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"O alfarrabista de Ponta Delgada": as palavras que nos protegem do ruído

"O alfarrabista de Ponta Delgada": as palavras que nos protegem do ruído

Novo romance de Francisco Duarte Mangas, "O alfarrabista de Ponta Delgada" é uma harmoniosa narrativa a duas vozes que nos convida a uma fruição lenta e recompensadora.

Entramos em "O alfarrabista de Ponta Delgada" como se tateássemos território bravio, procurando captar em toda a sua extensão a riqueza imagética e vocabular que faz de Francisco Duarte Mangas um dos mais sólidos e interessantes ficcionistas portugueses do nosso tempo.

A estranheza não tarda a converter-se em fascínio, à medida que o desfiar das duas narrativas que compõem o romance se vai sobrepondo, resistindo até a um eventual menor conhecimento ou desembaraço relacionado com a botânica e a natureza, paixões confessas do autor, que já haviam dado origem a belos poemas e encontram agora o seu equivalente romanesco.

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Mais de uma centena de anos separam os dois narradores de "O alfarrabista de Ponta Delgada", cujos relatos convergem, todavia, para uma mesma procura de comunhão com a natureza e a certeza de que o vazio dos dias só se combate com uma entrega aos outros nem sempre evidente.

A braços com a solidão provocada pelos sucessivos confinamentos e os fantasmas de um passado pouco luminoso, Laura encontra num alfarrabista um intrigante manuscrito escrito no final do século XIX por um jardineiro inglês desterrado nos Açores.

É ele George Brown, o homem dado a silêncios mas dotado de uma alma sensível de quem vamos lendo extratos do seu diário. Centrados em boa medida nos seus esforços de construção de um jardim - tarefa para a qual foi incumbido por um dos homens mais ricos de Ponta Delgada -, esses escritos são também um repositório de lamentos sobre a indignidade e a exploração dos trabalhadores às mãos de poderosos sem escrúpulos, mas também acerca da exposição íntima da dor provocada pela morte abrupta de três dos seus jovens filhos.

Para combater essa devastação interior, Brown agarra-se a um sonho: o de tanger o vento das árvores, criando uma improvável sinfonia apenas ao alcance dos seres mais atentos. Afinal, como se lê a dada altura, "as árvores são como os homens, embora não andem".

Entre ambos os protagonistas tece-se assim um fio de proximidade cúmplice, entretecido pelas palavras serenas de Francisco Duarte Mangas, num romance que convida a uma fruição tão lenta quanto recompensadora.

De preferência, à sombra de uma árvore.

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