Arte do Dia

Nós vamos encontrar uma maneira nova de viver

Nós vamos encontrar uma maneira nova de viver

"Só tens de ouvir a música, ela vai dizer-te o que fazer", aconselhou Raimund Hoghe, o coreógrafo parceiro de Pina Baush na década de 80. Foi o que fizemos, perseguindo as versões que escolheu para nos desarmar na sua mais recente passagem pelo Porto.

Nunca nos despedimos tantas vezes em tão pouco tempo, da família, dos amigos, dos dias, dos espectáculos, a vida interrompida, a liberdade suspensa, tornámo-nos distância e medo, incerteza e cansaço, "faz com que não morra sem voltar a ver-te", pede Pizarnik. Um ano depois de decretada a pandemia voltámos ao início, somos Sísifo sem pedra, temos as lágrimas presas, carapaça solitária, desolada, quem pode devolver-nos o futuro?

Raimund Hoghe, o pássaro alemão que vela pelos doentes e pelos marginalizados, visitou o velho amigo Porto na antecâmara deste confinamento e ensaiou a resposta. A segunda peça que apresentou no Teatro Rivoli quebrou-nos o casco do coração, esculpindo na despedida um longo arrepio, um poema. Ao fim da primeira hora daquele dueto de "Postcards from Vietnam", que todos sabiamos que seria o último por tempo indeterminado, quase todas as pessoas choravam na sala e do palco ele garantia ouvi-las, ouvir-nos. Não era o movimento dos bailarinos, é a força que gera aquela dança lenta colada quase sem toque, vidro invisível, a humanidade inteira ali erguida num momento em que o tempo parou e nos mostrou que estamos tão ocupados a tentar sobreviver que deixámos voar o telhado do que é essencial. Raimund Hoghe, 72 anos de despojamento, descalçou os sapatos, dobrou a roupa e os braços e parou o tempo.

"Só tens de ouvir a música, ela vai dizer-te o que fazer", disse algures o coreógrafo parceiro de Pina Baush na década de 80. Foi o que fizemos, perseguimos as versões, umas vinte, que escolheu para nos desarmar e que propositadamente (?) nunca coloca na ficha técnica dos trabalhos. Foi então que interiorizámos a promessa que segurou nas mãos antes de partir, depois de uma das ovações mais comoventes de que há memória naquele espaço: "Nós vamos encontrar uma maneira nova de viver outra vez".

Disse-o pela voz de Tom Waits, naquela que é curiosamente a única canção que o músico norte-americano não escreveu para o álbum "Blue Valentine" de 1978. Chama-se "Somewhere" e ouvi-la faz milagres. Tom Waits tem 71 anos e nunca atuou em Portugal. Se pudéssemos pedir um só concerto no tempo novo que um dia vai chegar, seria Tom Waits.

Ave disfarçada de corcunda, Raimund Hoghe continuou a vergastar-nos com doses de esperança embrulhadas nos gestos de um corpo-nascente. Não é possível sugerir a peça, a cultura está fechada e o futuro é ferida aberta, mas é desejável partilhar partes desta playlist que formalmente não existe mas que salva e que inclui "How high the moon" (Ella Fitgerald), "Sons of" (Scott Walker), "What kind of fool i am" (Sammy Davis J.), "My Way" na incrível voz de Mina Mazzini, e "We shall overcome" na versão da lendária Odetta Holmes, a compositora ativista que, ao contrário de Lady Gaga, desapareceu sem realizar o sonho de cantar na tomada de posse de Obama. Morreu um mês antes daquele janeiro de 2008 que não podia ser mais diferente deste janeiro de 2021.

A música torna-nos mais suaves e a literatura faz-nos mais altos. "Vita Nova" é o livro-acontecimento lançado pela Câmara Municipal do Porto na recta final do ano passado para nos compensar do Fórum do Futuro que não houve. É um festival inteiro dentro de um livro belíssimo (e gratuito), alternativa ousada porque em contraciclo com o digital, e é uma declaração de amor ao pensamento. Depois de aberto é quase impossível fechá-lo. Entre os vários textos, entrevistas, diálogos e preces, destaca-se o texto da filósofa italiana Rosi Braidotti: "Nós estamos nisto juntos mas nós não somos todos iguais". É uma dissertação à boleia da pandemia, em que nos fala da condição pós-humana.

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Diz ela: "Temos de ser lúcidos sobre os afectos envolvidos na nossa presente tribulação e também relativizá-los um pouco. E temos igualmente de resistir com a mesma lucidez à tração do pensamento apocalíptico e do abismo da autocomiseração: este é um tempo para organizar e não para agonizar. A atual crise pode tornar-nos mais inteligentes sobre o que estamos a deixar de ser e sobre quem somos capazes de nos tornar."

Quem poderemos nós ser? Sempre alguém que celebra a arte, sem a qual a vida perde parte do sentido. E o lugar onde pode levar-nos. O Teatro Viriato, em Viseu, começou este fim de semana a brindar com uma programação online, que podemos começar a seguir a partir de hoje. "Quando uma árvore (ou uma pedra gravada) se torna arte e cai no meio da floresta... sempre se ouve!"

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