a qualquer anúncio catastrofista, o que só vem confirmar a versão sebastianista do nosso messianismo", defende o investigador portuense, que interpreta essa idiossincrasia lusitana como "um desequilíbrio entre o emocional e o racional".

Eclipse do sol

O pânico gerado pelo eclipse solar de 29 de maio de 1900 ficou para a História. Segundo o jornal "Voz Pública", no momento em que a lua escondeu o sol, a população do Porto entrou em delírio. "As mulheres, de mãos agarradas à cabeça, choravam doidamente. Diziam que era sinal do próximo fim do Mundo".

Profecias

As profecias sempre fizeram parte do imaginário popular. Um dos períodos mais férteis para a sua proliferação aconteceu na I Guerra Mundial. Os jornais desse tempo encheram-se das mais conspícuas teses apocalípticas, que tanto anunciavam o fim do Mundo como a chegada do Anticristo. N" "A Capital" desenterraram-se as profecias do popular Bandarra, assegurando que o vidente antecipou acontecimentos fulcrais da História, da Restauração de 1640 às invasões napoleónicas.

Invasão marciana

Poucos sabem que o célebre programa radiofónico de Orson Welles, que se inspirava na "Guerra dos mundos", de H. G. Wells, para dar conta de uma invasão de seres do espaço, teve uma réplica portuguesa. O seu autor foi Matos Maia, radialista da Renascença que provocou tumultos em várias localidades ao anunciar a chegada de marcianos.

Peste bubónica de 1899 "semelhante à crise atual"

Em 1899, um surto de peste bubónica tornou o Porto uma cidade sitiada. Por indicação do médico Ricardo Jorge, as autoridades mantiveram a cidade cercada durante mais de quatro meses, gerando um sentimento de revolta junto da população.

Das largas dezenas de episódios apocalípticos de que fala no livro, o investigador Joaquim Fernandes não hesita em comparar a crise sanitária de 1899 como "a mais parecida" com a situação pandémica atual. "Há muitas analogias entre as duas épocas. A começar pelo debate aceso entre os defensores do primado da economia sobre a saúde e os que defendiam o contrário. Os movimentos antivacinas também começaram a florescer no final do século XIX e chegaram até ao presente", explica.

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