Reportagem

No Open House Porto 2021, os tesouros descobrem-se ao ar livre

No Open House Porto 2021, os tesouros descobrem-se ao ar livre

"Espaços para respirar" é o mote da sexta edição do Open House Porto, organizado pela Casa da Arquitectura, que permite visitar, até domingo, 16 espaços públicos nas cidades do Porto, Matosinhos, Vila Nova de Gaia e, pela primeira vez, Maia. As visitas comentadas esgotaram, mas ainda assim poderá visitar os locais e assistir a performances.

Na entrada nascente do Parque da Cidade, no Porto, ainda antes das 10 horas, a concorrência era muita: grupos de crianças que se encontravam para festas de aniversário, sob o olhar atento dos vendedores de balões e guloseimas. Um grupo de jovens com coroas de flores que desfilava atrás de um pomposo piquenique para uma despedida de solteiro e uma prova de orientação competitiva, com atletas irritados com as restantes pessoas no Parque, contrastando com a serenidade dos grupos que praticavam ioga ou artes marciais. Outro ajuntamento ligeiramente mais pequeno foi o que se reuniu para ouvir a arquiteta paisagista e docente da Universidade do Porto, Cláudia Fernandes, falar sobre o Parque da Cidade.

Ao longo do percurso, a especialista ia questionando o grupo sobre o que lhes parecia natural e artificial no Parque da Cidade. João Silva, economista do Porto, é um conhecedor da obra do arquiteto Sidónio Pardal, autor do projeto do Parque da Cidade, e encetou conversa com outros conhecedores, como Filomena Santos, professora de Ciências de São João da Madeira, terra natal de Sidónio Pardal. As considerações estenderam-se ao Parque Urbano do rio Ul, em São João da Madeira, ao Parque da Cidade da Póvoa de Varzim, ao Parque Oriental da Cidade do Porto e ao Parque Urbano de Ovar, todos da autoria de Pardal. "O Parque Oriental é dos que gosto menos", diz Maria Sampaio, que entretanto se juntou à conversa. "Mas esse ainda está na primeira fase. E um parque é sempre inacabado", remata Cláudia Fernandes. Os visitantes também evocam a pressão imobiliária que o parque sofreu, sem nunca perder o seu propósito, que começou a ser pensado nos anos 50 do século passado.

Os visitantes mais jovens estão encantados com a ideia de que antes dos 80 hectares construídos na década de 1990, ali existia "uma lixeira a céu aberto, um bosque e esgotos a céu aberto de três ribeiras: Aldoar, Boavista e Ramalde". Um dos fatores para que a arquiteta Cláudia Fernandes alerta é o de se estar sempre a lidar com natureza viva. Para preservar a vista, é necessário respeitar não só os ciclos de vida da flora, mas também da fauna, especialmente os calendários de nidificação e a preservação de insetos polinizadores e micromamíferos como ouriços-cacheiros.

Quinta da Gruta, Maia

Na Quinta da Gruta, na Maia, um dos locais que se junta pela primeira vez ao Open House Porto, o anfitrião é o arquiteto Alberto Vieira, que explica com bastante detalhe a métrica e a sistematização daquele espaço, um projeto do arquiteto João Álvaro Rocha num local onde antes existia "uma casa, um campo de produção agrícola e uma fabriqueta de família". A sobreposição do antigo com o novo é o que mais curiosidade desperta nos visitantes. Isabel e Francisco Corte, Jacinta Araújo e Marina Gomes formam um grupo de assíduos da iniciativa. "Costumamos vir, este já é o quarto ano. Não trabalhamos com arquitetura mas temos muita curiosidade e fazer as visitas permite que possamos entender detalhes que nos passariam ao lado, como as questões da métrica", explica o animado grupo.

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Também o casal Raquel e Carlos, do Porto dizem ao JN que são "grandes curiosos das questões da arquitetura, ainda que não trabalhemos na área". Na Quinta da Gruta, durante a visita matinal, estava também a decorrer uma performance "site specific" da primeira edição do FOCAR, Formação Orientada em Coreografia para Arquitetura, promovida pela Companhia Instável - Centro Coreográfico, conseguindo lançar além das visitas outros pontos de interesse para a mostra.

Quinta das Devesas, Vila Nova de Gaia

O espaço da Quinta das Devesas tem uma imagem graças ao palacete em ruínas, que é o seu cartão de visita. "Isto é o que suscita mais curiosidade aos visitantes", conta ao JN Henrique Nepomuceno Alves, biólogo e diretor do Parque Biológico de Gaia, o mestre-de-cerimónias desta etapa do Open House Porto. E com grande desenvoltura vai explicando aos visitantes o que aconteceu com os três filhos do Conde das Devesas, e como a mansão ficou desabitada há 50 anos, com grande parte do terreno doado à Santa Casa da Misericórdia, restando 21 mil metros quadrados que estão "desde 2012 sob a alçada do município". Mas é nas suas explicações sobre a flora, na maioria camélias e magnólias, e nos respetivos nomes científicos, que consegue maravilhar os visitantes, desde crianças a avós. E como numa aventura, conta as histórias de complicados vilões, como a traça do buxo, que lhes comeu as sebes de um dia para o outro. Ou da sua grande inimiga a cortaderia, aproveitando para falar do projeto ibérico "Life Stop Cortaderia", em que está envolvido, que procura travar esta planta invasora: inicialmente inofensiva, veio da Argentina com fins decorativos, mas crê-se que durante a Guerra Civil de Espanha, com a importação de trigo, tenham vindo outras sementes da cortaderia que a tornam um perigo para as restantes espécies.

Na visita voltamos a encontrar o economista João Silva, acompanhado da mulher Alice Machado. Para este sábado conseguiram "quatro visitas, mas não conseguimos a Piscina das Marés, que esgotou em três minutos". Outro dos momentos que destacaram da programação deste sábado foi as duas récitas de Pedro Burmester na Quinta dos Cónegos, na Maia.

Apesar de uma das mais-valias da iniciativa ser os 35 especialistas que mostram os lugares, as visitas podem ser feitas de forma livre ao longo deste fim de semana. Basta consultar os 16 espaços na página da Casa da Arquitectura.

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