Teatro

Ninguém faz farinha com as Contilheiras

Ninguém faz farinha com as Contilheiras

São figuras populares recriadas pelo teatro. Vivem da expressividade da língua e defendem as mulheres. "Contilhices" está em cena até este sábado no Lugar, no Porto

Atrevidas, desbocadas, genuínas. São as "contilheiras", quatro figuras que emergem do imaginário popular para transmitir a riqueza expressiva do português (incluindo a sua dimensão vernacular e chocarreira) e para reclamar, de mão bem pregada na anca, a condição emancipada da mulher. Estarão em cena até este sábado no Lugar, espaço do Teatro da Palmilha Dentada, Travessa das Águas, no Porto.

Na origem das contilheiras está o projeto "Pimenta na boca", desenhado pelas quatro intérpretes (Linda Rodrigues, Joana Teixeira, Ni Fernandes e Patrícia Queirós) no contexto do Festival Varandas, de 2017, que acolhia, numa série de varandas do Porto, pequenos espetáculos musicais e teatrais. "À época baseámos o espetáculo numa recolha de poesia popular portuguesa de tom satírico e jocoso, do Bocage ao António Aleixo", diz Linda Rodrigues, que é também responsável pelo texto e encenação de "Contilhices". Dessa experiência evoluíram para a atual proposta, que aprofunda o interesse pela linguagem popular, cruzando "um levantamento de expressões, provérbios e cantilenas do interior do país com autores eruditos que faziam uso desse material nas suas obras, como Jorge de Sena ou Natália Correia", diz Linda.

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Sobre o que é exatamente uma "contilheira", e em que se distingue da figura mais conhecida da "coscuvilheira", a encenadora explica que, além desse mesmo papel de "contar as histórias dos outros, a contilheira, personagem ainda presente sobretudo no Alto Minho e na Galiza, tem o hábito de o fazer cantando e usando rimas." Uma coscuvilhice cantada, que interpela o espectador com uma infinidade de sinónimos para as partes pudendas do homem e da mulher e que vai desmontando estereótipos sobre o feminino: "Diz-se que o menino quando passa a homem já pode sair à noite, mas, quando a menina passa a mulher, dizem-lhe para ter cuidado", ilustra Linda.

Há também uma recuperação da "portugalidade", nos trajes e em instrumentos musicais como o adufe, mas é tudo tingido pelo teatro. O ambiente é familiar, mas estilizado.

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