O Jogo ao Vivo

Ao vivo

Nenhum concerto é mau em Vilar de Mouros: há um brilho que os salva a todos

Nenhum concerto é mau em Vilar de Mouros: há um brilho que os salva a todos

A segunda noite foi de diversidade: da pastoral ao punk, do rap metal à pop melódica. Clawfinger, Simple Minds ou Tara Perdida beneficiaram todos do ambiente único do festival

Há uma certa pátina nos concertos de Vilar de Mouros. Mesmo em espetáculos desastrosos, como a célebre "bruta figura" de Shaun Ryder e os Happy Mondays em 2016, sobra sempre algum charme, algo que impede que na memória fique apenas a mancha de um concerto falhado.

Talvez porque tudo é pátina no festival do Alto Minho: as bandas convocadas, o público maduro e generoso, e o próprio local, que irradia a sépia dos anos 1970 e 1980 - época em que os festivais de massas, em Portugal, tinham apenas uma morada: esta mesma aldeia onde ontem soaram mais cinco espetáculos. Tiveram brilhos diferentes, mas todos cabem na galeria de retratos de família de Vilar de Mouros.

PUB

Começando pelos primos chonés, que fizeram "400 quilómetros, carvalho!" desde Lisboa para marcar a presença do punk português no festival (na verdade, é mais hardcore e speed metal). E se houve banda com "grupo de sócios organizados" foram os Tara Perdida, que a cada intervalo entre temas ouviam o seu nome ser berrado em compasso. Provocaram clareiras de dança selvática com as faixas mais abrutalhadas (que foram quase todas), mas conseguiram destruir os bairrismos nacionais com o belíssimo "Lisboa" (que na sua versão canónica tem a participação de Tim dos Xutos & Pontapés), colocando o povo de Norte a Sul a entoar "Lisboa, és só tu e eu". Honestos, abrasivos, desbragados, fecharam o último espetáculo da noite lembrando o seu líder histórico, João Ribas (1965-2014), agora substituído na voz por Tiago Afonso.

Um pouco antes, atuara o tio simpático, Jim Kerr, vocalista dos Simple Minds. Há fãs que defendem com a vida que a prestação foi fantástica, não seriam fãs se não o achassem. Mas a um olhar mais distanciado não poderá escapar a fragilidade da voz do escocês, assumida aliás pelo próprio, que confessou ir cantar "com o coração". A aclamação geral viria apenas com os hits mais célebres, já no encore - "Don"t you (forget about me)" e "Alive and Kicking" - mas o espetáculo teve um suplemento feminino que o salvou: a bateria de Cherisse Osei e o amparo vocal de Sarah Brown. A pátina de Vilar de Mouros resolveu o resto.

Os primos sombrios apresentaram o número anterior. E aquelas faixas de "B.R.M.C." (2001), álbum de estreia dos Black Rebel Motorcycle Club, tanto como as mais recentes de "Wrong creatures" (2018), parecem todas cozinhadas no metro e escutadas cá em cima, na rua, através de respiradouros. Não dão inicialmente confiança, os dois primos, Peter Hayes e Robert Levon Been; mantêm-se fechados nas suas carapaças, um pouco alheios ao que se passa à volta. Mas quando abrem a boca revelam a faceta emocional e vulnerável que também se desprende das suas músicas: "Já tocámos em quase todo o território deste país, que é deslumbrante. Enchemo-nos de felicidade sempre que cá vimos."

Os tios javardolas apanharam o crepúsculo e início de noite em Vilar de Mouros, e ofereceram o espetáculo mais retumbante do dia. E não é preciso ser fã de Clawfinger e de rap metal para reconhecer a vitalidade e entrega dos suecos. Irrepreensíveis na integridade da sua proposta - que é veloz, visceral e contundente -, explosivos na performance, e empáticos até à medula, nesse registo que convida à cumplicidade no meio do caos e da desbunda.

Finalmente, os primos do campo, "tree hugers", que animaram a primeira hora da segunda jornada do festival com a sua pop pastoral. Chamam-se Non Talkers e são metade portugueses (Marco), metade belgas (Evita) e residem em Viana do Castelo. Foram também tocados por aquela pátina.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG