Teatro

No Teatro Carlos Alberto há um mapa sonoro para o teatro de Tchékhov

No Teatro Carlos Alberto há um mapa sonoro para o teatro de Tchékhov

Encenação de Carlos Pimenta de "As três irmãs" sobe ao palco no Porto. Uma peça sobre um desejo de futuro baseado na experiência feliz do passado.

Os sons que se libertam da escrita de Tchékhov serviram de hipótese dramatúrgica a Carlos Pimenta, que coloca o elenco da Ensemble - Sociedade de Actores no interior
de um estúdio de rádio, onde decorre a gravação de "As três irmãs", peça estreada em Moscovo há 120 anos.

Rumores do bosque, carruagens e comboios, sons de festa, arrastar de móveis e disparos são mapas sonoros da escrita do dramaturgo, tanto no teatro como nos contos, e servem de guia ao espectador na montagem que se pode ver no palco do Teatro Carlos Alberto, no Porto.

O enfoque no som é reforçado pelo dispositivo cénico, que evoca as estratégias da peça radiofónica e a sua capacidade de gerar, segundo o historiador Patrice Pavis, uma "alucinação no ouvinte que terá, ao mesmo tempo, a sensação de nada ver e de ver, com os "olhos da alma", a cena representada noutro lugar". O mais fragoroso exemplo
dessa "alucinação" talvez tenha sido o pânico criado pela adaptação de Orson Welles de "A guerra dos mundos" de H.G. Wells, que foi emitida pela Rádio CBS em 1938.

Mas se a peça radiofónica se define pela subtração do visível (da "opsis"), a proposta atualmente em cena materializa tudo o que se esconde por trás das ondas hertzianas. Atores como Emília Silvestre, Isabel Queirós, Margarida Carvalho, Jorge Mota ou António Afonso Parra dão corpo aos que gravam as vozes das personagens de "As três irmãs",
peça sobre um desejo de futuro baseado na experiência feliz do passado. Macha, Irina e Olga anseiam por Moscovo - "Não há nada no mundo melhor que Moscovo" - enquanto vagueiam pela província entre cansaços, adiamentos e conflitos familiares.

DE OLHOS BEM FECHADOS
O que traz toda esta opção à leitura de Tchékhov? "Acentua a oralidade do texto e convida o espectador a construir as suas imagens, é uma peça que pode ser vista de olhos fechados", diz Carlos Pimenta, que relaciona a vitalidade da palavra e dos sons com a atual situação de pandemia: "Com o uso das máscaras tornou-se mais importante
aquilo que ouvimos, pois a expressão facial desaparece. E houve também uma conquista de silêncio e desaceleração. Veja-se os aviões: notamos a sua ausência pelo silêncio".

Talvez seja um bom momento para voltar a Tchékhov, porque é "o artista indispensável da vida não vivida", como observou Harold Bloom. Em peças como "As três irmãs", o
autor coloca as personagens num agora que é essencialmente espaço de reflexão sobre um passado idealizado ou de projeção de um futuro utópico. O que baralhou o texto dramático da sua época, ainda filiado às unidades de inspiração aristotélica, e parece tão apropriado às circunstâncias presentes.

PUB

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG