Música

Novo álbum revela um Sérgio Castro mais solitário, humano e introspetivo

Novo álbum revela um Sérgio Castro mais solitário, humano e introspetivo

"Surge" é quase autobiográfico e percorre 50 anos de vida. Vai ser tocado, pela primeira vez ao vivo, este sábado, no Palácio de Cristal, no Porto.

O miúdo que conhecemos a vociferar o cru sotaque do Porto em formato Rock nos Trabalhadores do Comércio tem um alter ego mais negro e frágil. Ser Castro, heterónimo de Sérgio Castro, lançou no final do ano passado o álbum "Surge" e vai tocá-lo pela primeira vez, na Feira do Livro do Porto, ao lado de companheiros de viagem como Fernando Nascimento e Álvaro Azevedo (Arte & Ofício) ou Miguel Cerqueira e Joe Medicis (Trabalhadores do Comércio). É sábado, nos Jardins do Palácio de Cristal, às 19.30 horas.

Quase autobiográfico

Com tantos anos de música em projetos coletivos, alguns alheios, Sérgio Castro foi reunindo músicas que por vários motivos não eram adaptáveis a essas bandas. Pô-las na gaveta para agora as tirar, sob a forma do personagem Ser Castro, num disco em inglês, quase autobiográfico, mas que é antes uma panóplia de momentos dos últimos 50 anos da vida do autor.

São momentos altamente opostos ao Sérgio Castro rebelde e altivo que nos habituámos a conhecer e isso reflete-se na conceção dos temas. "Surge" é, assim, claramente mais solitário, humano e introspetivo do que os projetos coletivos anteriores. Tem pontos comuns com as bandas onde já o vimos, mas abre-se a porta da fragilidade humana com o reconhecimento das perdas, da morte, das saudades, do reconhecimento e agradecimento.

A linha cronológica das canções vai desde "On Willow Tree", do final da década de 60, que retrata as inquietações de um miúdo de 14 anos que se pôs a escrever porque achava que o Mundo estava todo a descambar, até "Hugs That We Miss", criada em 2014 para homenagear a cunhada que morreu e para oferecer ao viúvo e filhos. Foi este tema que levou Ser Castro à gaveta das canções esquecidas e decidir que era o momento certo para as compilar num álbum. "Com a idade e as vicissitudes da vida começamos a usar outra lente", deslinda Ser Castro.

"Surge" é heterogéneo no estilo, pois leva-nos do Soul ao Rock e deste à Pop ligeira em pequenos ápices, mas é pincelado com muito Blues e lembra várias vezes os temas mais sérios dos Trabalhadores do Comércio.

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"I"d rather be buried naked" é um dos temas que "podia perfeitamente ser dos Trabalhadores se fosse cantada em nortenho", constata o músico. A "My delightful friend", também no disco, foi feita com os Arte &; Ofício em 1979, mas a banda não gostou da canção. "Acharam que era uma coisa fora do contexto, só consegui tocá-la com eles ao vivo uma vez", recorda.

Sob a forma de livro

Fisicamente, o álbum é apresentado sob forma de livro, de Diana Castro, filha de Sérgio. É uma obra tão bem concebida que faz com que o disco seja quase uma adenda do livro. Há uma ilustração para cada canção, mais duas, 16 desenhos no total, feitos por cinco pintores e depois fotografados para acompanharem uma sinopse da história de cada tema, em duas línguas.

Ali lê-se como e por que razão cada música surgiu. As letras e as fichas técnicas também estão lá, ou não seria esta uma forma de degustar um álbum à moda antiga, a remeter para um tempo em que "mesmo as capas mais simples acabavam por ser apelativas e tudo aquilo fazia parte da mística de ouvir um álbum", justifica Ser Castro.

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