Música

Noite de devoção religiosa em Paredes de Coura

Noite de devoção religiosa em Paredes de Coura

Spiritualized e Father John Misty guiaram os seus fiéis na terceira noite do festival minhoto.

Depois de abundantes doses de psicadelismo e experiências sónicas, servidas ao final da tarde por Jonathan Wilson (que se move entre as baladas e o improviso mais radical) e Black Midi (campeões da distorção e do "noise" que se revelaram uma das grandes surpresas do festival), o terceiro dia de Paredes de Coura encaminhou-se para os espetáculos mais aguardados pelas massas - Spiritualized e Father John Misty.

Antes da banda de Jason Pierce, escutou-se ainda o rock saturado e atmosférico dos Deerhunter, que terão logrado os maiores níveis de abstração e devaneio junto do público até ao momento. Parecia a preparação ideal para o aguardado voo dos Spiritualized, banda que descende dessa máquina de "produzir música para consumir drogas para produzir música" que se extinguiu em 1991, os Spacemen 3. Mas o vocalista de óculos escuros e cabelo desgrenhado, único membro constante da banda oriunda de Rugby, no Reino Unido, trocou um pouco as voltas aos militantes, aqueles que aguardavam por auroras boreais e viagens pela estratosfera. Do álbum mais emblemático, "Ladies and gentlemen, we are floating in space", apenas se ouviu "Come together", a abrir o espetáculo.

Seguiram-se passagens por álbuns como "Lazer guided melodies", "Songs in A&E" ou "And nothing hurt" (último registo, lançado em 2018). E, sobretudo, seguiu-se um concerto desigual (o que não deixa de estar em linha com uma discografia também com altos e baixos). Momentos de vitalidade elétrica misturavam-se com canções delicodoces intermináveis, a pressão "shoegaze" esbarrava no coro "soulful", o que por vezes surtia num surpreendente paradoxo, outras anulava o sentido de cada um dos elementos. A combinação resultou em pleno no tema final, uma apropriação em espiral do hino gospel "Oh! Happy day", que resultou num coro massivo por parte do público, até aí dividido entre os telemóveis, a conversa com o parceiro do lado ou a devoção religiosa.

Uma questão de fé

Também religiosa é a relação que os fãs estabelecem com Father John Misty, reconhecendo de imediato cada tema a partir do primeiro acorde e renovando o entusiasmo a cada verso. Já para quem não frequenta a igreja, é complicado fazer uma avaliação. Poderá dizer-se que é tudo irrepreensível, que o homem emana classicismo da sua voz límpida, dos gestos contidos, do fato impecável, do enquadramento orquestral do seu "folk rock" que já entrou para o cânone. Mas continua-nos a faltar a fé...

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